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quinta-feira, 5 de março de 2026

Mitologia da Mineiridade: O Imaginário Mineiro na Vida Política e Cultural do Brasil Capa comum, de Maria Arminda do Nascimento Arruda

 


“Minas é a melhor invenção dos mineiros – depois do seu doce de leite, é claro. […] A graça de Minas, percebe Maria Arminda do Nascimento Arruda, são seus paradoxos. Este livro precioso, que nasceu como tese de doutoramento, visita-os todos, num passeio pela literatura, cultura e política. A obrigação acadêmica, que cobra rigor e minúcia, não exclui o enlevo e a realidade histórica que é aqui estudada pode, assim, ajudar a entender o mito sem ter a compulsão de sufocá-lo. Ou seja, Maria Arminda consulta o enigma Minas mas, ao decifrá-lo, dá um jeito de, mineiramente, não comprometer todo seu mistério.” [Nirlando Beirão] 



Noites Circenses: Espetáculos de Circo e Teatro em Minas Gerais no Século XIX, de Regina Horta Duarte


O livro de Regina Horta Duarte nos oferece uma instigante discussão sobre o teatro e o circo no século XIX, em Minas Gerais. Minas é ponto de partida de uma análise que estabelece um intenso diálogo com o Rio de Janeiro, sede da Corte. Historiadora de “mão cheia”, Regina percorreu o interior mineiro no lombo dos burros, acompanhando os atores de teatro e deliciando-se com palhaços nos circos. Apoiada numa intensa pesquisa documental, e demonstrando grande vigor teórico, construiu uma interpretação atenta ao imprevisto e ao inusitado. A sensibilidade da autora e a riqueza da análise nos remetem a um século XIX de sonhos, cavalinhos, melodramas e dramatizações. Contrastando com estudos que apontam para a fixidez, a autora nos leva a perceber o caráter dinâmico da cultura oitocentista." - Diana Gonçalves Vidal, Universidade de São Paulo (USP).


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Olavo Romano, o eterno contador dos Casos de Minas

Nesta semana fui arrebatado pela memória das coisas da terra e das pessoas. Este rio sempre navegou em mim, contudo inexplicavelmente de tempos em tempos ele transborda, invadindo as margens e inundando todo o sentimento...

Na ribeira deste rio, penso nas pessoas, aos meus que navegaram rio-abaixo e que um dia encontraremos em uma grande festa no ponto de encontro rio-mar...

É onde cultura, pessoas e lugares se encontram. Na parede da memória guardo um livro que acompanhou minha vida. Conhecido em menino, Minas e seus Casos de Olavo Romano me encantou, me deixou hipnotizado. 

Alguns anos depois, num mundo onde a internet ainda não era nem sonho, até hoje não sei como, consegui o contato por telefone com uma livraria e finalmente adquiri outro livro fantástico: Casos de Minas, lançado pela editora Paz e Terra. A capa de uma velha casa de fazenda me transportava para minha casa. Fotografia impactante que também assombrou Drummond. Minas Gerais tem dessas coisas...  Década mágica de 1980 que trazia nestes livros o cheiro de Minas.

Muitos anos depois, tive a honra de participar do Projeto Sempre um Papo em Juiz de Fora ao lado do Olavo Romano. Emoção grande para aquele rapaz que ainda garoto viajava nas capas daqueles livros. Com o Grupo Amalé, cantamos Ribeirão Encheu, uma Folia de Reis da região de Porteirinha, abrindo as porteiras, portas e janelas das pessoas de Minas. Honra minha de estar ao lado do Olavo e do Seu Antônio Macário, cantador e contador das coisas da vida...

Muitos anos se passaram e com espanto encontrei uma nova edição do Casos de Minas pela Paz e Terra. Mas faltava alguma coisa. A alma daquela casa velha não estava lá.

Agora, em Belo Horizonte neste mês de janeiro de 2024 não acreditei ao ver o relançamento do Casos de Minas, edição comemorativa de seus 40 anos (1982-2022), pois lá estava ela: a velha casa da fazenda servindo de abrigo para a nossa cultura tão desrespeitada e tão importante para nós. A companhia Caravana encarou a empreitada. Ao ver a velha casa fiquei estático e sorrindo, quieto. Era o reencontro de quem nunca realmente partiu... Mas nesta semana, juntamente com as chuvas de janeiro, este rio transbordou, me  enchendo de lembranças e sentimentos. Como naquele impulso do garoto há quase quarenta anos atrás, hoje adquiri o livro pela internet. Um ciclo que se completa... 

E num relance ao procurar pelo Olavo na internet, acabei de saber que ele se encantou há alguns meses. Não foi à toa a enchente deste rio. O barqueiro tem de suas sabedorias... Um filme de minha vida passou neste momento. Quem vive as coisas da terra se depara com estes acontecimentos. Segue canoa e leva o querido Olavo para junto dos seus, contarem estes eternos Casos de Minas. No rastro desta canoa ficou só sentimento...

Frederico do Valle, Belo Hoirizonte, 26 de janeiro de 2024

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

A história da Pedra-Sabão em Ouro Preto

 

As cidades históricas são essencialmente tradicionais. Elas buscam manter certas práticas nas quais elas atravessam a história representando também um patrimônio. O queijo, a cachaça, os móveis e a banda de rua marcam algumas cidades como o centro de referência para muitas outras atividades.

No caso de Ouro Preto, é o esteatito, ou a famosa pedra-sabão, que ocupa esse lugar. Lado a lado com outros ofícios e costumes locais, o trabalho com a pedra influencia no turismo, na economia, na tradição e na identidade da cidade.


Sobre esse mineral

A pedra-sabão se trata de uma rocha metamórfica.

Sua origem está nos processos físicos e químicos que ocorrem em uma determinada massa mineral. Ela é encontrada nas camadas mais profundas da crosta terrestre. Ou seja, quando submetido a uma determinada pressão, uma mistura de magnesita, clorita, tremolita, quartzo e, principalmente, talco, dá origem à pedra-sabão.

O talco é um importante fator da composição dessa rocha. Sem ele, ela não teria o nome que tem, porque sua superfície não seria lisa e um tanto quanto aveludada ao toque. É só pegar em uma panela de pedra-sabão para sentir que sua textura é bem específica.


Sua história no mundo

Acredite se quiser, mas a descoberta da pedra-sabão não ocorreu em Ouro Preto.

Pode parecer engraçado, mas muitas pessoas acreditam que nós só conhecemos essa rocha por causa de sua longa tradição na região dos Inconfidentes. Tem tantos artigos feitos com ela, uma infinidade de artigos nas boutiques, que dá pra entender quem tem essa ideia.

Mas uma pesquisa rápida na internet sobre a pedra-sabão revela que ela já era usada antes de Cristo no Oriente Médio.

Essa região também exportava o material. E, ao longo dos séculos, a descoberta de suas características fez com ela fosse utilizada em muitas lareiras na Europa e esculturas na Ásia Menor.

Sua capacidade de retenção do calor é, assim como sua capacidade aguentá-lo, fantástica. Trata-se de uma rocha muito resistente, motivo pelo qual nós a encontramos no Cristo Redentor. Isso mesmo. Nessa escultura de cerca de 30 metros, erguida entre 1926 e 1931, são placas de pedra-sabão que a revestem.


Em Ouro Preto

Aqui na sede do município não há extração de pedra-sabão. Existe apenas o tratamento dela e os artesãos que a transformam em artigos de venda e exportação. Esses artigos, em sua maioria, estão na Feirinha de Pedra-Sabão, no Largo do Coimbra.

As principais pedreiras que abastecem o comércio da cidade estão no distrito de Santa Rita de Ouro Preto, em Acaiaca, Ouro Branco e Viriato.


As famílias e a tradição

Muitas famílias estão ligadas ao manuseio da pedra-sabão. Trata-se de um ofício passado entre gerações, preservado pela continuidade dos valores tradicionais e pela possibilidade de renda.

Há uma grande quantidade de pessoas que vivem da fabricação de esculturas. Dentre elas, panelas, tabuleiros de xadrez e dos muitos outros objetos em pedra-sabão. O turismo na cidade estimula a comercialização desses objetos e muitos deles são levados para o exterior. Lá fora, uma vez conhecidos, esses trabalhos passam a ser encomendados em grandes remessas.

Isso porque o trabalho desses artesãos, além de contar com muita qualidade, é credibilizado pelo legado de Antônio Francisco Lisboa (1738 – 1814), o Aleijadinho.

Superando todas as limitações físicas impostas por uma “doença misteriosa” que o tomou a partir de 1777, o artista criou centenas de esculturas que ainda hoje estão disponíveis para a visitação. Uma delas é a Igreja de São Francisco de Assis. O monumento recebeu o projeto da fachada e vários adornos do artista.


Texto extraído de: https://outrosrelatos.com.br/ouro-preto/historia-da-pedra-sabao-em-ouro-preto/
Fonte Imagem: https://outrosrelatos.com.br/ouro-preto/historia-da-pedra-sabao-em-ouro-preto/


quinta-feira, 30 de junho de 2022

Agripa Vasconcelos nas vastidões das Gerais

 


Texto extraído de:
http://academiamineiradeletras.org.br/sem-categoria/agripa-vasconcelos-nas-vastidoes-das-gerais-mara-sylvia-na-casa-de-dona-joaquina-do-pompeu/

O escritor Agripa Vasconcelos nasceu no dia 12 de abril de 1896, em Matosinhos, cidade cercada de belas lapas calcárias, nas proximidades de Lagoa Santa. Naquela época, a região alvoroçava-se com a construção da nova capital do Estado, a Cidade de Minas, cujo traçado geométrico se sobrepunha ao casario irregularmente disposto à volta da velha matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem no arraial de Curral del Rei. A República ainda não contava sete anos, mas o século 20 despontava velozmente no calendário, a prenunciar grandes inovações. Tudo inundava o imaginário popular de expectativas e esperanças. Raiava uma era de transformações na história do mundo.

Machado de Assis vivia no Rio de Janeiro e estava prestes a fundar a Academia Brasileira de Letras, o que ocorreu em 20 de junho de 1897, poucos meses antes da inauguração de Belo Horizonte, em 12 de dezembro, período em que findava a surpreendente e inquietante Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, da qual sairia a obra prima de Euclides da Cunha.

Agripa Vasconcelos queria ser médico e foi estudar no Rio de Janeiro. A poesia igualmente o fascinava. Muito jovem, fez-se reconhecido entre os vates do tempo, ao compor versos parnasianos com a destreza que a métrica acadêmica exige de seus cultores. Essas láureas o levaram a se apresentar à sucessão do poeta Alphonsus de Guimaraens, na Academia Mineira de Letras. O desparecimento do grande simbolista, aos 51 anos, em 1921, provocou nos imortais mineiros grave preocupação. Quem haveria de sucedê-lo, quem ocuparia a cadeira do solitário de Mariana, o maior nome da poesia que de Minas se projetava Brasil afora?

Elegeu-se Moacyr Chagas, natural da cidade de Oliveira e parente do cientista Carlos Chagas, mas durou pouco sua presença na grei. Decidido a renunciar, deu ensejo a uma polêmica imensa sobre a validade do gesto inédito e radicalmente contrário à norma acadêmica. Aceita por fim a renúncia, após algazarra nos jornais de Minas e do Rio, Agripa Vasconcelos tornou-se, aos 25 anos, o sucessor de Alphonsus, sendo o mais jovem de todos os que ingressaram Academia Mineira, em seus 110 anos de existência.

Sempre exercendo a medicina, ele jamais descuidou da criação literária. E vieram, um a um, os romances logo aclamados e depois transplantados para as novelas de televisão.  É fascinante que o ficcionista tenha sido captado por algumas das personagens mais significativas da história de Minas Gerais para dar-lhes corpo e alma nas páginas de seus livros.

Jorge Amado criou um elenco de figuras genuínas do contexto baiano, como a sedutora Gabriela e os olhares do mal e do bem que gravitam em torno dela. Érico Veríssimo incorporou à literatura individualidades marcantes da terra gaúcha, e soltou o destemido Rodrigo Cambará a galope pelas lonjuras do Continente de São Pedro. Paulo Setúbal buscou seus protagonistas na historiografia de São Paulo, Domitila, a marquesa de Santos, à frente do cortejo. Mas foi Agripa Vasconcelos quem deu as cores mais vivas e os sentimentos mais vibrantes à gente trazida da história para o ambiente literário, no qual todos podem praticar tanto a fidelidade ao documento quanto a liberdade de fazer o que bem quiserem, em conluio com os desígnios secretos do autor.

Legendas da província, essas personagens, no entanto, fazem parte da legião histórica que povoa a imaginação dos brasileiros. Chica da Silva, Dona Beja e Joaquina do Pompéu são matronas que compartilham suas peripécias com o país inteiro, de norte a sul acompanhadas pela narrativa vernacular de fatos e feitos da formação nacional. A senhora negra do Tijuco submeteu o contratador João Fernandes de Oliveira e todo o Distrito Diamantino, no qual ela e a filharada tinham posição de relevo. Ana Jacinta de São José, a bela Dona Beja, mandou integrar o narigudo Triângulo na caraça mineira, seduzido o ouvidor de Paracatu do Príncipe, que providenciou a anexação. Dona Joaquina do Pompéu, por vontade própria, contribuiu com recursos vultosos na real tributação de 1804, para fazer face à guerra napoleônica, alimentou a numerosa corte do príncipe regente Dom João, em 1808, e abasteceu as tropas do imperador Pedro I, em 1823, na guerra pela independência da Bahia. Quem como elas?

Dessa forma, o escritor ergueu o painel fabuloso da “Saga do País das Gerais”, desdobrando-lhe as faces para situar os diferentes ciclos da evolução socioeconômica, do ouro ao couro, dos diamantes aos canaviais, dos engenhos aos terreiros de café. Ciente dos desafios, aprimorou-se, a cada página, na caracterização das personagens de carne e osso, entre crispações e ternuras, desaforos, vinditas, intrigas, paixões e tramoias. Com mestria, compôs o “gran teatro del mundo” de que falam os barrocos, permitindo que os fautores da história mineira voltassem ao proscênio  para o resgate de seus dramas empolgantes e comoventes.




Chico Rei, o chefe africano que comprou a alforria do filho, a própria liberdade e a de toda a família, ao poupar o ouro em pó colhido nos cabelos crespos e nas unhas, retrata o sórdido e aviltante regime da escravatura que por longo tempo vigorou entre nós. O barão de Catas Altas, nababo das minas de Gongo-Soco, sintetiza as fábulas do ciclo do ouro, assim como “Fome em Canaã” traz à cena os embates da ocupação das terras do vale do rio Doce. O Velho Chico, o mágico e mítico rio São Francisco, motivou o ficcionista a compor o derradeiro tomo da epopeia. 

Casos eternamente de Minas

 


por Frederico do Valle

Casos de Minas, de Olavo Romano, é um dos livros que guardo na cabeceira da memória...  Adquiri um exemplar em 1987, época em que o cheiro da terra já brotava em mim. 

Contador de "causos" incorrigível, Olavo em seu livro, surge na nossa frente com aquela desenvoltura natural e nos transporta para o interior de Minas, lugar que conhecemos bem. Terra onde tudo cabe. O café com broa, a conversa fiada ao redor do fogão, o calor humano de gente antiga...

Conheci pessoalmente o Olavo durante o Projeto Sempre Um Papo em Juiz de Fora, onde entoei a Folia de Reis "Ribeirão Encheu", ouvimos Seu Antônio e Olavo contar suas estórias, estórias de todos nós. Bem, é isso que acho deste livro, um livro de todos nós, porque nos sentimos pertencentes a este cenário, a esta vida e seus casos...