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domingo, 11 de julho de 2021

Minas e Geraes - Um recorte na cultura e na história através de Milton Nascimento

 

O livro traz um panorama histórico da música popular brasileira no século XX, com enfoque específico nas décadas de 60 a 80. Em um texto de raro conteúdo, a obra compõe a análise partindo do acontecimento dos discos “Minas” e “Geraes” de Milton Nascimento, que retrataram a efervescência social e cultural vivenciadas naquela época.




Você sabe quem é Manoel o Audaz?

 

A turma do Clube da Esquina a bordo de Manuel, o Audaz, em lindo clique de Cafi. A foto é apresentada na seção de ilustrações ao final de Os sonhos não envelhecem.


É esse jipe ai de cima. Um Land Rover ano 1951.

Toninho Horta e Fernando Brant, fizeram esta música em homenagem a Manuelzão, personagem de Guimarães Rosa, em Grandes Sertões Veredas.

Só que o Audaz, no caso, era um jipe amarelo, que enfrentava os sertões de Minas Gerais, com voracidade e levava a turma do Clube da Esquina para todos os lugares. A música pode ser encontrada no segundo disco de Toninho Horta em 1981.


Texto extraído de: https://bardomuseuclubedaesquina.com.br/voce-sabe-quem-e-manoel-o-audaz/

Música e Teatro (Parte 5): Milton Nascimento Nada será como antes

 





Música e Dança (Parte 4): Maria Maria / O Último Trem - Milton Nascimento e Grupo Corpo (2002)

 




Entre o êxtase e a estase: a música de Milton Nascimento

 


O trabalho traz como tema a música de Milton Nascimento, sob a perspectiva da mística, tendo como norte os conceitos de êxtase e estase. Em primeiro lugar buscou-se fazer um breve estudo sobre as conexões entre música e mística. A partir daí foi realizado um estudo sobre o músico e sua obra, com a canção Ponta de Areia servindo de eixo. Com o intuito de ampliar a discussão e fornecer novos apontamentos, travou-se a iniciativa de desnudar a relação entre pesquisador e o tema em análise, trazendo à tona aspectos pessoais, fundamentando-se em DAMÁSIO. Paralelo a isso houve um empenho em dialogar com a música de Milton e a mística por meio da criação de uma composição, amparado em LOPEZ-CANO e OPAZO.



Fonte Figura: https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2015/08/02/internas_economia,674427/ferrovia-bahia-minas-em-refaz-o-trajeto-da-linha-ferrea.shtml

sábado, 10 de julho de 2021

Coração Americano

 

Nada Será Como Antes, Cais, Nuvem Cigana, Trem Azul, Saídas e Bandeiras, Um Girassol da Cor de seus Cabelos, San Vicente, Cravo e Canela, Tudo que Você Podia Ser, eis algumas das obras-primas deste disco antológico, o Clube da Esquina, disco de Milton Nascimento e Lô Borges, de 1972.  Um grupo de músicos e compositores, encabeçado espontaneamente por Milton, realiza naquele ano um trabalho assombroso, que mexe com todos os parâmetros da cultura musical do país. É difícil, até hoje, apontar as origens daquelas composições. De onde saiu uma música como Cais, por exemplo? A melodia era nova, jamais sonhada antes. Não estava no samba, nem na bossa nova. E não apenas a melodia, mas também a rítmica, a harmonia, o arranjo (ouça o tema do piano no final da música) e a letra. Cada faixa apresenta o mesmo grau inacreditável de originalidade.

Pode-se imaginar algumas linhas de influência deste trabalho.Talvez Dos Cruces seja uma visita ao Sketches of Spain, da dupla Miles Davis e Gil Evans. É também a América Espanhola, que sempre esteve na cabeça musical de Milton. Daí temos ainda San Vicente. Quem nunca ouviu o bolero Dos Cruces em sua versão original, não imagina a transformação que Milton ali operou.
Em Me Deixa em Paz, do grande sambista Monsueto, temos, além da voz de Alaíde Costa, um violão espetacular do próprio Milton, recriando o samba de uma maneira inédita. Penso que esta gravação seja uma das maiores da história do samba. Há algo de Jorge Ben nela. No violão e no falsete com que Milton acompanha Alaíde. Temos aqui, em tudo isso, o atavismo do samba, o samba do quilombo, o ouro negro.
A balada Trem Azul, bem como as demais composições de Lô, mostram, com clareza, que havia mais do que a influência dos Beatles, em seu trabalho. Ele havia alcançado, antes dos vinte anos, o patamar dos grandes compositores. Suas músicas (nenhuma se parecendo com a dos Beatles) traziam novidade melódica e harmônica, dentro de uma forma impecável. Talvez Lô seja o maior compositor de sua geração, no mundo todo. Trem Azul tem uma certa atmosfera do Pink Floyd, mas sua construção é inédita. Poderia estar em Eric Satie, ou Debussy! No entanto, ele nos diz nesse livro, com o despojamento de sempre, que sua contribuição para a música de Milton foi o violão tocado com  palheta.
Algumas questões merecem atenção, quando falamos do Clube da Esquina, o grupo de músicos. Muitas vezes a crítica do eixo Rio-São Paulo o coloca como menos importante que o Tropicalismo. Este parecia, de fato, um movimento. “Eu organizo o movimento/ eu oriento o carnaval”, cantava esse poeta solar que é Caetano Veloso. Os tropicalistas lidaram com a música e com questões várias da cultura brasileira. O Clube da Esquina partiu da música para chegar na música. Não estava preocupado com as contradições musicais, tipo jovem guarda versus bossa nova. As contradições sociais e culturais – a bossa e a palhoça, o culto e o inculto, o preto e o branco, o erudito e o pop, a vanguarda e a massa, o nacional e o internacional - Milton as resolvia à sua maneira, em sua pessoa singular e com seus amigos.  O grupo portava, talvez mais que o tropicalismo, uma mirada planetária, onde cabiam grupos ingleses de rock, Miles Davis, música clássica francesa, polirritmia africana, a música brasileira de então (Tamba, Baden, Edu...) e sabe-se lá o que mais. Não foi um movimento, e sim um momento, em que as experiências musicais daqueles jovens se entrelaçaram.
Chico Amaral


Texto extraído de: http://www.chicoamaral.com.br/textos-prefacio.php?c=92

Os sonhos não envelhecem


Do começo ao fim é um livro que literalmente fala com o leitor, seja pelo depoimento voraz e arrebatador de Márcio Borges sobre a vida, a música, os relacionamentos e os sentimentos de milhares de jovens que, como ele, viram a brutalidade e a imbecilidade da opressão tomar conta do país entre os anos de 1960 e 1970. O livro traz uma curiosidade que não foi notada em seu lançamento, no início dos anos 90: uma personagem chamada Dilma, que veio a ser presidente da República. Por outro lado, Borges narra o surgimento de um gênio brasileiro, Bituca para os íntimos e Milton Nascimento para os brasileiros – o personagem central da obra. Nas entrelinhas, o autor também conta, com extrema habilidade, a história daquele movimento musical de jovens mineiros que correu o mundo. Os Sonhos Não Envelhecem está dividido em três partes: a Pré-História, seguido de História e a última Outra História, subdivididas em capítulos curtos e arrasadores. Para ilustrar, Os Sonhos conta com dezenas de fotos da turma, feitas nos bastidores do show bizz ou ainda na inocência de meninos e meninas que fizeram deste país um lugar melhor para se viver, pelo menos culturalmente. Segundo o editor da Geração Editorial, Luiz Fernando Emediato, a obra é comovente, sensível, capaz de fazer vibrar e chorar. “Márcio Borges nos surpreende com um livro extraordinário, misto de romance de geração e memórias de um Brasil conturbado e trágico, mas culturalmente muito rico”, conta Emediato. “Milton Nascimento é, sem dúvida, o personagem central deste depoimento maravilhoso de Márcio Borges, seu primeiro amigo, seu primeiro parceiro, a quem deve muito, talvez bem mais do que imagina – o menino-poeta que sabia fazer letras e aqui se revela escritor delicado e arrebatador, capaz de reconstruir com paixão e serenidade uma história alegre e triste da qual fizemos parte. Vale a pena ler, ouvir e emocionar-se”, completa. Além de Milton Nascimento, também há histórias de outros ícones da MPB como Lô Borges, Beto Guedes, Wagner Tiso e outros brasileiros, nesta obra de memórias de um tempo não muito distante. É um livro para quem gosta de história, de ler, sonhar e ouvir belas canções.


Dois lados da mesma viagem: a mineiridade e o Clube da Esquina



A obra de Milton Nascimento e do Clube da Esquina se tornaram, ao longo do tempo, referências estéticas essenciais para a compreensão da identidade do estado de Minas Gerais. Neste trabalho, procuramos inicialmente identificar alguns dos principais traços da história mineira e da formação de sua identidade, ou "mineiridade", e em que medida isso influenciou os integrantes do movimento. Para tanto, utilizamos teorias, sobretudo, de Zygmunt Bauman e de Stuart Hall, buscando as noções básicas sobre identidade, e aprofundando em estudiosos como Helena Bomeny e João Antônio de Paula a questão da identidade mineira. Em seguida, buscamos salientar quais elementos dessa mineiridade foram abordados por esse grupo de músicos, na forma e no conteúdo das canções estudadas. Também partimos do pressuposto que a evocação da memória de Minas feita pelo Clube da Esquina se deve, principalmente, a um esforço de se posicionar contra o projeto da ditadura militar. Para isso, utilizamos idéias de teóricos que abordam a questão da memória, como Walter Benjamin e Ecléa Bosi. Dessa forma, não só tentamos distinguir os principais questionamentos que emergiram desse corpus e das teorias utilizadas, mas também buscamos as respostas que nos parecessem mais elucidativas acerca do desenvolvimento e presença da mineiridade na obra do Clube da Esquina.

“Nuvem no céu e raiz” - Romantismo Revolucionário e Mineiridade em Milton Nascimento e no Clube da Esquina (1970 – 1983)


“Clube da Esquina” é como ficou conhecido um grupo de artistas, em sua maioria mineiros, dentre eles: Milton Nascimento, Wagner Tiso, os irmãos Márcio e Lô Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos, Toninho Horta, etc. Na década de 1970, o Clube ganhou reconhecimento nacional e internacional ao trazer, para o grande público, conteúdos estético-ideológicos que, por meio de novos processos de hibridação, combinavam música brasileira e estrangeira. Herdeiros do romantismo revolucionário da década de1960 e seu movimento de “ida ao povo”, Milton e o Clube fizeram da mineiridade uma personificação do romantismo. No entanto, ao mesmo tempo em que questionavam a modernidade capitalista, eles não deixavam de dialogar com alguns de seus elementos, propondo uma nova articulação entre o local e o global, o que lhes permitiria afirmar: “Sou do mundo, sou Minas Gerais”.


Fonte Figura: https://www.pipaprize.com/pag/artists/armando-queiroz/2017-nuvem-cigana-armando-queiroz/

A Sonoridade Específica do Clube da Esquina


 A expressão Clube da Esquina tem sido utilizada para se referir a um grupo de compositores, sobretudo cancionistas, na sua maioria mineiros, e instrumentistas que produziram um vasto repertório musical, principalmente na década de 1970 no Brasil. Tendo Milton Nascimento como personagem centralizadora, o grupo reúne dentre outros, Wagner Tiso, Márcio Borges, Lô Borges, Beto Guedes, Fernando Brant, Ronaldo Bastos e Toninho Horta. Ligados por afinidades musicais e poéticas, tiveram a cidade de Belo Horizonte-MG como local de formação inicial, encontros e fomentação da criatividade. Apoiando-se no contexto de transformações que permitiram marcar épocas, grupos, lugares e/ou personagens no cenário musical brasileiro do século XX, propôs-se um estudo sobre o Clube da Esquina. Por mais que a sua produção venha sendo identificada, pela crítica, como um movimento musical, dizer que ela é identificável por apresentar uma sonoridade particular parece mais coerente. O objetivo desta pesquisa é promover uma reflexão estética acerca desta sonoridade, entendendo-a como resultante da combinação de elementos composicionais, de arranjo e interpretativos (características individuais dos instrumentistas, gravação e outros). Para isto, foi escolhido o disco Clube da Esquina, de 1972 (com suas 21 canções), como material sonoro por entender que ele é um dos trabalhos que melhor sintetiza as características específicas do grupo. 


Em busca do consenso: Milton Nascimento e a perda dos laços comunitários

  





Quatro décadas de “Minas” e “Geraes”. A dimensão política da obra de Milton Nascimento

 

O  objeto  deste  trabalho  é  a  produção  cultural  de  Milton  Nascimento  e  sua  dimensão  política nos álbuns “Minas” (1975) e “Geraes” (1976). O método utilizado é o da teoria crítica,  pelo  qual  essas  obras  serão  compreendidas  na  dinâmica  histórica  da  sociedade  capitalista brasileira na ditadura militar. As músicas serão analisadas, não só em suas características sonoras, mas também temáticas, com o objetivo de constatar uma complementaridade entre os discos. Pretende-se examinar se os sentimentos dos artistas, em canções como  “Fé  cega,  faca  amolada”,  “Saudades  dos  aviões  da  Panair  (conversando  no  bar)”,  “Menino” e “O que será (à flor da pele)”, estavam em sintonia com os dissabores e as esperanças do povo brasileiro de então.

Para acessar o artigo na íntegra: 
https://revistas.ufg.br/fcs/article/view/42382/21341


Minas e Geraes: Milton Nascimento, poesia e música na ditadura militar de 1964


Este trabalho pretende estabelecer os pontos pertinentes onde os traços da cultura produzida pelos mineiros do movimento musical conhecido como ‘Clube da Esquina’ dialogam com os aspectos da arte global e do momento histórico da ditadura militar no Brasil. Serão abordados aqui dois LPs: ‘Minas’ e ‘Geraes’.


sábado, 12 de junho de 2021

De tudo que a gente sonhou - amigos e canções do Clube da Esquina

 


Texto e contexto, letra e música, gravação e interpretação, história macro da sociedade brasileira e história micro de um grupo, marginalidade e integração, regional, nacional e internacional, luta política e indústria cultural, censura, mercado e Estado, criatividade e padronização, tudo isso aparece muito bem costurado no livro, revelando o talento da autora para – ao estudar o Clube da Esquina em geral e alguns discos de Milton Nascimento em particular – dar conta do movimento contraditório da sociedade brasileira de uma época. Com delicadeza e elegância, que convivem com a inquietude do texto, são desenvolvidas análises inovadoras que atiçam o leitor a concordar ou discordar das formulações propostas.



sexta-feira, 11 de junho de 2021

TRAMAS MUSICAIS: De conversa em conversa (na Casa da Ópera) - Toninho Horta


O projeto “De Conversa em Conversa - 2ª Temporada” tem como objetivo principal levar ao público a arte e o pensamento de nomes representativos da Música Popular Brasileira. Cada encontro é composto de um debate sob a forma de uma “conversa ampliada” com uma apresentação de alguns sucessos do artista convidado, interpretados por ele mesmo, ou, se for o caso, acompanhado por um músico renomado.   A intenção é a de aproximar o público da trajetória de artistas consagrados por meio de conversas e bate-papos entremeados de performances e canções. 

Este modelo de evento - um talk-show com histórias, curiosidades e músicas - faz o artista ficar mais próximo da audiência, revelando segredos da sua vida, suas opiniões e valores, a maneira como cria e vê a sua arte, possibilitando o diálogo direto, dinâmico e produtivo com o público. Devido às condições ocasionadas pelo covid-19, o projeto precisou ser readequado para um formato virtual nesta segunda temporada. 

Músico, compositor, arranjador, cantor e agora também vencedor do Grammy Latino 2020, com o álbum “Belo Horizonte”. Toninho Horta, uma das principais referências do movimento musical Clube da Esquina, será o primeiro convidado da estreia da 2ª temporada do projeto “De Conversa em Conversa”. Com curadoria do decano da PUC-Rio, Júlio Diniz. Sendo transmitido no dia 10 de junho, as 20h, pelo canal do Youtube da Prefeitura de Ouro Preto. 

As próximas lives, estão marcadas para o dia: 
- 15 Julho (Evandro Mesquita) 
- 22 Julho (Wagner Tiso) 
- 28 Julho ( Francis Hime) - 29 Julho (Zezé Motta) 

A iniciativa conta com patrocínio da empresa CEMIG, por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e apoio da Prefeitura Municipal de Ouro Preto.


domingo, 9 de maio de 2021

Coração Americano com os sonhos no pé da estrada

Sem dúvida, o disco Clube da Esquina, lançado em 1972, é um dos mais emblemáticos álbuns da história da música popular brasileira, reunindo alguns dos mais expressivos nomes da música mineira. 

Para antecipar a celebração dos 50 anos de lançamento do LP cultuado de Milton Nascimento e Lô Borges, em 2022, o livro Coração Americano, organizado por Andrea Estanislau, ganha segunda edição que acaba de sair do forno.

Capa do disco Clube da Esquina, de 1972 

Num país desmemoriado e que cada vez menos valoriza sua cultura, a autora celebra a nova edição.”É uma história incrível que começou nas ruas de Belo Horizonte. É uma amizade linda de meninos comuns que se reuniram em torno da música e fizeram um disco que ainda ecoa nos quatro cantos do mundo. O Clube da Esquina”, diz a escritora ao Blog do Arcanjo.



A turma do Clube da Esquina posa com o ex-presidente JK em Diamantina, Minas Gerais, na década de 1970.



O livro traz textos de nomes como Juca Ferreira e João Paulo Cunha, além dos fotógrafos Wilton Montenegro e Ivan Simas. Claro que nomes históricos do movimento não poderiam deixar de figurar na obra, que apresenta depoimento do saudoso Fernando Brant, além de falas de Márcio Borges, Ronaldo Bastos, Tavito, Toninho Horta, Chico Amaral, Bernardo Novais da Mata Machado e Rodrigo James.


Texto extraido de: 
https://www.blogdoarcanjo.com/2020/08/12/livro-coracao-americano-revela-bastidores-do-disco-clube-da-esquina/


 

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Clube da Esquina - O Movimento (MG)


por Ivan Vilela

No início dos anos 60, em Belo Horizonte (MG), jovens músicos começam a se encontrar na cena musical da capital mineira. Eles produziam um som que fundia as inovações trazidas pela Bossa Nova a elementos do jazz, dorock’n’roll – principalmente The Beatles –, de música folclórica dos negros mineiros e alguns recursos de música erudita e música hispânica. Nos anos 70, esses artistas tornaram-se referência de qualidade na MPB pelo alto nível de performance e disseminaram suas inovações e influência a diversos cantos do país e do mundo. E é sobre esses músicos, sobre o Clube da Esquina, que falo agora.

Inicialmente representado por Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Márcio Borges, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga, a turma mineira foi agregando uma constelação de instrumentistas e compositores. Ainda que juntos tenham apresentado uma nova perspectiva musical, o Clube da Esquina não foi visto pela mídia e pelos estudiosos como um movimento. Mas, sem sobra de dúvida, se constituiu apropriando-se de um alicerce oferecido por diversos movimentos musicais e culturais pregressos.




Heranças dos anos 50

Os anos 50 e 60 do século 20 foram marcados por profundas modificações de ordem econômica, política e, conseqüentemente, social em todo o mundo. O movimento da Contracultura iniciado pelos Beatniks nos EUA e o existencialismo francês propiciaram mudanças no meio da juventude do Ocidente e as manifestações culturais refletiam esses novos tempos, em especial a música.

Em 1958, a Bossa Nova surge como uma nova alternativa estética à música popular brasileira. Ela propõe um novo uso melódico das tensões harmônicas e uma abordagem orquestral mais enxuta, tendo o violão – junto à voz – novamente como o centro da cena. E resgatando também os aspectos rítmicos do samba, que desde o samba orquestral dos anos 50 haviam se diluído.

No que toca à questão literária, a Bossa Nova realiza uma mudança de ordem estética. Os poemas das canções, sobretudo no tema amor, tratam das situações de maneira mais feliz e coloquial, menos parnasiana, resgatando a naturalidade contida outrora em Noel Rosa.


Eclodem os anos 60

A partir dos anos 60, começam a chegar ao Brasil a música e a arte pop, representadas sonoramente pelo rock’n’roll. Rapidamente, essa nova música, que estava ligada a uma mudança de comportamento social dos jovens, ganha adeptos no Brasil. Seus seguidores são identificados a partir do movimento da Jovem Guarda.

Agora, uma guitarra aliada a recursos eletrônicos de distorção sonora é que se faz presente. Poeticamente, tratavam de valores buscados pela juventude: a beleza, a ascensão social por meio da aquisição de um automóvel, uma postura “sem compromissos” diante das responsabilidades que se lhes apresentava, enfim, queriam romper com tabus que havia muito norteavam a conduta da juventude, principalmente a sexualidade.


Música de Protesto

Na mesma época, o Brasil era assolado por um golpe militar de direita contra o qual toda a intelectualidade ligada à esquerda se mobilizou. No campo artístico, passa a ser produzida uma música que protesta ante a situação que se configura. Essa música, na produção de alguns de seus principais compositores, começa a trazer a musicalidade de um Brasil mais ligado ao interior, ao camponês e às camadas sociais menos favorecidas. É a música ligada aos Centro Populares de Cultura (CPC). Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Carlos Lira, Marcos Valle, Sidney Miller e Sérgio Ricardo são compositores que se destacam nesse momento.

A juventude intelectualizada do Brasil olha com desprezo para a música produzida pela outra juventude, mais operária, mais suburbana. Nessa época, convivem no cenário musical a música da Jovem Guarda, da Bossa Nova, a Canção de Protesto.

Havia também alternativas mais sofisticadas que fundiam recursos bossa-novistas com temáticas interioranas, partindo assim para uma estilização de ritmos populares, como o baião – Edu Lobo é um exemplo dessa vertente. Aos poucos, a música popular brasileira ia manifestando a sua ubiqüidade.


Alegria, paródia e deboche

Em 1967, surge um movimento de artistas baianos e paulistas intitulado Tropicália, que visava, por meio de alegoria, paródia e deboche, a promover uma autocrítica que implodisse a já assim chamada MPB como um campo consolidado em sua “linha evolutiva”. Esse movimento, de bases intelectuais sólidas, propõe uma nova visita à Jovem Guarda autenticando alguns de seus elementos. Funde o som das guitarras distorcidas ao som orquestral, resgatando a musicalidade contida nos recônditos do Brasil. Propõe uma nova estética literária, mais ligada ao concretismo e não tão próxima de uma abordagem política explícita. Passam a utilizar o ruído (música concreta) como recurso sonoro.

A Tropicália abriu caminho para diversas tendências presentes na música brasileira ocuparem o seu lugar, de modo que tudo passou a fazer parte do novo conceito de MPB.

E, dentro da imensa diversidade sonora produzida até então, o Clube da Esquina reposicionou o espaço da MPB, certificando com qualidade a incorporação dos diversos elementos propostos pela Tropicália e outros movimentos.


Milton Nascimento

Em 1967, Milton Nascimento classificou três músicas – duas próprias e uma com letra de Fernando Brant – para a final do II Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Milton é premiado como melhor intérprete e ganha o segundo lugar com “Travessia”. A partir daí, a carreira de Milton é impulsionada.

Ainda em 1967, ele grava seu primeiro disco, “Travessia”. Em 1968, é convidado a gravar o disco “Courage” nos EUA. O convite revelou o imenso potencial de aceitação de sua música nos EUA. Em 1969, grava no Brasil o disco “Milton Nascimento”. A cada novo disco, Milton se supera como intérprete, como compositor e como instrumentista.


Um novo caminho para a MPB

Em seus três primeiros discos, Milton se apóia na experiência de grandes músicos como Luiz Eça e Dori Caymmi. Isso, por um lado, dá sustentação a seu trabalho e, por outro, faz com que ele mantenha uma sonoridade mais próxima da já existente, reservada aos grandes compositores e intérpretes da MPB.

Não obstante toda a musicalidade dos jovens do Clube, era visível que a sofisticação e os recursos dos elementos sonoros trazidos pela Bossa Nova permaneciam como referência de qualidade da MPB no exterior.
  
Porém, é em seu disco “Milton”, de 1970, que Milton e os rapazes do Clube da Esquina passam a trilhar um caminho sonoro totalmente próprio, autêntico e mais independente do passado da música brasileira. Esse disco tem como banda de apoio o Som Imaginário, mais Lô Borges e Naná Vasconcelos. Nele, o Clube se faz mais presente nas composições dos irmãos Lô e Márcio Borges e da sonoridade que funde recursos diversos existentes na MPB – como guitarras distorcidas – e inovações – como o uso determinante da percussão na música “Pai Grande”.

A percussão não faz mais o papel de acompanhante rítmico: agora é a de criadora de um evento que corre concomitantemente à voz e ao violão e com um volume maior que o usual das gravações.


O disco Clube da Esquina

A consolidação de uma linguagem própria se firma com o lançamento, em 1972, do disco “Clube da Esquina”, assinado por Milton Nascimento e Lô Borges. Esse álbum duplo traz a participação maciça de todos os membros do grupo de amigos músicos conhecido internamente como Clube da Esquina.


 A sonoridade obtida, o alto padrão de elaboração e a originalidade das composições e arranjos fizeram deste um dos discos antológicos da MPB. A música do Clube da Esquina trouxe diversos elementos novos à MPB, que, com o passar do tempo, se tornaram matéria de uso comum.

Diferentemente da Jovem Guarda e da Bossa Nova, mantiveram uma temática política presente, mas de forma subjetiva. O disco “Milagre dos Peixes” teve que ser feito, em grande parte, à base de vocalises, devido à censura de várias das letras.

As letras das canções em geral revelam uma inclinação a construções mais abstratas, imagens ou metáforas que talvez sejam mais soltas de uma tradição poética da canção brasileira que as costumeiras da época, e mesmo depois. Pouco se encontra da estrutura de romance ou de narrativas, histórias ou situações das quais se pode tirar alguma moral ou mensagem. Acerca disso, há uma interessante afirmação que sintetiza um pensamento literário, no caso de Márcio Borges, mas que em alguma medida pode ser estendido a outros poetas do grupo em suas letras: “Pelo menos não viessem me falar de mensagens... ‘qual é a mensagem dessa letra?’ Como se um poema pudesse funcionar como cabograma ou sinal de fumaça”.


Uma nova perspectiva musical

Milton inaugura uma nova forma de utilização do violão: como um instrumento ao mesmo tempo harmônico e percussivo. No samba e na bossa nova temos um violão batido dentro de um esquema rítmico. Na Tropicália e Jovem Guarda, a utilização do instrumento é feita de forma rasgueada (ou rasgada ou rasqueada é tocar violão passando os dedos ou a palheta pelas cordas correndo, de cima para baixo ou vice-versa, fazendo as cordas soarem; é uma forma não dedilhada de tocar violão), porém ainda respeitando um sistema rítmico predominante. Em Milton, poderíamos dizer que o violão passa a ser um instrumento arrítmico e de cordas percussivas.

Toda a base da música brasileira foi construída dentro de padrões rítmicos binários, ternários e quaternários. Milton desenvolve músicas em compassos quinários (em cinco tempos), além de trabalhar com compassos híbridos (pulsações diferentes numa mesma música). E também a execução de um samba, originalmente binário, em ritmo ternário.

Constroem a ponte com a música de nossos irmãos americanos de língua espanhola. Acabam por resgatar uma África que não veio pela via do samba e nem do candomblé. Trazem uma África mineira, irmã dos congados, moçambiques e caiapós e tambus.


 A percussão passa a ter um papel de solista concorrente ao melopoema (o resultado da melodia e letra, a canção). É um evento que acontece à parte do resto sem, no entanto, deixar de compor o todo. São os primeiros a colocar, em algumas canções, a percussão com um volume maior que a própria voz.

A voz, no Clube da Esquina, deixa de ser apenas o elemento que canta os melopoemas e passa a ser um instrumento que canta sem letra, que produz sons pouco usuais. O falsete, por exemplo, longe de ser um último recurso, torna-se alternativa tímbrica.

Conseguem também fazer a fusão do regional com o pop amalgamando os gêneros e estilos. Ouvindo não conseguimos localizar onde começa um e termina o outro. Esse procedimento passa, tempos depois, a ser usual em um segmento chamado World Music.

Criam uma sonoridade orquestral própria que diferia da forma como a Bossa Nova utilizava a orquestra, mais como uma moldura sonora, e da forma como a Tropicália também a utilizou, de forma mais narrativa. No Clube da Esquina temos uma orquestração de caráter mais impressionista, criadora de ambiências sonoras, e que às vezes corre à parte do evento musical que se apresenta.

No disco “Clube da Esquina”, vemos a proposta inusitada de dividir o panorama de escuta do som estereofônico de forma não eqüitativamente balanceada.

Poderíamos pensar no desenvolvimento da harmonia de música popular (progressões harmônicas, dissonâncias etc.) ao longo dos tempos por um caminho que vem de Mussorgsky, Debussy, música de cinema, big bands, simultaneamente, música brasileira e música estadunidense do pós-guerra e Bossa Nova.

Se analisarmos a obra do Clube da Esquina, veremos que, além da incorporação de toda a contribuição trazida pelo desenvolvimento acima exposto, foi criada pelo Clube uma maneira muito própria de harmonizar, visível a partir do disco “Clube de Esquina”. Não é à toa que o violão de Toninho Horta se tornou referência e as harmonias de Milton são as mais surpreendentes.

A sonoridade resultante do encontro desses músicos se tornou uma das principais marcas que acompanhou a música feita pelo pessoal do Clube da Esquina. Uma música em que os instrumentos, combinados, constróem mais do que um simples acompanhamento da canção. Constróem, sim, uma ambiência da qual a canção passa a fazer parte junto de eventos sonoros distintos que acontecem ao mesmo tempo. Como exemplo, vale passar os olhos nos comentários feitos acerca do disco Clube da Esquina.

A influência da música do Clube da Esquina se espalhou por diversos lugares e tendências. Um dia, em conversa informal com Ivan Lins, sugeri que a música de Gonzaguinha continha elementos melódicos presentes na música de Milton, ao que ele me respondeu que não só a de Gonzaguinha, mas a dele também, e frisou: “Milton e Jobim, aprendi muito tocando músicas desses dois”. A influência de Milton e de Toninho Horta, na maneira de compor e tocar a guitarra, é notória na música de Pat Metheny. A própria aproximação de Egberto Gismonti e de Wayne Shorter, que gravaram músicas de Milton, da obra deste, denota a força do trabalho dos mineiros.


Galeria


















Fonte:
http://www.museudapessoa.net/clube/o_movimento.htm

Fonte Imagem:
http://www.overmundo.com.br/overblog/clube-da-esquina-35-anos-depois
http://imagesvisions.blogspot.com.br/2012/06/o-clube-da-esquina-e-o-jipe-manuel.html
www.audiofagia.com.br
http://www.museudapessoa.net/clube/o_museu.htm
http://soulart.org/musica/o-fino-da-mpb-clube-da-esquina-1972/
http://www.azoofa.com.br/blog/resenhas/musica-que-nao-sai-de-moda
http://musicasbrasileiras.wordpress.com/2010/05/27/nos-bailes-da-vida-milton-nascimento/
http://caminhosdovaledoparaiba.blogspot.com.br/2011/05/amigo-e-coisapra-se-guardar.html
http://canguleiro2.blogspot.com.br/2012/03/14-bis-espelho-das-aguas-1981.html
http://www.1000recordings.com/music/lo-borges/
http://discologiaacervo.blogspot.com.br/2011/09/em-1979-beto-lanca-o-terceiro-album.html
http://andrefidusi.com/tag/musica/
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