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sábado, 9 de julho de 2022

Um século de Cobra Norato

Cobra Norato – ilustração de Poty

Já comentei aqui que o enredo de alguns livros, por nós lidos, a partir da nossa adolescência, principalmente, fica no arquivo da memória para sempre. É só alguém fazer referência sobre essa ou aquela obra, e logo nos vêm à lembrança: autor, personagens, contexto, etc. Por exemplo, reli recentemente – depois de 4 décadas -, “Cobra Norato”. Pense num poema apaixonante, o qual está dividido em 33 partes (critério do editor).

“Cobra Norato, poema genial de Raul Bopp, situa o autor como um dos maiores escritores de nosso país e presença de grande importância no movimento modernista da década de 1920, que tanto influenciou (e influencia até hoje), os caminhos da cultura nacional”. É uma observação, apenas sobre uma das grandes artes: a literatura.

Raul Bopp nasceu em 04 de agosto de 1898, na comunidade de Pinhal, no Município de Santa Maria (RS), e morreu aos 85 anos, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no dia 02 de junho de 1984. Seu bisavô migrou da Alemanha para o Brasil em 1924, onde passou a dedicar-se à criação de gado. A mãe de Raul era descendente da família Kroeff, também de origem alemã, veio para o Brasil aos 21 anos, em 1845. Ainda na terra natal, a moça ocupava-se do fabrico de vinho. Porém, nas horas vagas, escrevia versos, poemas com frequência.

Quando adolescente Raul “quis viajar pelo mundo”. Esteve, inclusive, no Paraguai. De lá, migrou para Mato Grosso, onde iniciou o curso de Direito, “completando-o em três outras cidades diferentes: Recife, Belém e Rio de janeiro”, por causa das suas constantes viagens Brasil afora. Conhecer novos lugares era para ele um contentamento, sempre. E, foi numa de suas “mudanças” que concebeu os primeiros versos do seu magistral poema.

Sobre o que observou em relação a Amazônia, escreve: “Era uma geografia do mal-acabado. As florestas não tinham fim. A terra se repete carregada de alaridos anônimos. Eram vozes indecifradas. Sempre o mato e a água por toda parte”. Por essa sua percepção, logo logo ele “passou a acreditar nos seres fantásticos da floresta: o Minhocão, o Curupira, o Caapora, o Mapinguari. Os “causos” que “ouviados canoeiros da Bacia Amazônica tornavam-se, para ele, a mais pura realidade. Cobra Norato, começava-se a se esboçar” – de um projeto para crianças transformado num poema para adultos.
Bopp participou diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Depois fez parte do grupo paulista verde-amarelo. Entre 1926 e 1929, o poeta viveu em São Paulo, onde fez parte do Movimento Antropofágico – “vertente do modernismo que marcou para sempre a história da cultura nacional, ao lado de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, entre outros. Passado essa fase, esteve ele no Extremo Oriente, Europa e América Latina. A partir de 1932, como diplomata serviu em: Cobe (no Japão), Iocoama, Los Angeles, Lisboa, Zurique, Barcelona, Guatemala, Berna, Viena e Lima” (1).

Sobre a obra em questão, leiamos o que escreveu o grande poeta Affonso Romano de Sant’anna: “Cobra Norato, é um texto emblemático. Raul Popp diz que começou a escrevê-lo em 1921, quando era estudante de Direto em Belém (…). Mas o que marcou a origem do poema foram os trabalhos de Antônio Brandão Amorim, onde Bopp sentia “um forte sabor indígena (…)”, ou seja, onde ou poema “ia se deixando impregnar pelas lendas amazônicas (como a da Cobra Grande, ou uma de suas variantes, a do Cobra Norato” (1).

O grande pesquisador Câmara Cascudo, em seu destacado “Dicionário do folclore brasileiro”, explica o seguinte sobre o poema de Bopp: “Uma índia se banhava estre os rios Amazonas e o Trombetas, quando foi engravidada pela Cobra Grande. Nasceram-lhe um menino – Norato – e a menina Maria Caninava. Maria era uma peste e vivia provocando naufrágios. Norato que era bom, foi obrigado a matá-la. Como penitência, Norato, à noite, passou a transformar-se em um rapaz sedutor, deixando na beira do rio sua longa pele. Diz a lenda que, se alguém conseguisse pingar leite na boca da cobra e ferir sua cabeça, ele se desencantaria e se tornaria só rapaz. Tal façanha foi conseguida por um soldado do rio Tocantins”.

Porém, ainda, segundo Romano, “há outras versões. Bopp criou uma variante própria. Arranjou uma moça para Cobra Norato – a filha da rainha Luzia. Mas, para cumprir seus prognósticos – vencer um ciclo exaustivo de provas. Terá que passar por SETE mulheres brancas, de ventres despovoados; terá que entregar a sombra pro Bicho do Fundo; terá que fazer mirongas, na lua nova”. Daí ser “um poema estranho, de leitura difícil”.

Assim, continua Sant’anna: “o encontro com o movimento antropofágico (…), foi muito importante para Bopp. Sobretudo o contato com Tarsila, em quem ele via a chefe do movimento e a quem dedica o poema”. E, ao concluir a sua análise literária, assegura: “o poético do texto vem menos do tratamento do verso do que da utilização do mito dentro da estética modernista” (1).

Em 1985, passado um ano da morte do poeta, Lígia Morrone Averbuck, tanto em “Cobra Norato” como em “Revolução Caraíba”, escreve com muita propriedade essas considerações: “Bendita Amazônia! Se Bopp não tivesse passado, em suas viagens curiosas e aventureiras, por esta região de lendas e mistérios, talvez não tivéssemos o genial Cobra Norato, a andar sinuoso, veloz e poético pela história das obras-primas da literatura brasileira e universal” (1).

Consta também, nesta edição, ora em estudo, um depoimento/entrevista – em quatro páginas – entre Raul Bopp e Maria Amélia Mello, editora chefe da “José Olympio”, ocorrido em 1976 e 1978, publicado, nos jornais, onde o poeta tanto fala sobre o Movimento de 1922 como da concepção com a da produção desse livro, o qual não deve deixar de ser lido por nós. Por isso voltei às suas páginas 4 décadas depois da primeira leitura. recomendação nossa.

Assim começa e finda o indispensável “Cobra Norato”: Um dia, eu hei de morar nas terras do Sem-fim (…) – Pois então até breve, compadre Fico-lhe esperando Atrás das serras do Sem-fim”.

Fonte: 1. Bopp, Raul. Cobra Norato; ilustrações de Poty – 29ª ed. – RJ: Editora José Olympio, 2010.



Texto extraído de: https://facetasculturais.com.br/2021/10/02/um-seculo-de-cobra-norato/
Fonte Imagem; https://facetasculturais.com.br/2021/10/02/um-seculo-de-cobra-norato/


quarta-feira, 22 de junho de 2022

Quem foi Ferreira Gullar? O artista dos poemas e das gravuras

“A arte existe porque a vida não basta”.



Essa citação de Ferreira Gullar, além de poética, expressa de forma graciosa a mais perfeita tese sobre a conexão da arte com o sentido de vida.

Nascido em 1930, o brasileiro Ferreira Gullar nunca foi óbvio. Afinal, representou muitos em um só, conquistando papel de destaque em tudo que se propôs a fazer, seja como poeta, artista, intelectual, crítico de arte ou gravurista.

Seus trabalhos marcaram a história da literatura brasileira e latino-americana pelo bom gosto e elevada qualidade. Assim, tanto a sua primeira grande coleção de poemas publicados em 1954 como a sua obra Concreta e Neoconcreta (1957 e 1959) influenciaram diversas gerações.

Seu brilhantismo foi tanto que, em 2014, Gullar conquista uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Assim, torna-se um poeta imortal, um simbolismo sublime que combina com sua jornada.


Breve Biografia de Ferreira Gullar


Nascido em São Luís do Maranhão como José Ribamar Ferreira (10 de setembro de 1930 – 4 de dezembro de 2016), o artista Ferreira Gullar elege, em 1951, o Rio de Janeiro como morada. Poucos anos depois, em 1959, ele se destaca como peça fundamental para a formação do Movimento Neoconcreto.


Sem papas na língua, Gullar fica conhecido por expressar tudo o que pensa. Assim, sua trajetória é marcada pelo espírito de livre pensador e por seu engajamento no cenário político. Uma prova disso é o fato de que ele se torna presidente do Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes (CPC/UNE), em 1962. Dois anos depois, em 1964 (ano do Golpe Militar), filia-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Seu temperamento e visão política não passam despercebidos. Assim, o decreto do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, o atinge em cheio. Logo, é preso e, em 1971, é exilado. Nos anos seguintes vive em países diferentes, como França, Rússia, Chile, Peru e Argentina, onde segue escrevendo para o Pasquim, um jornal que combatia a ditadura de forma inteligente e bem-humorada.

Enquanto mora em Buenos Aires, escreve seu mais famoso poema, Poema Sujo, de 1975. Lido em um encontro organizado por Vinicius de Moraes, o poema é gravado em fita. Então, o cantor o traz para o Brasil e o compartilha com vários outros artistas. Em seguida, o poema é transcrito e publicado em 1976.

Com mais de 2000 versos, “Poema Sujo” se baseia nas memórias de infância e na adolescência vivida em São Luís. Seus escritos também retratam a angústia em estar longe de sua terra natal.
Acreditando que aquelas poderiam ser suas últimas palavras escritas, Gullar enxerga nesse poema a necessidade de descrever “um testemunho final antes de silenciá-lo para sempre”.

Em 1977, seus amigos artistas negociam a volta segura de Ferreira Gullar para o Brasil. Em seu país, ele escreve em jornais e também publica livros. De volta, o poeta mantém uma coluna semanal de sucesso no jornal Folha de S. Paulo e também começa a escrever para o teatro e a televisão.

Entre os principais textos, ensaios, poemas e livros de Ferreira Gullar temos:
 “A luta corporal”, de 1954
“Manifesto neoconcreto” e “Teoria do não-objeto”, de 1959
“João Boa-Morte, cabra marcado para morrer”, de 1962
“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, de 1966 (peça em 3 atos)
“Dentro da noite veloz”, de 1975
“Poema sujo”, de 1976
“Na vertigem do dia”, de 1980
“Argumentação contra a morte da arte”, de 1993
“Muitas vozes”, de 1999
“Em alguma parte alguma”, de 2010
“Autobiografia poética e outros textos”, de 2015 (ensaio autobiográfico)


Quem foi Ferreira Gullar: Gravuras e Pinturas


Além dos poemas, Ferreira Gullar é reconhecido também como crítico de artes plásticas. Nessa área publicou títulos como Sobre Arte (1983) e Etapas da Arte Contemporânea: Do Cubismo à Arte Neoconcreta (1998).

A versatilidade de Gullar não se mostra apenas pela produção dos mais diferentes ensaios, reportagens ou livros, mas também por suas criações no campo da pintura e da gravura. Sobre essas estéticas, o artista fez a seguinte declaração:
“…um quadro, uma gravura ou um desenho pode nos facultar prazer estético –como, por exemplo, algumas gravuras de Marcelo Grassmann ou certos quadros de Iberê Camargo, ainda que o que nos mostrem seja uma cena cruel ou sofrida. Tudo bem, mas a questão que se coloca é a seguinte: não seria mais gratificante, para quem os vê, poder fruir deles, juntamente com a beleza formal e a realização artística, uma visão plena de vida e felicidade?”


Ferreira Gullar e o Neoconcretismo


Ferreira Gullar foi uma peça-chave para o Neoconcretismo, movimento de vanguarda que ocorreu no Rio de Janeiro de 1959 a meados da década de 1960.

Considerado um “divisor de águas” na história da arte brasileira do século XX, esse movimento teve Ferreira Gullar como um de seus precursores. Valorizando o subjetivismo da criação artística, o neoconcretismo surgiu também como uma forma de criticar o racionalismo e o dogmatismo do movimento concretista. Nesse cenário, Gullar guiou o movimento por meio de sua poesia, crítica de arte e trabalho de curadoria.

Além dele, artistas, como os poetas Reynaldo Jardim e Theon Spanudis, renovaram os parâmetros artísticos. Assim, combinaram a mídia tradicional (como pintura e escultura) com poesia, teatro, arquitetura, dança, literatura e design gráfico.

Ferreira Gullar (1930-2016) devotou-se a um hobby: produzir colagens. Poeta, crítico de arte e autor do Manifesto Neoconcreto, que projetou Lygia Clark e Hélio Oiticica nos anos 50, Gullar recebeu um impulso curioso para se lançar na arte dos relevos feitos de papel recortado com tesoura. Certo dia, seu gato — o Gatinho — deu uma patada nos papéis que ele se preparava para colar, revelando o avesso deles. 

Relevos nascidos do acaso

A relação de Ferreira Gullar com o movimento atingiu seu auge com a criação do “Manifesto Neoconcreto” (1959), que enfureceu acadêmicos, mas foi ovacionada por artistas de vanguarda.
O reconhecimento de Gullar aconteceu apenas na década de 1990. Nesse período, foi agraciado com os mais diversos prêmios e homenagens, como o Jabuti. Em 2002, recebeu uma indicação para o Prêmio Nobel de Literatura e, em 2014, aos 84 anos, tornou-se um imortal da ABL. Morreu dois anos depois deixando um legado e uma história de vida incríveis.



Texto extraído de: https://laart.art.br/blog/ferreira-gullar/
Fonte Imagem:
https://laart.art.br/blog/ferreira-gullar/
https://www.ovictoriano.com.br/page/noticia/artistas-homenageiam-ferreira-gullar
https://www.revistasim.com.br/exposicao-apresenta-obras-ineditas-de-ferreira-gullar/
 

terça-feira, 18 de maio de 2021

Bois do Brasil

 Naquele canto desconsertante

seguia a tropa fugaz e enebriada pelo canto do vaqueiro

Boi anil, da cor da terra e encarnado

Boi de fita e chifre, de laço e polaco

Com olhar de bicho manhoso e de estrela na testa,

 levam cores para o monocromático sertão...


Bois do Brasil
Frederico do Valle