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segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Congado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia - Ouro Preto das Minas Gerais

 



Segundo domingo de janeiro na Terra das Almas.

Um endereço de Brasil no meio de Minas Gerais que recebeu esse nome exatamente dos homens e mulheres negros que começam a chegar. Pelos cantos que ecoam, por suas roupas coloridas e bandeiras hasteadas, sentimos que eles trazem consigo histórias de outras terras para contar. Pela postura firme e pelo olhar profundo de dignidade, sabemos que eles são filhos de reis, trazem seus antigos pulsando em tambores. Aos poucos, entendemos: são reis e rainhas do Congo no Brasil, são Congados de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia.

Fitas coloridas, roupas brancas, bandeiras, reisados e procissões: os grupos se encontram, se apresentam, se festejam. A cidade se transforma em um tear de histórias trançadas diante dos olhos e ouvidos atentos. Sempre à frente nas andanças e os primeiros a se apresentar, o grupo da casa: a Guarda de Ouro Preto.

O Congado de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, Guarda de Ouro Preto, é formado por descendentes de um Rei do Congo, um africano negro chamado Galanga que foi escravizado e no Brasil foi chamado pelo nome Francisco. Na então Vila Rica, atual cidade de Ouro Preto no estado de Minas Gerais, Galanga conseguiu autorização para explorar uma mina de ouro abandonada e, nos seus poucos intervalos de trabalho, extraiu o minério que usou para comprar a sua liberdade, a de seu filho e a de outras 300 pessoas de seu povo. Em uma igreja da vila, Francisco conheceu e se encantou pela imagem de uma santa negra: Santa Efigênia. E foi para ela que, em 1747, Galanga fez uma festa de agradecimento pela liberdade alcançada: o primeiro Congado da região, no qual ele foi coroado como Chico Rei, um rei do Congo no Brasil.

Essa história ora não aparece nos livros do Brasil, ora é citada como lenda mas, para as famílias congadeiras de Ouro Preto, Chico Rei é memória de uma realidade preservada a partir das falas e dos cantos de seu povo.

A festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e de Santa Efigênia é uma das celebrações mais importantes de Congados no Brasil. A Guarda de Ouro Preto é anfitriã do festejo que recebe cerca de trinta outros Congados e um público de 10 mil pessoas a cada janeiro para celebrar Chico Rei.

“Trazemos a memória dos nossos ancestrais.
Nós somos da matriz de Chico Rei.”
CAPITÃ KATIA, CONGADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SANTA EFIGÊNIA


Nas festividades de congadas, que foram disseminadas a partir de Ouro Preto para outras regiões de Minas Gerais e do país, são celebradas várias outras histórias que têm os povos e culturas negras como protagonistas. Uma das principais narrativas celebradas nos Congados é a da aparição de uma imagem de Nossa Senhora do Rosário no mar, na época da escravidão: conta-se que a imagem apareceu no mar e os brancos tentaram tirá-la da água sem sucesso várias vezes, foi então que permitiram que negros tentassem e eles, com seus tambores, danças e simpatias, conquistaram a confiança de Nossa Senhora do Rosário que veio para a praia.


“Foi na beira do mar
Foi que nêgo chorou…
Ao ver Nossa Senhora
Saindo das águas
Coberta de flor.”
TRECHO CANTADO PELO CONGADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SANTA EFIGÊNIA


Com a intenção de manter vivas as energias ancestrais e para agradecer aos santos de sua devoção, cada folguedo ou guarda de Congado prepara cortejos e performances que trazem uma reversão simbólica de situações de repressão vividas por africanos escravizados no Brasil. Para muito além da beleza, as festas de Congadas são procissões de fé de povos que, utilizando-se de uma estética da sobrevivência, afirmam entre si a possibilidade de uma estrutura social que tenha tambores no centro e homens e mulheres afro-brasileiros coroados como reis e rainhas.


“Essa canção
Sai dentro de sua alma
Em forma de oração
Para quebrar as correntes
Do racismo e da opressão.”
TRECHO CANTADO PELO CONGADO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E SANTA EFIGÊNIA


Em 2015, a Guarda de Ouro Preto estava sob o comando de três capitães: Rodrigo, Francisco e Kátia (a primeira mulher à frente de um Reinado em Ouro Preto). Capitães são os congadeiros de um grupo responsáveis pela organização e sintonia de seu Reinado, mantendo tanto o zelo pelos saberes e crenças passados de pais para filhos, como cuidando de todos os detalhes da organização de um folguedo.

Em um Reinado do Congo, tudo é sobre fé e, portanto, tudo é sagrado: instrumentos, vestimentas, rituais, encenações. Além dos capitães, outros elementos importantes de uma Congada são o rosário (símbolo da devoção à Nossa Senhora), a corte formada por um rei e uma rainha, normalmente homens e mulheres negros admirados pela comunidade, e as bandeiras: estandartes de tecido ornamentados que muitas vezes trazem imagens de santos e abrem os caminhos para o início dos folguedos ou das festas em casas.  

Durante a festa do Reinado de Nossa Senhora do Rosário e de Santa Efigênia, os Congados - a começar pelo anfitriã Guarda de Ouro Preto - vivem alguns rituais como a procissão da Alvorada, o levantamento dos mastros das bandeiras, a confirmação das coroas, o cortejo com as bandeiras e a descida dos mastros. Nesse ano, as vozes se fizeram ainda mais potentes: os grupos puderam ecoar a sua louvação (cantos) em um espaço onde por muitos anos foram silenciados,: dentro da igreja.

Mas tão forte quanto o que vivem nesses dias é o que os Congados levam de volta para seus caminhos e casas após a festa. Nas canções e nas conversas, os congadeiros trocam conhecimentos sobre os antigos, escutam histórias e reafirmam suas crenças. Após entrar na igreja para fazer a sua louvação, soltar em voz firme as histórias cantadas que os representam… eles carregam consigo a reafirmação da fé, do encanto e da potência afro brasileiras. Com as bênçãos de Nossa Senhora do Rosário, fortalecidos em Chico Rei, seu semblante na hora de ir embora ensina: sim, é bonito resistir.

 


Texto extraído de: https://hibridos.cc/po/rituals/congados/
Fonte Áudio: https://hibridos.cc/po/rituals/congados/
Fonte Imagem: https://hibridos.cc/po/rituals/congados/

domingo, 31 de julho de 2022

Corpo, Cultura e Sincretismo: O Ritual da Congada

 


O trabalho tem como objetivo descrever e analisar a Congada como um elemento sincrético que possibilita a relação do corpo – construção social – com o sagrado e o profano. Para tanto se desenvolveu uma etnografia, tendo-se como caso estudado a Congada Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Os resultados apontam que há nesta manifestação um sistema ritual que se constitui com base em elementos transcendentais, sendo a maneira encontrada pelo grupo para estabelecer a relação com o sagrado, representando sua identidade cultural afrodescendente em um contexto sociocultural moderno, como é o caso de Brasília.

Para acessar o artigo na íntegra: https://revistas.ufg.br/fef/article/view/18012/10740

terça-feira, 19 de julho de 2022

Festa Brasileira - Folias, Romarias e Congadas

 

O Brasil é um território de paisagens geográficas e culturais diversas. Seu patrimônio cultural imaterial é o resultado de um processo rico e dinâmico de apropriação, recriação e reorganização de elementos herdados de matrizes africanas, europeias e indígenas.

Em mais de uma década de trabalho, o fotógrafo Eraldo Peres pesquisou, em todo o país - registrando mais de 10 mil imagens, foliões e pessoas envolvidas com ritos religiosos. A obra faz um retrato da vida de foliões, mestres, guias, romeiros e promesseiros, os quais transformam nossa cultura num riquíssimo universo de saberes e fazeres.

domingo, 10 de julho de 2022

Sacerdotes de Viola - Carlos Rodrigues Brandão

  

Rituais religiosos do catolicismo popular em São Paulo e Minas Gerais. Teoria antropológica e pesquisa de campo de rituais e outros sistemas simbólicos do catolicismo popular.

A Festa do Santo de Preto - Carlos Rodrigues Brandão

 

Muita coisa tem sido dita e escrita, entre simpósios, congressos, artigos e livros sobre rituais e festejos de negros no Brasil: os seus cantos e danças, suas crenças e formas de culto, os seus reis e rainhas, generais, capitães, embaixadores, secretários, guerreiros e soldados. Uma gente de fé e fantasia. Este estudo assume o risco de voltar ao assunto. Ele não foge de ser mais uma outra aventura de descrição do que se passa nas festas populares do calendário católico e nos folguedos religiosos em louvor dos santos de preto. Diante do perigo de reproduzir o que já foi tantas vezes repetido, articulo algumas defesas. Em primeiro lugar, A Festa do Santo de Preto não é um estudo isolado de uma congada ou de uma Festa de Nossa Senhora do Rosário realizadas todo ano em Catalão, no sul do estado de Goiás. 

Dois relatórios anteriores de pesquisas precedem este estudo e formam, com ele, uma pequena trilogia de investigações de campo cujo propósito sempre foi, mais do que descrever apenas um ou outro evento folclórico isolado, o de compreender o processo ritual, a ordem de relações e a organização do sistema simbólico, presentes nos modos como até hoje em Goiás os negros participam de cultos de louvor aos seus santos padroeiros. Se um dia forem reunidos os três estudos – dirigidos a rituais semelhantes em cidades diferentes – eles deverão traduzir momentos de um mesmo projeto: a explicação de algumas modalidades e alternativas da presença de negros nos sistemas de crenças e práticas do catolicismo popular. Em segundo lugar, o estudo pretende retomar um assunto antigo na literatura do folclore brasileiro, com a esperança de tratá-lo com um outro enfoque. Tem sido costume descrever o evento folclórico isolando-o por vezes do seu contexto mais imediato ou de sua conjuntura mais ampla, como um ciclo religioso/folclórico de festejos do catolicismo popular. São esses os casos em que um auto-dramático, uma dança ou um cortejo processional são exaustivamente descritos, dos passos às vestimentas dos figurantes, sem que os seus significados de contextualização – o religioso popular, o propriamente folclórico e o de suas articulações sóciorituais – sejam também considerados como objetos de estudo. No entanto, a consulta mais atenta a estudos recentes sobre o folclore referenda a presença de uma atitude mais crítica na análise de acontecimentos como os que estudo aqui. Ela integra o fenômeno folclórico descrito: a) no seu sistema de rituais populares, de que é uma parte e desde onde torna-se produtivo o seu estudo; b) na configuração das relações e representações sociais onde se combinam e, às vezes, se enfrentam o simbólico e o social, a festa e a rotina, os personagens do folguedo e os sujeitos do cotidiano da sociedade promotora.

Em Catalão, tudo o que o turista ou o pesquisador podem viver e presenciar, no Domingo de Nossa Senhora do Rosário e nos seus dias próximos, vai dos desfiles, passos de dança e “cantorias” de cada “terno de congo”, “moçambique”, “catupé” ou “vilão”, para a Congada , da Congada para o Reinado, do Reinado para a Festa de Nossa Senhora do Rosário e, finalmente, da própria Festa para a sociedade de Catalão: suas instituições religiosas e sociais, os sistemas de trocas entre suas pessoas, grupos e classes, espaços por onde se promove o trânsito do profano ao sagrado e do simplesmente festivo para o propriamente folclórico.3 A Antropologia Social chega á fronteira das sociedades complexas após haver se exercitado no estudo de sociedades primitivas. Dessa trajetória resultou uma insistente preocupação com inscrever fenômenos específicos, ou ordens muito particulares de sistemas de relações, no interior de estruturas sociais de maior abrangência. É desde o modo de operar da Antropologia Social que quero trazer, para o estudo de um tipo de ritual, o cuidado de descrever com o detalhamento necessário o evento folclórico em si mesmo e a trama de articulações sociais e simbólicas produzidas pelas diferentes categorias de sujeitos envolvidos entre a Festa, a dança e a assistência. As descrições e análises dos sete capítulos de A Festa do Santo de Preto começam e terminam dentro dos limites de Catalão, em Goiás. É preciso explicar ao leitor o que é a Festa de Nossa Senhora do Rosário, no mês de outubro, em Catalão. É preciso também descrever com detalhes, mesmo com os que parecem pouco importantes, como procedem ritualmente os ternos da Congada. 

Os capítulos 1 e 2 respondem pela tarefa e se somam a dois dos anexos apresentados ao final do estudo, com o propósito de introduzir, pelo caminho das descrições do processo ritual, as análises subseqüentes sobre a sua ordem simbólica e social. Sob as aparências de uma alegre desordem de dançantes de rua, é possível descobrir a ordem da Festa e da Congada, invisíveis aos olhos apressados do turista, essenciais aos cuidados de pesquisa do investigador. Um complexo sistema de trocas de ações de serviço envolve tipos de participantes e modos de participação, tanto nas esferas amplas das trocas entre os “irmãos” dançantes, os encarregados da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e outros agentes responsáveis pela Festa. 

O capitulo 3 traz a leitura da ordem da “festa do negro no mundo do branco” e procura dar conta dos modos como, de cada terno de “brincadeiras” até os limites da própria “Irmandade”, há um sistema de posições e relações cujo núcleo ritual está na Congada, objeto principal do estudo. Apenas através da descoberta do código de relações entre agentes da Igreja, agentes da Festa e agentes da Congada é possível compreender como e porque pessoas de origem e participação social tão diversas são capazes de se combinarem dentro da situação tão especial como a de uma “festa de igreja”. As relações entre diversos tipos de agentes envolvidos nos cuidados de prestar culto à Nossa Senhora do Rosário são discutidas o capítulo 5. Entre dois capítulos de pesquisa de relações sociais dentro de situações rituais, há um capítulo, o de número 4, dedicado a explicar quem são, na sociedade, dentro dos seus dias de trabalho e rotina, os reis e presidentes, generais e capitães, suplentes e soldados da Irmandade, da Congada e de cada um dos seus ternos de congos. 

No capítulo 6 são analisados momentos de relações de conflito entre agentes da Festa. Um dos problemas com que mais se envolve a Antropologia Social no estudo de situações de produção ritual é o das maneiras como os seus praticantes produzem e conservam explicações próprias para criar o conhecimento de suas origens e significados atuais; para justificar inclusive a sua própria presença dentro do ritual ou das instituições que o envolvem. 

A Congada de Catalão possui um mito de referência. Ele é muitas vezes repetido por diferentes categorias de pessoas da cidade e da Festa, sejam elas brancas ou negras. O mesmo mito de origem da Congada eu o escutei em outras cidades de Goiás e do estado de Minas Gerais. Ao lado de seu mito, piedosamente acreditado como a verdade dos motivos das crenças e das danças dos negros em louvor à Senhora do Rosário, tanto a Festa como as razões de participação pessoal em alguma de suas partes são justificadas por crenças e acontecimentos pessoais e coletivos passados entre os devotos e a padroeira. 

Qualquer “brincador” de um terno de congos sabe articular com facilidade uma trama simbólica de santos e devotos, de votos e promessas, de milagres e formas de reconhecimento. Na maior parte das vezes, elas são a origem dos motivos pelos quais um devoto de Nossa Senhora do Rosário vem a se tornar um de seus “brincadores” na Congada. O estudo do mito e a análise da ideologia do contrato entre o devoto e Nossa Senhora do Rosário são o que estudo no capítulo final. Nos três anexos há apenas algumas informações complementares. 

O leitor, a quem interessa, ao lado da análise, a presença de descrições e partituras, não se incomodará por certo com o número de vezes em que será convidado a viajar até um dos anexos. O anexo A completa o capítulo 2. Estão ali as letras dos cantos dos congos, algumas indicações de sua trajetória pela cidade e da sua coreografia durante os momentos da dança. O anexo B reúne partes de entrevistas onde os próprios congos falam, a seu modo, do seu ritual. O anexo C completa o capítulo 7. Estão ali as reproduções de versões do mito de origem da Congada, tal como foram gravados em Catalão e na cidade de Nova Veneza, também em Goiás. Durante os dias de trabalho em Catalão, a ajuda de algumas pessoas da cidade foi muito valiosa. Quero agradecer à família que soube hospedar, com o carinho dos goianos, um pesquisador curioso e insistente em fazer perguntas e exigir informações. A mesma coisa deve ser dita para as “pessoas da Festa e da Congada” que, entre os muitos cuidados da preparação e as preocupações dos seus três dias de maior movimento, souberam guardar ainda um pouco de seu tempo para dar e repetir informações e confidências. Terezinha de Jesus Coelho, uma amiga de muitos anos e hoje professora da Universidade Católica de Goiás, acompanhou comigo três dias de andanças atrás dos ternos de congos de sua cidade natal. Num momento do começo da noite do fim da festa, sentamos os dois numa beira de calçada e, consultando um mapa da cidade que eu levava comigo, calculamos com espanto que em três dias havíamos andado entre 50 e 60 quilômetros atrás dos dançantes do congo. 

Este foi o meu último escrito sobre rituais religiosos do catolicismo popular em Goiás. A pesquisa foi feita e o relatório redigido enquanto eu era professor da Universidade Federal de Goiás e pesquisador do seu Museu Antropológico. Em nome do Professor Acary de Passos Oliveira, quero agradecer aos companheiros de uma e outro. 


Carlos Rodrigues Brandão Campinas, primavera de 1981. 


quarta-feira, 6 de julho de 2022

"Salve Maria!": as distintas manifestações do congado na cidade de Ouro Preto (MG)

 

A presente dissertação de mestrado tem como objetivo identificar as distintas manifestações festivo-religiosas do Congado na cidade de Ouro Preto, no Estado de Minas Gerais, a partir do estudo etnográfico da história de formação da Guarda de Congado e Moçambique de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia e da Guarda de Congo Manto Azul de Nossa Senhora Aparecida e São Benedito, identificando seus mitos fundadores, suas respectivas festas, seus aspectos ritualísticos e suas relações com as religiões de matriz africana. Enquanto manifestação cultural afro-brasileira, o Congado aparece para os integrantes das guardas como um espaço de construção de uma identidade positiva do ser negro diante das narrativas sobre o passado da escravidão em Ouro Preto, conferindo protagonismo e agência aos congadeiros e congadeiras que lutam por reconhecimento na cidade-patrimônio. Por meio do Congado, a pesquisa identifica a estruturação da cidade a partir da categoria do morro dos moradores, dos estudantes e do turismo, sendo essa teia de relações fundamental para a compreensão do projeto das guardas estudadas, suas narrativas de tradição e legitimação. Além disso, o estudo aponta para a rede de sociabilidade inerente às guardas de Congado como as viagens regionais e o sistema de pagamento de festa, indicando algumas das adaptações dessa rede diante da pandemia do novo coronavírus (Covid-19).

Para acessar a dissertação na íntegra: 


Fonte Imagem: http://www.ouropreto.com.br/secao/artigo/festa-do-reinado-de-nossa-senhora-do-rosario-e-santa-efigenia
 

Reza cantada e tambores consagrados: Aspectos epistemológicos sobre o Congado de Lavras (MG), Brasil – Música, emoção e religião


 O Congado é um tipo de manifestação festivo religiosa onde bens simbólicos culturais africanos são rearticulados, recodificados e reinterpretados a partir da cosmologia católica e representados através de música, dança, texto e instrumentos musicais. É difundido pelo Brasil através de uma rede de contatos que compartilham a mesma estrutura ritual, sendo o fazer musical associado à mística e ao respectivo mito fundador, sobretudo pela “entronação” de Nossa Senhora do Rosário sobre um Tambor, e que permite a manutenção e a continuidade, no plano católico, do caráter sagrado dos tambores verificado em rituais religiosos africanos – comum entre os congadeiros de cada localidade que os interpreta à sua forma, gerando variedades peculiares de manifestação através de sincretismos e apropriações. Nesse contexto, a performance do evento resulta em um paralelismo temporal e  espacial, experiência mística onde humildes trabalhadores se transformam em reis, espíritos invocados se consubstanciam e, por fim, vivencia-se um momento de matizes culturais africanas. A pesquisa parte de um trabalho etnográfico multissituado na região das Vertentes (Minas Gerais/Brasil) realizado entre os anos de 2013 e 2016 e busca analisar a relação do fazer musical com o mito fundador e a dinâmica dos processos de negociação no âmbito da resistência das práticas culturais africanas, resultando em uma experiência religiosa.

Para acessar o artigo na íntegra: 


Fonte Imagem: https://www.geledes.org.br/congado/


domingo, 3 de julho de 2022

Um olhar sobre as Congadas de Minas Gerais

 

Não se trata de uma publicação densa, na qual a reflexão é instigada pelas palavras. De certa forma, é difícil classificar um livro que explora a eloquência das imagens, mas vai além do ensaio fotográfico. Não é uma obra poética – embora haja poesia e lirismo em muitas imagens; nem tampouco uma obra militante, de discurso social – ainda que a força da tradição afrobrasileira seja quase palpável em cada página. Talvez seja um pouco de cada e algo mais – um diário visual, através do roteiro do olhar de uma pessoa,impulsionada pela curiosidade intelectual e seduzida pela riqueza sensorial, que se aproximou, conviveu e compartilhou a manifestação do Congado em várias comunidades e com uma infinidade de pessoas.

Para acessar o livro na íntegra:
 




segunda-feira, 13 de julho de 2020

Congada do Serro de Minas ganha livro para se manter viva durante a pandemia

Texto extraído de:
https://www.pressenza.com/pt-pt/2020/07/congada-do-serro-de-minas-ganha-livro-para-se-manter-viva-durante-a-pandemia/

Crédito da Imagem: Tiago Geisler)


No momento em que o debate sobre o racismo, a intolerância e a ameaça do fascismo dão a tônica das manifestações populares em todo mundo, no Serro, cidadezinha do interior de Minas Gerais, o povo se ressente de não poder se juntar para celebrar a união – de brancos, negros e índios – em torno do rosário de Maria.

A festa do Rosário se tornou a manifestação cultural mais forte no Vale do Jequitinhonha, no interior mineiro e é uma página viva da história da formação do povo brasileiro.

Conta a lenda, que a Virgem do Rosário apareceu sobre as águas, e que os caboclos e os marujos cantaram em seu louvor e pediram para que ela viesse até eles. No entanto não foram atendidos. Mas, quando os negros foram até a praia  dançaram e rezaram, conseguiram que ela viesse até eles. Desde então, de acordo com a crença, a Santa passou a ser a protetora do povo negro.

A partir daí, todos os anos, entre os meses de junho e julho, a negrada, a caboclada e a marujada se juntam em festa para celebrar o Rosário de Maria.

Organizada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, é na congada, composta exclusivamente por homens, que se dividem em quatro grupos,  com seus elementos, para fazer a leitura de cada povo sobre sua fé. Todas as representações são carregadas de simbolismos, como a caixa de assovios, pífaros e caixas de couro, representando os gemidos dos negros.  A marujada  com as cores azul e branco e os instrumentos harmônicos, como violões, violas e banjos representando os portugueses.

Já os caboclos com seus saiotes de penas, pulseiras, fitas e arco e flechas inserem o elemento indígena na manifestação. E, há também os catopês, os homens negros e pobres com suas roupas de chita multicor e que tocam o reco-reco, tamborins e caixas de de couro.

É uma história de união, através da fé, que mais parece uma grande utopia, mas que é real e que há 181 anos, encanta moradores, peregrinos e visitantes da região. Os congadeiros são pessoas simples, como motoristas, serventes, agricultores, pedreiros, babás – essa gente, de um Brasil profundo, que merece e precisa ser reconhecida.

E foi mergulhando nesse universo, que a pesquisadora, ativista cultural e cantora, Daniela Passos, construiu o livro “Contas e Cantos do Rosário”. A publicação, ainda não lançada, reúne histórias e símbolos da festa, mas, fundamentalmente, memórias e afetos desse importante encontro social das pessoas da região do Serro.


Esse ano, em decorrência da pandemia da Covi-19, não haverá festa. Os cânticos e danças  dos congadeiros, no entanto, não ficarão em silêncio, pois, o livro é uma forma de dar eco à manifestação e manter a chama acesa para que tudo volte a ser como era, quando o perigo passar.

Daniela Passos é carioca e mora há sete anos no Vale do Jequitinhonha, próximo das nascentes da cidade do Serro – “o que me trouxe para o sertão mineiro foi justamente a Festa do Rosário, uma paixão arrebatadora e à primeira vista”.

Para manter viva a cultura e a tradição da festa, a autora decidiu publicar o material, justamente nesse momento tão importante e tão difícil para os congadeiros do Serro e, para isso criou uma campanha para arrecadar os recursos necessários para  a publicação. Os recursos serão usados para os custos de impressão do material e outra parte será revertida para os Congadeiros do Serro.

Quem quiser participar e adquirir o material pode contribuir até o dia 15 de agosto de 2020. Todas as informações sobre como participar podem ser acessadas nessa página ou no instagram.