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terça-feira, 9 de agosto de 2022

Tecidos culturais: a chita no carnaval pernambucano

 

No trabalho, a relação entre arte e cultura é examinada por intermédio da análise das apropriações da chita, um tecido que caracteriza a cultura brasileira, na criação de visualidades de livros destinados aos segmentos infantis. A obra constituída como documento para análise é “O rapto do Galo” (2014), de Fabiana Karla. No livro são abordados aspectos envolvidos nas festividades populares de Pernambuco, em específico o carnaval, narradas com personagens ilustrados com vestimentas de chita. Da produção visual encontrada no livro, procuramos identificar como a chita, um tecido que participa da cultura brasileira foi incorporado à narrativa da história contada na obra. Por meio deste procedimento, revelamos as articulações entre literatura infantil, arte e tecidos na fabricação de significados para a memória e a história das culturas regionais e, por conseguinte, para a preservação do patrimônio cultural nacional. Face ao exposto, na análise, consideramos que os usos da chita nas ilustrações constituem-se em linguagens e visualidades que comunicam e veiculam representações da cultura brasileira. No plano teórico e metodológico, as concepções de linguagens e narrativas visuais fundamentam as análises das ilustrações para entender as representações de arte, literatura e cultura brasileira, e o sentido produzido e comunicado aos leitores e leitoras infantis.

Para acessar o artigo na íntegra: http://www.cih.uem.br/anais/2015/trabalhos/1253.pdf

quarta-feira, 20 de julho de 2022

DOCUMENTÁRIO: Monteiro Lobato - Memórias do Picapau Amarelo

Globo Repórter - 100 anos de Monteiro Lobato (1982)

ENTREVISTA: Monteiro Lobato - Entrevista Raríssima


Concedida ao jornalista Murilo Antunes Alves, da Rádio Record, no dia 02 de julho de 1948. Lobato morreu de acidente vascular cerebral, dois dias depois: 04 de julho de 1948.


ENTREVISTA: Monteiro Lobato e racismo - Ignácio de Loyola Brandão

Pedro Bandeira defende a leitura de Monteiro Lobato na escola

Raiva de Monteiro Lobato - Mario Sergio Cortella

ENTREVISTA: Marisa Lajolo no Globo News Literatura (11/12/2015)

ENTREVISTA: Cleo Monteiro Lobato

ENTREVISTA: Educação Brasileira/TV Cultura - Marisa Lajolo / Frei David Raimundo dos Santos


1º bloco - Racismo em Monteiro Lobato / Marisa Lajolo Ederson Granetto entrevista a professora Marisa Lajolo, da Unicamp e da Universidade Mackenzie, especialista na obra de Monteiro Lobato, a respeito da ação movida junto ao Supremo Tribunal Federal, pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental, pedindo providências para o fato de o livro "Caçadas de Pedrinho" conter o que o instituto chama de "elementos racistas". A professora contesta a afirmação e diz não encontrar racismo nos livros de Monteiro Lobato. 2º bloco - Racismo em Monteiro Lobato - Frei David Raimundo dos Santos Ederson Granetto entrevista o Frei David Raimundo dos Santos, da organização não governamental Educafro, sobre a polêmica a respeito do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Ele afirma que o livro contém elementos racistas e por isso deve conter notas explicativas, se for comprado pelo governo para ser distribuído nas escolas.


RELEITURAS: Bisneta de Monteiro Lobato faz adaptação de clássico (2020)

Cleo Monteiro Lobato com seu novo livro, Narizinho ArrebitadoFoto: Cleo Monteiro Lobato/Divulgação

Como viveriam Emília, Tia Nastácia, Dona Benta e outras personagens icônicas do escritor Monteiro Lobato se vivessem na atualidade? Para a bisneta do autor, Cleo Monteiro Lobato, o universo criado no Sítio do Picapau Amarelo seria mais inclusivo e consciente. A escritora está prestes a lançar uma adaptação do clássico centenário “A Menina do Narizinho Arrebitado”, onde trata com mais delicadeza a forma como a personagem Tia Nastácia fora retratada na obra, excluindo falas consideradas racistas. 

Formada em História pela USP, Cleo Monteiro Lobato diz que passou a sentir a necessidade de apresentar as obras de seu bisavô para o público dos Estados Unidos, numa tentativa de desmistificar alguns conceitos criados pelos americanos em relação ao Brasil e aos brasileiros. Entretanto, deparou-se com algumas barreiras ao traduzir a obra para o Inglês, e decidiu criar uma versão adaptada também para o público no Brasil. 

“Hoje em dia, se você é uma pessoa negra e vai ler o livro para seu filho, você se engasga.  Ao traduzir para o inglês me vi defrontada aos problemas culturais do Brasil, aí entendi o que é preconceito e racismo estrutural, foi fundamental para a minha compreensão, sendo branca, do que é o racismo”, esclarece Cleo. 

Em um comparativo entre Brasil e Estados Unidos, país que vive há mais de 20 anos, Cleo alega que, apesar das diferenças intrínsecas, o momento que Brasil e os Estados Unidos estão vivendo é muito parecido. “Para mim não dava mais. As pessoas não podem simplesmente dizer que não são racistas, elas têm que se posicionar como antirracistas”.

A escritora explica que a essência da obra não foi modificada, e acredita que 98% do material original foi mantido. Segundo a autora, as conotações que se referiam à personagem Tia Nastácia foram alteradas, trazendo uma forma mais humana de retratar a personagem, que é a cozinheira do sítio na obra original de seu bisavô.


“Alterei algumas frases. Em vez de chamar a negra, a negra tem nome: Tia Nastácia. Em vez de dar risada com beiço, troquei. Se fosse um tratamento equivalente com a Dona Benta, eu deixava”, afirmou. “Acho que a minha versão é a versão que eu tinha dentro do meu coração. Com minha cabeça de criança a Tia Nastácia era amada, respeitada e acolhedora; eu mantive exatamente o que eu li, que acho que é o que Lobato escreveu”, complementou. 

“Não vejo passagens racistas no livro do meu avô”

A bisneta garante que Monteiro Lobato não era racista e destaca a evolução na sociedade como o principal fator para tais questionamentos. Segundo ela, porém, as obras do escritor retratavam pontos que eram comuns àquela época, com uma linguagem carinhosamente chamada pela autora como o “caipirês” do interior de São Paulo. 

“A sociedade evoluiu, não vejo passagens racistas no livro do meu avô, acho incrível que tenha ocorrido essa evolução da sociedade. O termo sinhá, o bolinho de fubá eram do universo do interior paulista, o ‘caipirês’. O Monteiro Lobato que sei como bisavô, como avô, como pai, não era racista. Os valores que ele passou para filhos, netos e bisnetos não eram racistas”, disse. 

A autora destacou também que o próprio Monteiro Lobato realizava adaptações de suas obras a cada nova edição. 

“Tem a obra original para ler. Quem quiser ler a de 1920 pode ler! Ele modificava a obra dele, a cada nova edição ele modifica palavras, evoluía sem parar.  As pessoas que estão tão ofendidas, para mim, isso quer dizer que elas amam meu bisavô e amam os livros, que a obra do Monteiro Lobato está dentro do coração delas. Mas, a minha intenção é que Lobato seja lido pelas próximas gerações, daqui a 80 ou 100 anos, sem ser associado ao racismo estrutural no Brasil”. 



Para a escritora Sonia Travasso, doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em literatura infantil e juvenil, existe um grupo que não admite que a obra seja modificada em nada e outros grupos que consideram que é interessante mudar uma ou outra palavra, especialmente aquelas que trazem uma ideia de racismo, o que, para a educadora, não significa que Lobato era racista, pois utilizava termos que eram naturalizados naquela época. 

“Uma das editoras optou por colocar, quando há termos considerados estranhos ou termos de antigamente, como nota de rodapé, a Emília e a Narizinho conversando e comentando aquele termo, foi uma saída bem inteligente da Companhia das Letrinhas”, afirmou a educadora. 

Sonia Travasso explica que, desde que a obra de Lobato caiu em domínio público, diversos escritores e editoras vêm fazendo alterações. “Muitos acham que vale a pena tirar estas palavras, para deixar o texto mais de acordo com debates e questionamentos muito presentes na sociedade de hoje. Essas questões esbarram muito na questão educacional, na mediação desta leitura que se faz na escola”, diz. 

A educadora defende, entretanto, a importância em manter a essência da obra e dos personagens. “Eu acredito que é importante a gente escrever o texto como o autor escreve, na mediação da leitura na escola, e colocar em debate essas questões que por vezes aparecem na obra de Monteiro Lobato. Mas, não vejo problema em trocar alguns termos. Só acho que tem que tomar cuidado para não adulterar a obra”.

Sonia usa como exemplo a boneca falante Emília. “A Emília, por exemplo, ela é atrevida, fala coisas erradas e agressivas às vezes, mas, se você tira tudo isso da Emília, ela deixa de ser a Emília, tem que tomar cuidado nas adaptações com o que tira, de forma que não adultere a obra. Acho importante que tenha um texto de apresentação, explicando que ali é um texto de adaptação, mostrar o que foi adaptado e porque foi adaptado desta forma, e que existe a forma original que as pessoas podem ter acesso também”, concluiu. 


Clássico da literatura nacional ganhou uma nova adaptação. Foto: Ilustração/ Rafael Sam 



Texto extraído de:
https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/bisneta-de-monteiro-lobato-exclui-passagens-racistas-em-adaptacao-de-classico/
Fonte Imagem:
https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/bisneta-de-monteiro-lobato-exclui-passagens-racistas-em-adaptacao-de-classico/
https://lobato.com.vc/2021/03/historia-reescrita/


As provocações do Visconde de Sabugosa, um mergulho no reflexivo universo lobatiano


Presente na maioria das histórias do Sítio, o Visconde de Sabugosa, personagem criado por Monteiro Lobato, acredita-se que foi inspirado em seu avô, o Visconde de Tremembé, um dos homens mais ricos e poderosos de sua época, amigo pessoal de D. Pedro II. Ele foi inclusive responsável pela iluminação pública da cidade de Taubaté, na primeira metade do século XIX, entre outras coisas.

O Visconde de Sabugosa nasce em 1921, no livro Narizinho Arrebitado, edição escolar. Fruto de uma brincadeira de Narizinho e Pedrinho, que queriam casar a boneca Emília com o Marquês de Rabicó. Pedrinho faz um boneco a partir de um sabugo de milho, para fingir ser pai do leitãozinho, pretendente à mão da boneca de pano.

Esse heróico personagem lobatiano nasceu em meio aos livros e morava num vão de armário na sala de jantar do Sítio do Pica Pau Amarelo.  As paredes da casa eram formadas por dois grossos volumes do Dicionário Morais. A obra “O Banquete 2”, “escrito por um tal Platão que viveu antigamente na Grécia e devia ter sido um guloso”, era a mesa do sabugo de milho. A “Enciclopédia do Riso e da Galhofa”, um “livro muito antigo e danado para dar sono”  que Lobato lera na juventude, tornou-se a cama do Visconde. Os demais “móveis”, ou seja, cadeiras, estantes e armários, eram formados por livros de capa de couro, herdados de um tio de Dona Benta.

O sabugo só mudou de casa depois que voltou do Reino das Águas Claras e passou uma semana inteira atrás da estante, ficou embolorado e como soltava um pó verde, começou a dormir numa lata, como revela o autor na quarta história de Reinações de Narizinho.

Antes mesmo de se tornar um personagem com diversas facetas, o Visconde era considerado um fidalgo muito distinto, viúvo e sua mãe, Dona Palha de Milho, faleceu num “horrível desastre”, comida pela vaca mocha. Logo no começo em que ganha vida, ele ainda tinha o tamanho de um sabugo de milho, mas tomou uma pitada de fermento e ficou do tamanho de uma pessoa normal.

Como Narizinho o embrulhou num velho fascículo das Aventuras de Sherlock Holmes, em Reinações de Narizinho, parece que isso influenciou o sábio de tal maneira que ele foi o responsável por descobrir não só a verdadeira identidade do suposto Gato Félix, mas também quem roubava a sombra de tia Nastácia em Peter Pan!  O sabugo “andava deduzindo” os fatos, mas não tinha ainda pistas definitivas. Incansável, ele desmascarou o raptor da sombra, que era ninguém menos do que Emília.

Sua condição de sábio lhe trouxe bons e maus momentos. Ele sofreu acidentes, empanturrou-se com a leitura de Álgebra, foi operado e salvou-se. Sua ânsia pelo conhecimento fez dele o professor dedicado em Aritmética da Emília e seus estudos de Geologia permitiram que fosse perfurado o primeiro poço de petróleo do Brasil, em “O Poço do Visconde”. Em “Os 12 Trabalhos de Hércules”, última obra de Lobato, o sabugo aparece como a concretização do saber científico.

Pelo fato de ser “consertável”, ele é sempre escolhido por Pedrinho para fazer as coisas mais perigosas. Sempre que ele estraga, se machuca ou até morre, Tia Nastácia simplesmente pega uma nova espiga de milho no paiol e faz um outro Visconde ainda melhor, reaproveitando somente a cabeça, os braços e as pernas. Apesar disso, pelo fato dele ter seu corpo formado por um sabugo e ter botões de milho no peito, Visconde morre de medo de passar perto de uma galinha, ou mesmo da Vaca Mocha!

Quando investigamos o personagem, nos deparamos com as suas variadas facetas, bem como o movimento da ciência no Sítio do Pica-Pau Amarelo. À medida que nos aprofundamos na obra, é possível estabelecer relações entre as várias concepções científicas do autor e a construção do personagem, reflexos do contexto histórico na criação literária lobatiana.

Lobato era um homem fascinado pelo progresso que ele achava que a ciência poderia trazer e buscava em estudos científicos, respostas de como gerar progresso para o nosso país e para os problemas crônicos do Brasil. Ele acreditava que soluções baseadas em pesquisas científicas seriam muito importantes para o desenvolvimento da nossa sociedade.

Vários estudos discutem ainda hoje a relação da literatura lobatiana com o ensino de ciências, sobre a história e a natureza da ciência, a motivação para estudar ciência, o método científico, concepção empirista ou revolucionária da ciência e suas aplicações. A literatura de Monteiro Lobato mostra a importância que o autor dava às relações do homem com a ciência e se contrapunha à literatura infantil da época baseada nos contos de fadas europeus.

Através de sua obra e mais especificamente na forma do personagem Visconde de Sabugosa, Lobato deixa transparecer a importância alcançada pelo conhecimento científico, demonstrando através de seus textos a necessidade do apoio à pesquisa e ao estudo científico em um período em que concordam os maiores intelectuais da época, o Brasil se encontrava ‘doente’ e a ciência era uma espécie de ‘caminho para a salvação do povo’.

Voltando a falar do nosso personagem, o Visconde de Sabugosa é um sábio que estuda latim, que tem dificuldade para se locomover em algumas situações e possui como marca registrada a tossezinha para limpar o pigarro antes de dar uma explicação. É dele que vem sempre a última palavra, como exemplo de alguém que detém o conhecimento, por isso é chamado para esclarecer dúvidas e solucionar problemas.

Ao representar o homem de ciência no Sítio, Lobato nos passa a impressão de que havia um movimento constante em sua obra e nas suas histórias. O Visconde cria sempre de modo misterioso, às escondidas, carregando um ar de distinção, como se a ciência fosse para poucos, apenas para homens especiais.

Na forma de um sabugo de milho que morre e reaparece, o porta-voz da ciência talvez tenha sido mais um recurso literário que Lobato utilizou para provocar a todos os seus leitores num convite à reflexão sobre a relação do homem com a ciência e os seus valores já naquela época.

A análise da trajetória do personagem Visconde de Sabugosa presente na maioria dos livros, revela que o autor elabora suas histórias permeadas de fatos científicos, de saberes práticos e teóricos, de diálogos, situações e ambientes em que tal personagem e os demais se inserem.

O Visconde é um dos personagens que nos levam a mergulhar em uma das mais ricas obras literárias nacionais, onde os livros não são meros papéis manuseados por um tempo, fechados e esquecidos após o fim da leitura. São histórias que nos convidam a ir mais além, mais para dentro de nós mesmos, como um convite para que a gente perca o medo de imergir no nosso próprio mundo de fantasias.

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REFERÊNCIAS:

https://alb.org.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais16/sem08pdf/sm08ss05_04.pdf

https://perguntaspopulares.com/library/artigo/read/411903-quem-e-o-visconde-de-sabugosa

https://sitio.pmvs.pt/blog/2014/07/03/visconde-de-sabugosa-2/

https://semeadordelivros.com.br/na-trilha-de-lobato-entre-a-serras/

https://super.abril.com.br/ciencia/a-longa-historia-da-eugenia/

http://www.encontro2010.rj.anpuh.org/resources/anais/8/1273252078_ARQUIVO_REIVINDICACAOPOLITICAECONHECIMENTOCIENTIFICO.pdf

https://www.scielo.br/j/epec/a/n3jym7tYqMMvM4gFfgqTkwv/?lang=pt



Texto extraído de: https://lobato.com.vc/2022/05/as-provocacoes-do-visconde-de-sabugosa-um-mergulho-no-reflexivo-universo-lobatiano/

Fonte Imagem: https://lobato.com.vc/2022/05/as-provocacoes-do-visconde-de-sabugosa-um-mergulho-no-reflexivo-universo-lobatiano/


Perfis femininos em livros infantis de Monteiro Lobato (1920-1940)



Para acessar a dissertação completa: 


Monteiro Lobato e suas fases

 

Exame do conjunto da obra de Monteiro Lobato, considerando sua trajetória e
modifi cações suscitadas pela condições de produção e recepção.

RELEITURAS: Há cem anos nascia Narizinho, uma menina de nariz arrebitado (2021)

 Exposição virtual da Biblioteca Brasiliana da USP lembra o surgimento da famosa personagem de Monteiro Lobato

Imagem da exposição virtual promovida pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP – Acervo Iconographia

Uma volta à infância entre as páginas das histórias de Monteiro Lobato. É essa travessia que a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP está oferecendo. Os leitores vão ter a oportunidade de navegar pela vida e obra do escritor na exposição Uma Menina Centenária – 100 Anos de Narizinho Arrebitado, marco da literatura infantil brasileira. Em formato digital, a mostra tem a curadoria das professoras Gabriela Pellegrino Soares, da USP, Patrícia Tavares Raffaini, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e do designer Magno Silveira.

Entrar na BBM e acessar o livro A Menina do Narizinho Arrebitado, folheando as páginas uma a uma da edição original, é uma aventura virtual que o escritor não imaginou quando o escreveu há cem anos. Em imagens e textos, é possível acompanhar com detalhes o nascimento da personagem Narizinho nos primeiros manuscritos, observar as cartas das crianças leitoras que o escritor lia e relia atentamente e apreciar as ilustrações do cartunista Voltolino, que tanto despertam a imaginação das crianças.


Capa de A Menina do Narizinho Arrebitado, de Monteiro Lobato, ilustrações de Voltolino, obra publicada em 1920 – Foto: Acervo Iconographia

“Alguns dias antes do Natal de 1920, Monteiro Lobato publicou sua primeira obra escrita especialmente para o público infantojuvenil: A Menina do Narizinho Arrebitado”, conta a professora Patrícia Raffaini, do Departamento de História da Unifesp. “O livro com capa dura, em grande formato, havia sido impresso em quatro cores, na cidade de São Paulo. Nas suas 43 páginas, apresentava desenhos de um conhecido ilustrador: Voltolino. A capa devia chamar a atenção do público, com suas letras em cores vibrantes e a figura inusitada de um príncipe-peixe sobre a mão de uma menina com laço no cabelo. Nas margens, viam-se inúmeros animaizinhos, como borboletas, caramujos, sapos, besouros, toda uma pequena fauna que, no traço de Voltolino, parecia amigável e engraçada.”

 

“Perto de completar 18 anos, Monteiro Lobato ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. Formado bacharel, retornou ao Vale do Paraíba, onde conheceu e se enamorou de Purezinha.”

 

Purezinha, mulher de Monteiro Lobato, “em toilette irrepreensível”, conforme anotou o escritor em fotografia de sua autoria – Foto: Acervo Iconographia

Marta, Edgard e Guilherme, filhos de Lobato, na Fazenda Buquira, no Vale do Paraíba – Foto: Acervo Iconographia

Os textos com as pesquisas dos curadores orientam os visitantes a conhecer a história do escritor, mostram como nasceu a sua literatura e reconstituem a realidade política e social do Brasil. “José Bento Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, no Estado de São Paulo, em 18 de abril de 1892. Na infância, desenvolveu um vínculo forte com o avô, o Visconde de Tremembé, dono de uma imponente biblioteca pessoal e da fazenda Buquira”, explica a professora Gabriela Soares, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “O mundo imaginativo do futuro escritor nutriu-se, sempre, das aventuras vividas entre os livros e na fazenda de café. Perto de completar 18 anos, Lobato ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo. Formado bacharel, retornou ao Vale do Paraíba, onde conheceu e se enamorou de Purezinha. Seguiu se dedicando a colaborações com a imprensa e logo trabalhará para o jornal O Estado de S. Paulo. Pintava, também, belas aquarelas, e tornou-se promotor de Areias. Com a morte do avô visconde, assume a responsabilidade pela fazenda Buquira. A essa altura, estava casado com Purezinha e pai de uma prole que chegaria a quatro.”


Praça Antonio Prado, centro de São Paulo, na década de 1920 – Foto: Acervo Iconographia

Gabriela situa o visitante da exposição no Brasil das primeiras décadas do século 20, com as transformações que incentivaram o nascer do mercado editorial e da literatura infantil. “A população urbana se adensava, embora estivesse longe de ultrapassar a rural. Situadas na próspera e poderosa região Sudeste do país – que em 1920 tinha o dobro da densidade demográfica do Nordeste –, Rio de Janeiro e São Paulo vivenciavam sua belle époque.”

 

“A história era vivida por uma protagonista bem brasileira: ‘uma menina morena, de olhos pretos como duas jabuticabas’, a despeito da capa, que a retratava como loira.”

 

Basta clicar na imagem e o leitor vai poder folhear o livro A Menina do Narizinho Arrebitado exatamente como foi lançado, com as imagens coloridas de Voltolino. Bom seria ter a edição nas mãos, sentindo a textura e o cheiro do papel. A proposta inicial da exposição bem que era receber o público no espaço da BBM, mas, com a pandemia de covid-19, o projeto foi reestruturado. Mesmo assim, o leitor vai se surpreender com o livro virtual. Os designers Magno Silveira e Rafael Souza reinventaram a mostra e a comunicação visual. Tudo para apresentar a mesma Narizinho um século depois.

Na época em que Lobato lançou a edição, os livros ilustrados eram em grande formato e, como explica a professora Patrícia, comercializados por editoras estabelecidas no Brasil que traduziam produções francesas e alemãs desde as últimas décadas do século 19. “Algumas dessas obras eram traduções de contos de fadas ligados à cultura popular tradicional europeia. Outras, como os livros de Benjamin Rabier, publicados pela Garnier, tinham características do gênero que mais tarde seria chamado de histórias em quadrinhos”, esclarece. “A obra de Lobato, no entanto, apresentava uma novidade. A história era vivida por uma protagonista bem brasileira: ‘uma menina morena, de olhos pretos como duas jabuticabas’, a despeito da capa, que a retratava como loira. Morando em um sítio com duas mulheres já idosas – sua avó e tia Anastácia –, ela vive aventuras na companhia de sua boneca de pano, a ‘excelentíssima senhora dona Emília’. O autor também inovava ao descrever uma natureza muito próxima à da criança brasileira: é à sombra de um velho ingazeiro que a protagonista alimenta piquiras, guarús, lambaris e parapitingas, todos habitantes do Reino das Águas Claras.”

 

“O escritor mudou muitos dos atributos até então associados à pele negra. Tia Nastácia tem voz, sabedoria e numerosas virtudes. Não porque sua pele seja clara, devido à mestiçagem; pelo contrário, seus traços negros são sempre realçados.”

 

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Tia Anastácia e Guilherme, filho de Monteiro Lobato, Fazenda Buquira, 1913 – Foto: Acervo Iconographia

Os cem anos de Narizinho, homenageados na exposição, levantam um debate atual: o questionamento sobre o racismo na obra de Monteiro Lobato. Para esclarecer essa questão, a curadoria convidou a professora Cilza Bignotto, do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), que também participa do projeto com um artigo sobre o assunto.

“Nos últimos dez anos, trechos de livros infantis de Monteiro Lobato vêm sendo apontados ou denunciados como racistas, devido a passagens relacionadas, principalmente, à personagem Tia Nastácia. É o caso, por exemplo, da expressão ‘negra de estimação’, usada pelo narrador de Reinações de Narizinho para apresentar Tia Nastácia aos leitores”, destaca Cilza no artigo, que pode ser consultado na exposição. “A expressão – de fato chocante para os leitores de hoje – já aparecia no álbum A Menina do Narizinho Arrebitado, que iniciou a saga do Sítio do Picapau Amarelo. As denúncias de racismo, realizadas em processos judiciais e em artigos, palestras, postagens em redes sociais, levaram a uma série de debates públicos, que continuam ocorrendo em várias esferas da educação, do direito, dos estudos literários, dentre outras.”

Porém, a professora levanta outras questões: “Lobato poderia ter representado personagens negras de outra maneira na época em que produziu seus livros? Será mesmo que o contexto em que um escritor vive tem tanta importância no desenvolvimento de sua obra?”.


O escritor Monteiro Lobato – Foto: Acervo Iconographia

Cilza Bignotto analisa a literatura de Lobato dentro da realidade social da época em que ele lança Narizinho. “O escritor mudou muitos dos atributos até então associados à pele negra. Tia Nastácia tem voz, sabedoria e numerosas virtudes. Não porque sua pele seja clara, devido à mestiçagem; pelo contrário, seus traços negros são sempre realçados”, relata. “Outra forma utilizada por Monteiro Lobato para transformar o modo como personagens negras eram retratadas foi a crítica irreverente às demais obras infantis que então circulavam. É o que se observa, por exemplo, na cena de O Circo de Escavalinhos, em que Pedrinho explica a Narizinho que Tia Nastácia talvez não vá ao espetáculo das crianças porque na plateia há muitas princesas: ‘Está com vergonha, coitada, por ser preta’. Quem não teria vergonha, sabendo que a própria pele estava associada a maldições diversas? Qualquer conhecedor de contos de fadas de origem europeia – e Tia Nastácia os conhecia bem – saberia que negros só entravam em histórias protagonizadas por princesas para encarnar o mal ou atrair maldições. Narizinho responde que Tia Nastácia não deve ‘ser boba’ por ter vergonha da própria pele.”

A exposição virtual Uma Menina Centenária – 100 Anos de Narizinho Arrebitado, promovida pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP, está disponível neste link. Clique aqui.


Texto extraído de: https://jornal.usp.br/cultura/ha-cem-anos-nascia-narizinho-uma-menina-de-nariz-arrebitado/
Fonte Imagem: https://jornal.usp.br/cultura/ha-cem-anos-nascia-narizinho-uma-menina-de-nariz-arrebitado/


segunda-feira, 18 de julho de 2022

Histórias à Brasileira - A Donzela Guerreira e Outras - Vol. 04

  



Em 2002, a autora Ana Maria Machado lançou o primeiro volume de uma série de histórias "à brasileira" que pretendia reunir em livro. O projeto nasceu do desejo da autora de contar, com suas palavras, as histórias que havia escutado de seus pais, tios e avó. Gerações de narradores anônimos ajudaram a construir as mais diferentes versões dessas histórias da cultura oral e do folclore brasileiro e universal. Para criar a sua própria, a escritora leu obras de estudiosos da cultura popular - como Luís da Câmara Cascudo, Sílvio Romero e Monteiro Lobato, entre outros -, pesquisou coletâneas de contos de tradições variadas e buscou inspiração também na literatura de cordel. De uma mistura entre pesquisa, cotejo das diversas versões, memória pessoal e tradição, nasceu a coleção Histórias à Brasileira, que ganha agora o quarto volume - composto pelas histórias "A donzela guerreira", "A princesa do Bambuluá", "Adivinha, adivinhão", "Os três coroados", "A onça, o veado e o macaco", "O jabuti e o jacaré", "As três velhas que fiavam", "A cumbuca de ouro e os marimbondos", "Branca flor" e "A lenda da vitória-régia". Com este quarto volume, a série completa quarenta histórias, todas ilustradas pelo traço delicado de Odilon Moraes, que recria o ambiente brasileiro dos contos com liberdade, dando origem a uma nova versão de cada história. Autora de mais de cem livros para crianças, publicados em dezessete países, Ana Maria Machado recebeu no ano 2000 o Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infantojuvenil.

Histórias à Brasileira - O Pavão Misterioso e Outras - Vol. 03

  



Em 2002, a autora Ana Maria Machado lançou o primeiro volume de uma série de histórias "à brasileira" que pretendia reunir em livro. O projeto nasceu do desejo da autora de contar, com suas palavras, as histórias que havia escutado de seus pais, tios e da avó. Depois de preparar um segundo volume em 2004, ela terminou mais uma coletânea de dez histórias. Gerações de narradores anônimos ajudaram a construir as mais diferentes versões dessas histórias da cultura oral e do folclore brasileiro e universal. Para criar a sua própria, a escritora leu obras de estudiosos da cultura popular - como Luís da Câmara Cascudo, Sílvio Romero, Monteiro Lobato, entre outros -, pesquisou coletâneas de contos de tradições variadas e, no caso específico da história "O pavão misterioso", buscou inspiração também na literatura de cordel, onde essa narrativa foi imortalizada. De uma mistura entre pesquisa, cotejo das diversas versões, memória pessoal e tradição, nasceram as Histórias à brasileira. Neste terceiro volume, ela narra "O pavão misterioso", "Cabra Cabrês", "Maria Sabida", "A minhoca da sorte", "O jabuti e a fruta", "O pescador e a Mãe-d'Água", "O pinto Pimpão", "O Príncipe das Penas Verdes", "Quatro vinténs" e "O corcunda e o ricaço"; enquanto as ilustrações de Odilon Moraes recriam o ambiente brasileiro dos contos com liberdade, dando origem a uma nova versão, ilustrada, de cada história.

Histórias à Brasileira - Pedro Malasartes e Outras - Vol. 02

  



Em 2002, a autora Ana Maria Machado lançou o primeiro volume de uma série de histórias "à brasileira" que pretendia reunir em livro. O projeto nasceu do desejo da autora de contar, com suas palavras, as histórias que havia escutado de seus pais e da avó, como ela explica na apresentação do livro: "Venho de uma família em que se contava muita história. Com livro ou sem livro. E os repertórios variavam muito, de acordo com o contador". Gerações de narradores anônimos ajudaram a construir as mais diferentes versões dessas histórias da cultura oral e do folclore brasileiro e universal. Para criar a sua própria, a escritora leu obras de estudiosos da cultura popular e pesquisou coletâneas de contos de tradições variadas. De uma mistura entre pesquisa, cotejo das diversas versões, memória pessoal e tradição, nasceu então o primeiro volume de Histórias à brasileira. Neste segundo volume, Ana Maria Machado traz mais dez histórias: três episódios envolvendo o personagem Pedro Malasartes - "Pedro Malasartes e o lamaçal colossal", "Pedro Malasartes e o surrão mágico", "Pedro Malasartes e a sopa de pedra" -, além de "Poltrona de piolho", "O boneco de piche", "Os figos da figueira", "O jabuti e o teiú", "O jabuti e o caipora", "A galinha ruiva" e "A vida do gigante". Nas ilustrações de Odilon Moraes, o ambiente brasileiro dos contos é recriado com liberdade, dando origem a uma nova versão, ilustrada, de cada história. Odilon é escritor, ilustrador e tradutor de literatura infantil. Pela Companhia das Letrinhas, publicou A princesinha medrosa (2002). Entre os prêmios que recebeu, estão o Jabuti de ilustração de 1994, por A saga de Siegfried.

Histórias à Brasileira - A Moura Torta e Outras - Vol. 01

 

Não se sabe ao certo quem inventou as narrativas do livro: as pessoas as contam porque ouviram alguém contar para elas. No caso de Ana Maria Machado, quem contava algumas dessas histórias era a avó da escritora. E a avó da Ana Maria, por sua vez, tinha ouvido as mesmas histórias da avó ela. É o caso de "Pimenta no cocuruto", que conta a história de uma galinha que, um belo dia, ciscava debaixo de uma pimenteira. De repente, cai uma pimenta no alto da cabeça dela, bem no cocuruto. A pobre galinha acha que é um aviso de que o mundo está acabando e sai espalhando a notícia para a bicharada.

"A Moura Torta" é a história de uma velha feiticeira caolha que todo mundo chamava de Moura Torta porque parecia uma bruxa. Ela vai buscar água no riacho, vê o reflexo de uma bela figura feminina na água e pensa que está vendo a si própria. A moça do reflexo, na verdade, é uma princesa encantada. A Moura Torta faz um feitiço e a transforma numa pomba branca para tentar roubar o príncipe da garota.
Além de "A Moura Torta" e "Pimenta no cocuruto", o livro traz também os contos "O macaco e a viola", "João Bobo", "Festa no céu", "Dona Baratinha", "O Bicho Folhagem", "O Veado e a Onça", "Maria Sapeba" e "A galinha que criava um ratinho".

Lobato humorista - A construção do humor nas obras infantis de Monteiro Lobato