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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Da violência ao axé: a verdadeira história da Lavagem do Bonfim

 

A imagem que hoje corre o mundo é de paz, cor e sincretismo: mulheres vestidas de branco, baldes de água de cheiro, flores, cânticos e o perfume da alfazema escorrendo pelas escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador. A Lavagem do Bonfim é celebrada como símbolo da religiosidade baiana, da convivência entre catolicismo e candomblé, da alegria como expressão da fé. Mas por trás dessa cena consagrada existe uma história menos conhecida — marcada por violência, segregação racial, escravidão e resistência cultural.

A origem da devoção ao Senhor do Bonfim remonta ao século XVIII e começa com um homem que, embora hoje associado à fé, estava profundamente ligado à engrenagem do tráfico de pessoas escravizadas. Teodósio Rodrigues de Faria, oficial da Marinha portuguesa e traficante de escravos, teria escapado de um naufrágio em alto-mar e feito uma promessa: se sobrevivesse, levaria para Salvador uma imagem do Senhor do Bonfim, devoção já popular em Setúbal, Portugal.

Teodósio cumpriu a promessa em 1745. A imagem chegou à Bahia e, pouco depois, iniciou-se a construção do templo no alto da Colina Sagrada, na península de Itapagipe. A igreja foi erguida com trabalho majoritariamente escravizado — mãos negras que cortaram pedra, levantaram paredes, carregaram madeira e moldaram um dos principais símbolos do catolicismo baiano. O mesmo chão que hoje recebe flores e água perfumada foi, um dia, pisado por corpos acorrentados.

Ironia da história: o homem cuja fé deu origem ao templo — e cujo túmulo até hoje está dentro da igreja — construiu sua fortuna traficando seres humanos. A devoção que se tornaria símbolo de mistura religiosa nasceu, portanto, dentro da lógica colonial que explorava, catequizava e silenciava.

Com o passar do tempo, os escravizados não apenas construíram o espaço físico da igreja, como também passaram a se apropriar dele espiritualmente. Para além da liturgia católica oficial, eles levaram para dentro do templo seus próprios ritos, saberes e tradições. No Senhor do Bonfim, muitos reconheceram Oxalá, o orixá da criação, da paz, da ancestralidade e do branco — aquele que veste o mundo de calma e equilíbrio.

O ritual das águas, central nas cerimônias dedicadas a Oxalá, passou a ser praticado dentro da igreja. A lavagem simbólica do chão não era apenas limpeza: era oferenda, era reza, era memória africana sobrevivendo em território hostil. Durante anos, essa prática coexistiu de forma tolerada — ou ignorada — pelas autoridades eclesiásticas. Até que deixou de ser.

Quando a Igreja Católica percebeu que o espaço sagrado estava sendo usado para rituais que escapavam ao controle doutrinário europeu, veio a interdição. Os mesmos corpos que haviam erguido o templo foram proibidos de exercer ali sua fé. A água de Oxalá, antes derramada no interior da igreja, foi vetada. O chão que aceitara o suor do trabalho escravizado não podia mais receber sua espiritualidade. A exclusão não foi apenas religiosa: foi racial, cultural e simbólica. Aos negros, restava assistir de fora. Literalmente.

Foi então que ocorreu o grande ponto de virada da história — o verdadeiro plot twist que transformaria violência em festa, exclusão em celebração pública. Se não podiam lavar o interior do templo, lavariam o que estava do lado de fora. As escadarias.

Nascia ali, não por concessão, mas por resistência, a Lavagem do Bonfim como é conhecida hoje. O gesto era simples e profundamente político: levar para a frente da igreja aquilo que lhes fora negado dentro. A água, o branco, os cânticos, o axé — tudo permanecia, agora exposto à rua, ao povo, à cidade inteira. A festa ganhou cores de Oxalá, sons de atabaque, cheiros de ervas sagradas. Tornou-se pública, coletiva e impossível de silenciar. Aquilo que a Igreja tentou conter, a fé popular expandiu.

Ao longo dos séculos XIX e XX, a Lavagem do Bonfim cresceu, foi incorporada ao calendário oficial da cidade e, não sem conflitos, passou a ser tolerada — depois celebrada — pelo poder público e pela própria Igreja. Ainda assim, as tensões nunca desapareceram completamente. Em diversos períodos, padres tentaram proibir a entrada das baianas no templo, fechar portas, conter excessos. Em resposta, a festa sempre se reinventou, mantendo seu caráter híbrido e popular.

Hoje, a Lavagem do Bonfim é considerada uma das maiores manifestações religiosas do Brasil. Reúne milhares de pessoas, mistura fé, cultura, turismo e política. É palco de promessas, protestos silenciosos, pedidos de justiça, agradecimentos e memórias ancestrais. Políticos disputam espaço, artistas acompanham o cortejo, e o mundo fotografa o espetáculo.

Mas compreender a Lavagem apenas como festa é apagar sua origem mais profunda. Ela não nasceu do consenso, mas do conflito. Não foi criada pela instituição, mas pela exclusão. É filha direta da segregação racial e da tentativa de apagar práticas africanas — e, justamente por isso, tornou-se um dos mais poderosos símbolos de permanência da cultura negra no Brasil.

Quando as baianas jogam água nas escadarias, não estão apenas limpando pedra. Estão lavando a história. Estão lembrando que aquele espaço foi erguido por mãos escravizadas, que a fé negra foi expulsa para fora e que, ainda assim, resistiu. Cada balde derramado é um gesto de memória contra o esquecimento.

No alto da colina, dentro da igreja, repousa o túmulo de Teodósio Rodrigues de Faria — o traficante que prometeu, construiu e morreu. Do lado de fora, a vida pulsa em branco, dança, canta e transforma dor em axé. É ali, nas escadarias, que a história brasileira se revela com mais verdade: marcada pela violência, mas também pela capacidade extraordinária de reinventar a fé como forma de sobrevivência.

A Lavagem do Bonfim não é apenas uma festa. É um testemunho. Um rito nascido da proibição. Um altar erguido fora dos muros. E talvez por isso mesmo seja tão poderosa: porque lembra, todos os anos, que quando a fé é expulsa, ela não desaparece — ela ocupa a rua e vira povo.


Texto extraído de: https://revistaforum.com.br/brasil/da-violencia-ao-axe-a-verdadeira-historia-da-lavagem-do-bonfim/
Fonte Imagem: https://revistaforum.com.br/brasil/da-violencia-ao-axe-a-verdadeira-historia-da-lavagem-do-bonfim/

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Sincretismo religioso no Candomblé

 


Os Orixás, representantes das forças naturais e dos ancestrais africanos, foram habilmente sincretizados com os santos católicos. Essa fusão permitiu que os escravos praticassem sua religião de forma camuflada...

Sincretismo Religioso no Candomblé: Uma Jornada de Resistência e Diversidade, O Candomblé, uma religião afro-brasileira, é mais do que uma prática espiritual; é um testemunho da resiliência dos povos africanos que, trazidos como escravos para o Brasil, forjaram uma conexão única entre suas tradições e as circunstâncias adversas do novo mundo.


ORIGENS E CULTO AOS ORIXÁS

O Candomblé cultua os Orixás, deidades que personificam as forças da natureza e os ancestrais. Cada Orixá possui uma identidade distintiva, correlacionada a uma cor, símbolo, dia da semana, comida e, notavelmente, a um santo católico. Essa associação é um exemplo vívido de sincretismo religioso, um fenômeno nascido da repressão e intolerância enfrentadas pelos praticantes do Candomblé durante o período colonial e pós-colonial no Brasil.


O SINCRETISMO RELIGIOSO NO CANDOMBLÉ: UM ATO DE RESISTÊNCIA

A imposição da conversão ao catolicismo não apagou as crenças originais dos escravos africanos. Em segredo, eles fundiram seus rituais com símbolos católicos, estabelecendo uma correspondência entre os Orixás e os santos. Essa prática não era apenas uma adaptação necessária; era um ato de resistência, permitindo que sua fé persistisse sob a fachada de uma nova aparência religiosa.


INFLUÊNCIAS CULTURAIS E ÉTNICAS NA FORMAÇÃO DO CANDOMBLÉ

A diversidade cultural e étnica dos escravos africanos, oriundos de diferentes nações, como nagôs, jejes, bantus, angolas e congos, desempenhou um papel vital no sincretismo do Candomblé. Cada nação contribuiu com suas próprias divindades, rituais e tradições, criando uma tapeçaria única que se adaptou ao contexto brasileiro. Além disso, o Candomblé absorveu elementos de outras religiões, como espiritismo, indigenismo e islamismo, ampliando ainda mais sua riqueza cultural.


PERSISTÊNCIA, PRESERVAÇÃO E CRIATIVIDADE AFRO-BRASILEIRA

O sincretismo religioso no Candomblé é uma narrativa de persistência e preservação da cultura afro-brasileira. Apesar das adversidades históricas e sociais, os praticantes conseguiram manter sua identidade e fé. O Candomblé, como resultado, não é apenas uma religião; é um testemunho vivo da pluralidade, dinamismo e criatividade que moldam a cultura afro-brasileira.



ORIXÁS SINCRETIZADOS UMA EXPRESSÃO VÍVIDA DE SINCRETISMO

Os Orixás, representantes das forças naturais e dos ancestrais africanos, foram habilmente sincretizados com os santos católicos. Essa fusão permitiu que os escravos praticassem sua religião de forma camuflada, associando Orixás a santos católicos com atributos semelhantes. Exemplos notáveis incluem:

Iemanjá, deusa dos mares, associada a Nossa Senhora da Conceição.

Iansã, deusa dos raios, vinculada a Santa Bárbara.

Xangô, deus do trovão, sincretizado com São Jerônimo ou São João.

Oxóssi, deus da caça, ligado a São Jorge ou São Sebastião.

Oxum, deusa do amor, associada a Nossa Senhora das Candeias ou Nossa Senhora Aparecida.

Ogum, senhor da guerra, sincretizado com São Jorge Guerreiro.

Essas correspondências variam conforme a região, a nação e a tradição do Candomblé, exemplificando a riqueza da relação entre Orixás e santos.


SINCRETISMO RELIGIOSO NO BRASIL HOJE UMA CELEBRAÇÃO DE DIVERSIDADE

O sincretismo religioso transcende o Candomblé, tornando-se uma realidade que reflete a diversidade cultural do Brasil. Um país que recebeu povos de várias partes do mundo, essa nação sul-americana é um mosaico de crenças e práticas religiosas. Além do Candomblé, o sincretismo manifesta-se de diversas maneiras:


UMA HERANÇA DE RESILIÊNCIA E DIVERSIDADE RELIGIOSA

O Candomblé e a Umbanda, religiões afro-brasileiras que mesclam elementos de tradições africanas, catolicismo romano e espiritismo.

A Festa do Divino Espírito Santo, uma celebração católica que incorpora elementos das culturas indígena, africana e portuguesa.

A música popular brasileira, expressando influências de diferentes religiões na cultura nacional, como samba, axé, pagode, rap e reggae. 


CONCLUSÃO

O sincretismo religioso no Candomblé é mais do que um fenômeno histórico; é uma herança viva de resistência e resiliência cultural. A riqueza e complexidade do sincretismo religioso no Brasil refletem a habilidade do povo brasileiro de integrar diversas influências, construindo uma identidade religiosa única. Hoje, o sincretismo é celebrado como uma manifestação da diversidade cultural, enraizada na herança dos povos que contribuíram para a formação da nação brasileira.


Texto extraído de: https://erinle.com.br/sincretismo-religioso-no-candomble/

Fonte Imagem: https://erinle.com.br/sincretismo-religioso-no-candomble/

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

São Gonçalo, o santo dos violeiros

  

São Gonçalo é um santo português da cidade de Tagilde nasceu no ano de 1187, estudou rudimentos com um devoto sacerdote. Depois, frequentou a escola arquiepiscopal em Braga. Depois de ordenado sacerdote, foi nomeado pároco de São Paio de Vizela.


Ele morreu no dia 10 de janeiro de 1259 em Amarante, no Douro, à margem direita do rio Tâmega, em Portugal. Após sua morte, passou a ser protetor dos violeiros, remédio contra as enchentes, além de casamenteiro, como é conhecido em Portugal. Ele foi canonizado em 1561. O rei de Portugal D. João III, um grande devoto, foi um dos primeiros a empenhar-se para a beatificação de São Gonçalo em Roma. Em Portugal a sua festa é realizada em Amarante, no dia 7 de Junho e dedicam-lhe uma semana de festejos, com procissões, bandas de música, folguedos populares, etc.


No Brasil São Gonçalo é considerado PADROEIRO DOS VIOLEIROS e a sua imagem é sempre apresentada empunhando uma violinha, em atitude de tocador, sua festa é comemorada no dia 10 de janeiro.


Dentro da tradição popular existe, também, a Dança de São Gonçalo que é exclusivamente religiosa, executada para cumprir promessa ou pedir proteção. Diante de um altar enfeitado, com a imagem de São Gonçalo de Amarante, dois violeiros puxam a dança, a qual se caracteriza pelo fato do homem e da mulher ficarem, lado a lado, de braços dados e não abraçados e, com todo respeito, cantam, avançam com evoluções, fazem reverências, voltam ao final da fila, sempre com a frente virada para o Santo, sem lhe dar as costas; com duração de doze “jornadas”.

Dança de São Gonçalo - Grupo Zabelê, Pirapora/MG

Dança de São Gonçalo - Grupo Zabelê, Pirapora/MG


Texto extraído de: http://fasterradapadroeira.blogspot.com/2011/12/sao-goncalo-padroeiro-dos-violeiros.html

Fonte Imagem: http://zabeleparafolclorico.blogspot.com/2014/09/rodas-de-sao-goncalo-fe-e-festa.html

Congado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia - Ouro Preto das Minas Gerais

 



Segundo domingo de janeiro na Terra das Almas.

Um endereço de Brasil no meio de Minas Gerais que recebeu esse nome exatamente dos homens e mulheres negros que começam a chegar. Pelos cantos que ecoam, por suas roupas coloridas e bandeiras hasteadas, sentimos que eles trazem consigo histórias de outras terras para contar. Pela postura firme e pelo olhar profundo de dignidade, sabemos que eles são filhos de reis, trazem seus antigos pulsando em tambores. Aos poucos, entendemos: são reis e rainhas do Congo no Brasil, são Congados de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia.

Fitas coloridas, roupas brancas, bandeiras, reisados e procissões: os grupos se encontram, se apresentam, se festejam. A cidade se transforma em um tear de histórias trançadas diante dos olhos e ouvidos atentos. Sempre à frente nas andanças e os primeiros a se apresentar, o grupo da casa: a Guarda de Ouro Preto.

O Congado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, Guarda de Ouro Preto, é formado por descendentes de um Rei do Congo, um africano negro chamado Galanga que foi escravizado e no Brasil foi chamado pelo nome Francisco. Na então Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto no estado de Minas Gerais, Galanga conseguiu autorização para explorar uma mina de ouro abandonada e, nos seus poucos intervalos de trabalho, extraiu o minério que usou para comprar a sua liberdade, a de seu filho e a de outras 300 pessoas de seu povo. Em uma igreja da vila, Francisco conheceu e se encantou pela imagem de uma santa negra: Santa Efigênia. E foi para ela que, em 1747, Galanga fez uma festa de agradecimento pela liberdade alcançada: o primeiro Congado da região, no qual ele foi coroado como Chico Rei, um rei do Congo no Brasil.

Essa história ora não aparece nos livros do Brasil, ora é citada como lenda mas, para as famílias congadeiras de Ouro Preto, Chico Rei é memória de uma realidade preservada a partir das falas e dos cantos de seu povo.

A festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e de Santa Efigênia é uma das celebrações mais importantes de Congados no Brasil. A Guarda de Ouro Preto é anfitriã do festejo que recebe cerca de trinta outros Congados e um público de 10 mil pessoas a cada janeiro para celebrar Chico Rei.

“Trazemos a memória dos nossos ancestrais.
Nós somos da matriz de Chico Rei.”
CAPITÃ KATIA, CONGADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SANTA EFIGÊNIA


Nas festividades de congadas, que foram disseminadas a partir de Ouro Preto para outras regiões de Minas Gerais e do país, são celebradas várias outras histórias que têm os povos e culturas negras como protagonistas. Uma das principais narrativas celebradas nos Congados é a da aparição de uma imagem de Nossa Senhora do Rosário no mar, na época da escravidão: conta-se que a imagem apareceu no mar e os brancos tentaram tirá-la da água sem sucesso várias vezes, foi então que permitiram que negros tentassem e eles, com seus tambores, danças e simpatias, conquistaram a confiança de Nossa Senhora do Rosário que veio para a praia.


“Foi na beira do mar
Foi que nêgo chorou…
Ao ver Nossa Senhora
Saindo das águas
Coberta de flor.”
TRECHO CANTADO PELO CONGADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SANTA EFIGÊNIA


Com a intenção de manter vivas as energias ancestrais e para agradecer aos santos de sua devoção, cada folguedo ou guarda de Congado prepara cortejos e performances que trazem uma reversão simbólica de situações de repressão vividas por africanos escravizados no Brasil. Para muito além da beleza, as festas de Congadas são procissões de fé de povos que, utilizando-se de uma estética da sobrevivência, afirmam entre si a possibilidade de uma estrutura social que tenha tambores no centro e homens e mulheres afro-brasileiros coroados como reis e rainhas.


“Essa canção
Sai dentro de sua alma
Em forma de oração
Para quebrar as correntes
Do racismo e da opressão.”
TRECHO CANTADO PELO CONGADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SANTA EFIGÊNIA


Em 2015, a Guarda de Ouro Preto estava sob o comando de três capitães: Rodrigo, Francisco e Kátia (a primeira mulher à frente de um Reinado em Ouro Preto). Capitães são os congadeiros de um grupo responsáveis pela organização e sintonia de seu Reinado, mantendo tanto o zelo pelos saberes e crenças passados de pais para filhos, como cuidando de todos os detalhes da organização de um folguedo.

Em um Reinado do Congo, tudo é sobre fé e, portanto, tudo é sagrado: instrumentos, vestimentas, rituais, encenações. Além dos capitães, outros elementos importantes de uma Congada são o rosário (símbolo da devoção à Nossa Senhora), a corte formada por um rei e uma rainha, normalmente homens e mulheres negros admirados pela comunidade, e as bandeiras: estandartes de tecido ornamentados que muitas vezes trazem imagens de santos e abrem os caminhos para o início dos folguedos ou das festas em casas.  

Durante a festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e de Santa Efigênia, os Congados - a começar pelo anfitriã Guarda de Ouro Preto - vivem alguns rituais como a procissão da Alvorada, o levantamento dos mastros das bandeiras, a confirmação das coroas, o cortejo com as bandeiras e a descida dos mastros. Nesse ano, as vozes se fizeram ainda mais potentes: os grupos puderam ecoar a sua louvação (cantos) em um espaço onde por muitos anos foram silenciados,: dentro da igreja.

Mas tão forte quanto o que vivem nesses dias é o que os Congados levam de volta para seus caminhos e casas após a festa. Nas canções e nas conversas, os congadeiros trocam conhecimentos sobre os antigos, escutam histórias e reafirmam suas crenças. Após entrar na igreja para fazer a sua louvação, soltar em voz firme as histórias cantadas que os representam… eles carregam consigo a reafirmação da fé, do encanto e da potência afro brasileiras. Com as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário, fortalecidos em Chico Rei, seu semblante na hora de ir embora ensina: sim, é bonito resistir.

 


Texto extraído de: https://hibridos.cc/po/rituals/congados/
Fonte Áudio: https://hibridos.cc/po/rituals/congados/
Fonte Imagem: https://hibridos.cc/po/rituals/congados/

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Orixás e Santos: cruzamentos da fé

  

O sincretismo é um fenômeno constituinte da religiosidade brasileira e das religiões de uma forma geral. É notório que o sincretismo não se restringe apenas a uma simples analogia do Orixá ao Santo, porque ele está presente em outros momentos, como na História, nos mitos, nas lendas e nos ritos. Neste sentido ter um trabalho que fortaleça esse debate em igualdade é importante para quem deseja conhecer mais sobre o assunto.

 É entendido que o sincretismo originou religiões tipicamente brasileiras, mesclando diversos elementos de outras crenças e culturas, mas com base primordialmente nos cultos africanos, nos rituais indígenas e no catolicismo. Portanto, é preciso apontar que o conceito de  sincretismo, significava a preservação de crenças africanas e indígenas sob o formato católico. Não há nisto uma defesa do nefasto processo opressor físico e psicológico, mas uma constatação histórica.

Se a narrativa, o contar histórias – sejam os mitos ou as lendas – acompanha a humanidade e indica sua condição de produtora de sinais e indícios desde os primórdios de sua história, supomos que essa iniciativa em produzir um material para expor essas aproximações culturais e religiosas grava na história brasileira a força da fé das religiões de matrizes africanas que permanecem, mesmo diante da tentativa de apagamento e invisibilidade, firmes e fortes. A linguagem dessa produção, bem como os nomes e títulos oriundos do continente africanos, foi registrada de maneira aportuguesada seguindo a Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana de Nei Lopes. Buscou-se equilibrar em pé de igualdade tanto uma cultura religiosa como a outra, para que o leitor possa compreender os elementos que as aproximam e conversam.

Por fim, há ainda que se ressaltar que sincretismo é palavra considerada maldita que provoca mal estar em muitos ambientes e em alguns autores. Diversos pesquisadores evitam mencioná-la, considerando seu sentido negativo, como sinônimo de mistura confusa de elementos diferentes, ou imposição do colonialismo. Embora alguns não admitam, todas as religiões são sincréticas, pois representam o resultado de grandes sínteses integrando elementos de várias procedências que formam um novo todo.

Costuma-se atribuir também o termo sincretismo, quase que exclusivamente ao catolicismo popular e às religiões afro-brasileiras. Mas o sincretismo está presente em outras tradições religiosas. O sincretismo pode ser visto como característica do fenômeno religioso. Isto não implica em desmerecer nenhuma religião, mas em constatar que, como os demais elementos de uma cultura, as religiões bem como as narrativas, mitos e lendas constituíram uma síntese integradora englobando conteúdos de diversas origens.

A formação do cidadão está intimamente ligada à subjetividade do indivíduo e suas crenças. Neste sentido a aquisição da cultura e o respeito às diferenças religiosas pressupõe o conhecimento e a educação. Por isso, essa proposta visa justificar três itens principais: a visibilidade e o respeito ao sincretismo religioso no Brasil, o trabalho do autor, que se têm construído por anos de pesquisa e produções acerca da temática, e o acesso a uma literatura de qualidade que represente esses saberes históricos e religiosos. Essa produção literária, inédita no país, até o presente momento, por compor a exposição “Trunfos da Fé”, e por ser distribuída gratuitamente, poderá servir de suporte para ações em prol e divulgação da cultura acerca da compreensão do sincretismo religioso presente na cidade de Diamantina e no Brasil. Observa-se, ainda, um retornar para sociedade por meio de um produto confeccionado com recursos públicos, revertido a nutrir uma consciência educacional, de qualidade e importante no respeito às diferenças.

Para acessar o livro: http://diamantina.mg.gov.br/wp-content/uploads/2022/02/EBOOK-Orix--s-Santos-cruzamentos-da-f--.pdf


Fonte Imagem: https://ocandomble.com/2008/05/11/sincretismo/


segunda-feira, 1 de agosto de 2022

No Caminho de Reis - Entre Cores e Cantos

 






O Rio de Iemanjá: uma cidade e seus rituais

 


 Este artigo analisa a importância das oferendas a Iemanjá e sua inserção na história da cidade do Rio de Janeiro a partir da circularidade das memórias dos agentes religiosos, em especial aqueles relacionados com as religiosidades afro-brasileiras. Analisamos as matérias de jornais desde meados do século XIX até os anos 1980 na Hemeroteca da Biblioteca Nacional e as memórias das casas de santo sobre a Festa de Iemanjá, relacionando-as com a história da cidade, em especial com os espaços da praia e da orla carioca que desapareceram nas sucessivas obras presentes na história das mudanças urbanas na cidade e as ruínas transformadas em outros espaços urbanos. Devemos lembrar que o deslocamento do povo de santo para as áreas periféricas da cidade entre os anos 1930 e 1940 fez com que novos espaços (cachoeiras, rios, parques) fossem ocupados para os rituais.



Fonte Imagem: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-02/rio-comemora-o-dia-de-iemanja


Iemanjá, a divindade africana que ganhou feição branca no Brasil

 

Iemanjá é uma divindade originalmente negra 

Se a água é a substância fundamental para a vida, talvez não haja metáfora melhor para representar a mãe da humanidade.

Iemanjá, divindade cuja data é celebrada em 2 de fevereiro, é a rainha das águas e, acreditam os que a cultuam, a figura materna que irmana todas as pessoas.

Em terras brasileiras — ou seja, nas práticas religiosas trazidas por africanos na diáspora forçada durante os séculos de regime escravagista e tráfico de mão de obra compulsória —, o orixá feminino ganhou ainda um significado que remete à ancestralidade.

Afinal, se entendermos as costas brasileira e do continente africano como duas margens do mesmo imenso rio, o Oceano Atlântico, é Iemanjá quem promove a união, por ser ela a divindade das águas.

"Iemanjá é a representação da grande mãe da tradição iorubá", explica o sociólogo, antropólogo e babalorixá Rodney William Eugênio, doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"Seu nome vem da expressão 'a mãe dos peixes' ou 'a mãe cujos filhos são como peixes'. É considerada a mãe de todos, a que nos prepara para a vida, nos dá a imensidão das águas para que possamos realizar todas as potencialidades", afirma Eugênio. Na língua original, seu nome é Yemoja.

Contudo, atualmente há uma aparente contradição que se torna evidente: se a divindade é originalmente negra, por que sua representação mais comum em terras brasileiras é uma mulher branca?

A resposta estaria na violência do processo de sincretismo, muitas vezes romantizado como algo inerente à chamada "democracia racial".


Dos rios para o mar

Para os que creem na divindade, ela tem a propriedade de "comandar as cabeças", reger o domínio da consciência.

"Na tradição iorubá, dizem que a cabeça carrega o corpo, então, é ela quem traz o equilíbrio emocional e psíquico", prossegue o babalorixá Eugênio.

A representação mais comum de Iemanjá no Brasil é de uma mulher branca

"Yemoja é a mãe de todas as águas. Se existe água, existe Yemoja, se nós existimos é porque Yemoja existe. Não há uma cabeça que Yemoja não tocou e cuidou. e não há uma cabeça que Yemoja não possa tocar e cuidar", diz a estudiosa do tema Yasmin Fernandes Sales dos Santos, psicóloga e mestre em sociologia política.

"Iemanjá é um orixá, ou seja, uma divindade africana cultuada a partir do panteão divino dos povos iorubás. Embora, no Brasil, assuma títulos e características de 'rainha do mar', na África, é cultuada na região de Abeokutá, na Nigéria, onde seus cultos se estabeleceram inicialmente nas águas doces do rio Yemoja, entre Ifé e Ibadan", contextualiza o sacerdote de umbanda David Dias, pesquisador em ciência da religião na PUC-SP.

Ou seja: para os iorubás, ela é a divindade dos rios. Essa transposição para os mares é resultado do movimento de diáspora quando, já nos chamados navios negreiros, a ela continuaram recorrendo os "seus filhos".

Dias explica que por ser "orixá das cabeças", ela "concede saúde mental" e "propõe harmonia entre o sentimento e a razão".

"Esta orixá traduz o símbolo feminino das mulheres dos seios fartos, é capaz de alimentar todo o mundo. É a orixá que nutre, que alimenta, gerando abundância e prosperidade às suas filhas e seus filhos", completa.

Eugênio ressalta que todo orixá tem seus arquétipos mas o que sintetiza Iemanjá é o da "grande mãe".

"Todos somos filhos de Iemanjá, ela é a grande mãe do mundo, a representação das águas que, pelos oceanos, unem todos os continentes", argumenta ele.


O embranquecimento de Iemanjá é visto, por estudiosos atuais, como resultado de uma construção racista do século 20

"Ela traz também essa noção fundamental de ancestralidade."

"A mensagem de Iemanjá para a humanidade é de união, de respeito, de igualdade. Todos lembrando que somos filhos dela, somos irmãos", resume o babalorixá.

"Na festa de Iemanjá estão todos, não só os adeptos do candomblé. São pessoas de várias origens, várias crenças e ela abençoa a todos sem nenhuma distinção."


No Brasil

Os estudiosos ouvidos pela reportagem acreditam que a divindade ganhou importância no Brasil justamente por conta do processo de escravização.

Por ter ela esse papel materno e, consequentemente, fazer de todo uma só família, ela foi fundamental para refazer os laços dos escravos separados de seus parentes durante o processo de migração violenta e forçada.

"Em torno dela as famílias se organizam", diz Eugênio.

"Para as religiões de matriz africana, ela foi a possibilidade de refazer, reinventar a família, que no processo de escravização havia sido esfacelada. Em termos simbólicos, Iemanjá representou o compromisso de recriar a família, promover a união na diáspora."

Para o historiador Guilherme Watanabe, pai de santo do terreiro Urubatão da Guia, em São Paulo e membro fundador do Coletivo Navalha, no Brasil o culto a Iemanjá foi a resposta "ao rompimento dos laços familiares e afetivos" causados pelo regime escravocrata.

"Com o sequestro das famílias africanas, há episódios de mortes de familiares ainda nos navios negreiros e a separação deles no desembarque, quando eram encaminhados para locais diferentes de trabalho", pontua.

"Ser filho ou filha de orixá era uma forma de estarem ligados à sua origem ancestral, uma forma de recapitular o passado, reestruturar os laços."


Celebração a Iemanjá em praia do Rio de Janeiro, no início dos anos 1970

No Brasil, a devoção a ela "extrapola as religiões de matriz africana", ressalta Eugênio.

"Todos os brasileiros de um jeito ou de outro são devotos dela. Ela é a grande mãe do povo brasileiro, faz parte do imaginário. Está profundamente arraigada em nossa formação."

"Há quem diga que Iemanjá é uma santa católica, muita gente confunde e acha isso. Isso é um traço de aculturação que faz parte da formação do povo brasileiro. Vamos juntando elementos", prossegue Eugênio.


Representação

"Ela é uma senhora de ancas largas, que pariu toda a humanidade e todos os orixás. Com seus seios fartos amamentou toda a humanidade", diz Eugênio.

"Dizem que os rios são como o leite de Iemanjá escorrendo em direção ao oceano. Se temos uma mãe em comum também temos elos, os mesmos direitos."

Na questão da representação reside o principal problema da maneira como Iemanjá acabou sendo incorporada ao imaginário brasileiro.

Porque, originalmente uma divindade africana, é natural que suas primeiras e originais representações fossem de uma mãe negra.

E seu embranquecimento é visto, por estudiosos atuais, como resultado de uma construção racista do século 20, que buscou tornar suas feições mais "europeias".

Nesse sentido, uma violência cultural.

"A figura de Iemanjá que está no imaginário coletivo é aquela imagem da mulher branca de cabelos longos com sua túnica azul, se confundindo um pouco com as águas do mar", pontua Eugênio.

"Foi um processo de aculturação que levou à difusão dessa imagem. Tem a ver com sincretismo, com a aculturação.

Para o babalorixá, "isso tem de ser respeitado".



"Povos diferentes, quando convivem, ou eles sincretizam ou eles se matam. Então é importante respeitar, embora essas coisas tenham sido impostas: um povo é submetido à violência de abarcar uma outra cultura e então acaba assimilando essa cultura".

Outros pesquisadores do assunto têm uma postura mais crítica frente a essa transformação.

Watanabe ressalta que a ideia de sincretismo "apaga os processos históricos que deram origem a esse amálgama de divindades."

Mas reconhece que o sincretismo existe inclusive com tradições indígenas.

"Muitas vezes Iemanjá é confundida com Janaína, que seria a divindade da cultura dos povos originários do Brasil, uma sereia", exemplifica.

Evidentemente que o processo mais dominador e muitas vezes violento dessa mistura se deu mediante o choque desigual com a religiosidade trazida pelos europeus.

"Entender que o processo violento de sincretismo foi útil para que muita sabedorias ancestrais vindas na diáspora sobrevivessem até hoje é fundamental", afirma Santos.

"Mas é fundamental também entender que, diante de tantos outros processos de mudança, nós, sobretudo mais novos, não precisamos do sincretismos como os nossos mais velhos precisaram num outro tempo para dar continuidade ao culto."

Durante o período da escravidão, para conseguirem manter seus cultos, era comum que os africanos e seus descendentes precisassem recorrer a figuras do catolicismo.

"Eles eram proibidos por seus senhores brancos e também pelos religiosos católicos de manterem suas crenças e então uma forma que encontraram para continuar foi disfarçando suas divindades de santos católicos", contextualiza a jornalista Bell Kranz, autora do livro 21 Nossas Senhoras que Inspiram o Brasil.

Em suas pesquisas ela encontrou associações de Iemanjá com diversas denominações de Nossa Senhora.

"Especialmente Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Glória, Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora das Candeias", pontua ela.

Não é por coincidência, aliás, que o 2 de fevereiro é tanto dia de Iemanjá como de Nossa Senhora das Candeias — também chamada de Nossa Senhora da Luz.


Homenagens a Iemanjá no Rio Vermelho, em Salvador

O arquétipo semelhante também ajudou nessa situação. Para os cristãos, afinal, a figura de Nossa Senhora é a mãe de Jesus.

Especialmente para os católicos, ela também é reconhecida como mãe da humanidade, mãe de todos, senhora da família.

E se você já usou branco numa festa de Revéillon, conscientemente ou não, também participou desse processo de sincretismo.

Esse fenômeno cultural está intimamente ligado ao trabalho realizado para popularizar a Iemanjá em terras brasileiras, realizado pelo pai de santo Tancredo da Silva Pinto (1904-1979), o Tata Tancredo, no Rio de Janeiro.

"Conhecido como o 'papa da umbanda', ele foi quem criou a cultura de celebrar Iemanjá no último dia do ano, quando reunia milhões de religiosos, inspirando brasileiros, independentemente de crença ou religião, a vestirem roupas brancas mesmo sem conhecer o motivo", conta Dias.

"Muitos vestem branco na virada do ano pensando que é para pedir paz, muitos vão até a praia jogar rosas brancas… São rituais macumbeiros, e muitos que têm um pezinho na igreja evangélica ou no catolicismo estão lá realizando esse tipo de ritual. Tudo isso vem da popularização das macumbas", comenta Watanabe.

"Com o processo de sincretismo e apagamento dos cultos de matriz africana no Brasil, os orixás, sobretudo Yemoja, que acabou por ficar muito popular no país, sofreram alterações e processos simbióticos com as características dos santos católicos", complementa a psicóloga Santos.

"Mas vale lembrar que orixá não é santo e que Yeoja não é Nossa Senhora."


Branqueamento de Iemanjá

Há alguns registros que demonstram uma europeização das características de Iemanjá já no século 19, muitas vezes a aproximando de representações de Nossa Senhora.

Mas a imagem que acabou se sobrepondo às outras representações e dominando o inconsciente coletivo remonta aos anos 1950.

Conforme explica o sacerdote umbandista e pesquisador Dias, tudo começou quando uma carioca chamada Dalla Paes Leme afirmou ter tido uma visão de Iemanjá e encomendou a pintura de um quadro com essa representação.

"Curiosamente e, em pouco tempo, criam-se movimentos de promoção do quadro da nova imagem, além de selos postais, eventos, romarias resultantes de um movimento chamado pelo jornal 'Luta Democrática' de 'yemanjismo'", relata Dias.

O pesquisador lembra que ela era "uma aristocrata e publicitária" e acabou fomentando uma tradução de "estética branca para a divindade por meio de uma peregrinação" do quadro aos terreiros de umbanda da época.


Para os que acreditam, Iemanjá tem a propriedade de 'comandar as cabeças', reger o domínio da consciência

Segundo Dias, essa tradicional imagem "pode ser considerada o marco do embranquecimento e aculturação da orixá".

"Não por acaso, a fisionomia da 'nova Iemanjá' se dá mediante à sequela que o fenômeno do sincretismo deixa enquanto processo de apagamento e conversão cultural", prossegue.

"A orixá, traduzida pela estética cristã, traz agora o mesmo estereótipo das virgens santas, perdendo completamente seus traços africanos. A partir de então, exclui-se os grandes seios que alimentam o mundo, cobre-se seu corpo, retiram-se as noções daquela que é mãe dos filhos peixes em detrimento da santa virgem que jamais dançou ao toque dos atabaques de umbanda", comenta o sacerdote.

Para Watanabe, a Iemanjá representada como "a tal da moça branca com vestido azul" é um legado de grupos umbandistas conhecidos como "umbanda branca".

"É das imagens que mais circulam, muitos têm uma dessas em suas casas", reconhece.

"Acredito que se trate de uma tentativa descarada de apropriação de uma divindade africana e apagamento de toda uma história e de uma cultura que são negras", argumenta Watanabe.

"Criticamos muito essa imagem. Todos os orixás são negros porque têm uma cultura de origem, um território de origem e esse território é a região de língua iorubá, em grande parte sintetizado na atual Nigéria."

Ele afirma que muitos apregoam que "orixá não tem cor porque é energia".

"Mas isso é uma disforia criada a partir dessas umbandas que foram invadidas por conhecimentos alienígenas, estranhos a elas. Esses esoterismos, essa tentativa da umbanda de se vincular a narrativa do mito da democracia racial, essa tomada da umbanda pelos grupos brancos que corroboram para o embranquecimento da mesma, isso tudo deu origem a essa imagem de Iemanjá branca", defende.

Watanabe define o fenômeno como uma "violência aos povos negros, a cultura negra".


Jogar flores no mar para Iemanjá no último dia do ano virou um ritual

"A imagem deve ser substituída, de fato. Não pode seguir circulando da forma como circula. Simbolicamente é um aviltamento da cultura negra", critica.

Santos concorda e ressalta que a "descaracterização e o esvaziamento racista" feito com a orixá é um problema.

"Essa Yemoja branca, com cabelos lisos, longos, magra, recatada, mansa e do lar que é, na verdade, uma imagem europeia cristã, não dá conta de quem Yemoja é e de quem ela pode vir a ser, porque Yemoja é isso: possibilidade", diz.

Dias acrescenta que o "processo de sincretismos" sempre é visto "como um fenômeno de dominação".

"Independente das relações e das trocas por ele produzidas, sempre haverá uma cultura de dominação sobreposta a uma cultura dominante. A invenção da imagem de Iemanjá traduz um Brasil que vivemos hoje em que, feito as redes sociais, adiciona filtros para tornar as imagens 'mais aceitas e palatáveis' pela sociedade que teima em manter o seu pseudo-status antirracista", argumenta ele.

"Todavia, há algo de curioso em tudo isso: não se encontram traduções de divindades de outras culturas tão facilmente quanto as africanas. Nunca se viu uma imagem de Sidarta Gautama, o Buda, enquanto um homem negro, de dreadlocks e brincos nas orelhas. Não se colocam mantos e retiram-se as insígnias hindus de Shiva. Por outro lado, quando se questiona a identidade tão quanto a cor da pele de Cristo, o clero se levanta em defesa de uma tradição inventada para apagar a existência de um povo."



Texto extraído de:
https://www.bbc.com/portuguese/geral-60215510
Fonte Imagem:
https://www.bbc.com/portuguese/geral-60215510

Folia de Reis em Minas Gerais: entre símbolos católicos e ambiguidades africanas

 

O presente artigo busca compreender as relações de estreitamento religioso entre a Folia de Reis, manifestação relacionada ao catolicismo popular (ou santorial) e a religiosidade de matriz africana. No campo a se pesquisar, o município de Leopoldina, Minas Gerais, está a Folia da Maú, formada por uma família negra e umbandista, devotos de São Sebastião. Entre os diversos rituais, está a entrega da bandeira em um centro de umbanda, realizado no dia 20 de janeiro, dia de São Sebastião no calendário litúrgico católico. Portanto, essa Folia se caracteriza tanto como uma prática do catolicismo santorial, quanto expressão religiosa da umbanda. O palhaço por sua vez, o brincante de tanta expressão e popularidade, entendido pelo viés católico como o Rei Herodes, ou até mesmo o próprio diabo, simbolicamente possui analogias com Exu. Orienta essa comunicação, a ideia de que os traços da religiosidade afro-brasileira e do catolicismo santorial estão imbricados intimamente. Por meio de conversas e entrevistas, análise das imagens rituais no centro de umbanda e na casa de Dona Maú, e da chula dos palhaços, procura-se entender a relevância do mascarado da Folia como produto desse processo de síntese cultural. Portanto, nesse contexto sua posição marginal dá lugar à eminência como representante dessa síntese e como brincante de grande notoriedade e simpatia junto à assistência.



Fonte Imagem: https://arquidiocesejuizdefora.org.br/folia-de-reis-dia-de-reis-na-devocao-popular/


domingo, 31 de julho de 2022

Doces Santos - devoções a Cosme e Damião

  


Nossa Senhora dos Navegantes pelos Viajantes da Câmera

  


Para acessar o livro completo: 

Dossiê Festa do Bonfim - IPHAN

  

Para acessar o livro completo: 

Festa, patrimônio vivo: reflexões sobre educação na feitura de tapetes do Corpus Christi

 

Esse artigo apresenta os resultados de uma pesquisa que buscou compreender processos educativos presentes na feitura dos tapetes de serragens da festa de Corpus Christi, em Sabará, Minas Gerais. Pautou-se na suposição de que os processos educativos se fazem presentes nas situações de relações intergeracionais ocorridas durante e no período anterior a referida festa. Além da observação participante de dois trechos ornamentados, foram realizados registros fotográficos, notas em diários de campo, numa perspectiva etnográfica, e entrevistas semiestruturadas com moradoras que ainda perpetuam essa tradição junto a jovens participantes do processo de feitura dos tapetes. Produziu-se, em diálogo com conhecimentos oriundos de abordagens socioantropológica, histórica, patrimonial e educativa da festa, análises sobre as interações e sociabilidade intergeracionais, estabelecidas entre os participantes durante a feitura dos adornos, e transmissão de saberes, fazeres, valores e sensibilidades, conferindo-lhes significação de um patrimônio cultural imaterial e reforçando valores identitários e ligações de pertencimento.



Fonte Imagem: https://arquidiocesebh.org.br/noticias/sabara-fe-e-tradicao-na-celebracao-de-corpus-christi/


Corpo, Cultura e Sincretismo: O Ritual da Congada

 


O trabalho tem como objetivo descrever e analisar a Congada como um elemento sincrético que possibilita a relação do corpo – construção social – com o sagrado e o profano. Para tanto se desenvolveu uma etnografia, tendo-se como caso estudado a Congada Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Os resultados apontam que há nesta manifestação um sistema ritual que se constitui com base em elementos transcendentais, sendo a maneira encontrada pelo grupo para estabelecer a relação com o sagrado, representando sua identidade cultural afrodescendente em um contexto sociocultural moderno, como é o caso de Brasília.

Para acessar o artigo na íntegra: https://revistas.ufg.br/fef/article/view/18012/10740

Notas sobre Sincretismo Religioso: um estudo sobre aspectos culturais e religiosos afro-brasileiros

 


Para acessar o trabalho de conclusão de curso completo: 


Fonte Imagem: https://blog.enem.com.br/sincretismos-religiosos-na-historia-do-brasil/

Maria e Iemanjá: duas faces - um arquétipo

 


A  religiosidade  brasileira  apresenta  características  sincréticas,  que  envolvem  o  catolicismo romano,  o  candomblé  e  os  mitos indígenas.  Este  artigo  trata  do  sincretismo  entre  Maria  e Iemanjá  confrontadas  como  símbolos,  dada  a  impossibilidade  de  correspondência  teológica entre elas. A análise simbólica foi feita a partir da teoria de Carl GustavJung.

Para acessar o artigo na íntegra: https://revistas.pucsp.br/index.php/ultimoandar/article/view/37240/25387


Fonte Imagem: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-a-ligacao-entre-os-santos-catolicos-e-os-orixas/


O sincretismo religioso do Candomblé e a Igreja Católica no Brasil

  Tempo de Umbanda Maria Conga, Iemanjá e Cabocla Jurema

 Falar sobre religião é um assunto que muitas vezes gera polêmica, afinal todos defendem a sua como sendo a única verdadeira. No entanto, no Brasil, as manifestações religiosas, sofreram modificações em sua base devido às influências culturais a que foram confrontadas, especificamente a Igreja Católica, que foi a primeira religião que chegou às terras brasileiras. O primeiro contato foi com os índios, dos quais absorvidos alguns aspectos culturais, pois não seria possível convertê-los sem conhecer sua formação cultural. Por causa disso, algumas práticas foram adotadas. Contudo, damos ênfase a chegada dos negros. Foi a partir deles que surgiram expressões religiosas mais fortes, pelos cultos que esses trouxeram, fazendo nascer no país os cultos afro-brasileiros, que deram origem às religiões que temos até hoje, a exemplo do Candomblé, um dos objetos de estudo desta pesquisa. E o sincretismo religioso do Candomblé com a Igreja Católica nasce dessa repressão, ou seja, da proibição dos negros em cultuar sua fé a suas entidades. Assim, o objetivo principal deste trabalho é compreender como se configura o sincretismo religioso entre o Candomblé e a igreja católica. Esta pesquisa é bibliográfica, e os dados foram levantados a partir de artigos, teses e matérias disponíveis em sites que abordam a temática.