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segunda-feira, 11 de julho de 2022

Grande Sertão: Veredas, “lugar de memória” e ponte para a história de uma Minas Gerais esquecida

  

Este artigo visa discutir a possibilidade de abordar uma obra literária - Grande Sertão: Veredas, clássico de João Guimarães Rosa - como “lugar de memória” e ponte para penetrar na história do sertão de Minas Gerais, região quase sempre colocada à parte ou marginalizada na produção acadêmica. Retomando criticamente as ideias de alguns autores que contribuíram para a teorização sobre as relações entre memória e história, procuro apontar caminhos interpretativos e possibilidades de utilização da referida obra na ciência histórica.



Grande Sertão

 

“O sertão está em toda parte, o sertão está dentro da gente. Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão.”

Assim definiu Guimarães Rosa naquela que é considerada sua obra-prima, “Grande Sertão: Veredas”. O livro escrito no idioma sertanejo é imerso na cultura do cangaço. Nele o autor percorre rios, matas, casas, comunidades e tradições. Uma história de amor, de amizade e de companheirismo, repleta de dualidades e antagonismos. Uma obra que em toda sua ludicidade e poesia dá conta da concretude deste lugar que nunca deixou o imaginário do escritor: o Sertão e suas veredas. Tal qual um dos principais autores brasileiros, o WWF-Brasil também é apaixonado pelo sertão e busca nos rios, nas matas e na cultura tradicional a inspiração para o trabalho e a força para o desenvolvimento sustentável no Cerrado Brasileiro.


Mas que sertão é esse?

Entre chapadas e vales, com uma vegetação que varia entre formações florestais, campestres e savânicas, o Cerrado ocupa uma vastidão de 2 milhões de km² (¼ do território nacional), se estende por 11 estados brasileiros, e o Distrito Federal, abriga 5% da biodiversidade do mundo e 30% da biodiversidade brasileira.

É entre o norte de Minas Gerais e sudoeste da Bahia que se encontram as veredas e seus buritizais, essa vegetação que representa um verdadeiro oásis no coração do Brasil e que está em parte protegida pelo Parque Nacional Grande Sertão Veredas, assim como outras áreas protegidas. É nesta região também que estão localizadas as cavernas do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e sob a qual encontra-se o aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país. Em busca de garantir a integridade dessa importante região do Cerrado Brasileiro e toda essa sociobiodiversidade narrada por Guimarães Rosa, foi consolidado o Mosaico de unidades de conservação Sertão Veredas Peruaçu.

“Há veredas grandes e pequenas, compridas e largas. Veredas com uma lagoa; com um brejo ou pântano; com pântanos de onde se formam e vão escoando e crescendo as nascentes dos rios; com brejo grande, sujo, emaranhado de matagal (marimbu); com córrego, ribeirão ou riacho.” (Guimarães Rosa em correspondência com o tradutor italiano Edoardo Bizzarri).


Mosaico Sertão Veredas Peruaçu


O Mosaico Sertão Veredas Peruaçu representa uma área chave para garantir a conservação do Cerrado. São mais de 1 milhão e 600 mil hectares de área protegida, em diferentes modelos de unidades de conservação, de proteção integral e uso sustentável. Inclui também quatro comunidades quilombolas e duas terras indígenas, em 11 municípios no norte de Minas Gerais e sudoeste da Bahia,uma região que reúne paisagens impressionantes e únicas.


Grande Sertão, o filme

Nesta expedição, o WWF-Brasil percorreu, ao longo de cinco dias, mais de dois mil quilômetros e visitou os três núcleos do Mosaico: Chapada Gaúcha, Pandeiros e Peruaçu. Documentamos em imagem e som este lugar do qual as milhões de palavras escritas por Guimarães Rosa tentam dar conta da diversidade e das adversidades. Das formas de expressão cultural às estratégias de sobrevivência desenvolvidas pelo povo sertanejo, mostraremos aqui como são manejadas as terras e a forma de viver desse povo que habita esse lugar desde sempre.

Essa gente de admirável poder de adaptação vem através de gerações aprimorando sua sabedoria em lidar com a terra e hoje desenvolve belíssimas estratégias voltadas aos novos meios de produção e consumo. Com o apoio de diversos parceiros dedicam-se a ações que promovem a conservação e o desenvolvimento sustentável da região. São inúmeras iniciativas comunitárias voltadas para o extrativismo, mas antes disso, são os Joãos, as Marias, os Riobaldos e Diadorins os principais responsáveis pela preservação e manutenção desse ecossistema tão singular. Todos trabalhando com um único objetivo comum: manter as matas e rios, fartos e produtivos, para que possam continuar a viver ali, na mesma terra e da mesma forma que aprenderam com os seus antepassados.


Embarque nessa viagem pelo Cerrado de Guimarães Rosa!


Os personagens dessa viagem


João José Teixeira, mais conhecido por João Grilo, é morador antigo da comunidade quilombola de Buraquinhos, na Chapada Gaúcha (Foto: Pedrinho Fonseca)

João Grilo lamenta com voz firme e dura como sua comunidade vem sendo impactada pelo desmatamento. Buraquinhos fica na base de um cânion que se estende por mais de 30 quilômetros ao longo do rio Pardo, formando um corredor ecológico que liga o Parque Nacional Grande Sertão Veredas ao Parque Estadual Serra das Araras. Esse sertanejo tem o dom da oratória e, como muitos ali, brinca com as palavras para falar de coisas importantes: dos saberes e remédios tradicionais, dos hábitos dos antigos e da perda desses saberes, da mata nativa, de sua destruição, das águas e da seca.

“ O orgulho do homem está acabando com tudo. Enquanto ele está em cima da máquina vendo o Cerrado indo abaixo, para ele está tranquilo. Mas depois vem o arrependimento. Muitos hoje estão arrependidos do desmate que fizeram; a falta de chuva e os rios secando tudo. Mas agora é tarde…” (João Grilo)



Roseli dos Santos da Costa também vive na comunidade quilombola de Buraquinhos (Foto: COMOVA)

Roseli trabalha com as coisas da roça e da casa, mantendo em seu quintal um pouquinho de tudo: uma horta, algumas galinhas e pés de Buriti. Com as folhas do Buriti, ela produz a esteira, artesanato típico da região. Sua pouca fala e olhar desconfiado dizem bastante sobre o ser mulher no seu tempo e no seu lugar, onde a força está nas ações, no dia-a dia da vida no Sertão.



Betinho Pereira de Morais é casado com Roseli e trabalha sazonalmente dirigindo trator na colheita do capim (Foto: COMOVA)

Betinho, como todo sertanejo, tenta complementar sua renda com o artesanato. Ele preenche garrafas de vidro com as diferentes colorações de argila e arenito que encontra nos paredões que margeiam o rio Pardo, ao longo do Vão dos Buracos.



Sebastião Rodrigues Pereira tem reconhecida habilidade como luthier, rabequeiro e violeiro da folia de reis (Foto: COMOVA)

Tião, como é conhecido entre os moradores da comunidade, é muito calado e fez uso de poucas palavras para contar que aprendeu com seu avô o ofício que hoje garante o seu sustento e a perpetuação desse saber em sua região.



Lorivania Rodrigues Teixeira (Dona Vani) dedica parte de seu dia para cuidar da sua horta orgânica (Foto: COMOVA)

Dona Vani, esposa de Sebastião, é presidente da associação de moradores da comunidade de Ribeirão de Areia. Possui uma horta orgânica farta em seu quintal e fornece alimentos para a escola de sua comunidade.



Valdenísia Pereira de Jesus moradora da comunidade de Traçadal, que fica perto de Januária-MG (Foto: COMOVA)

Dona Valdenísia é a representante do grupo de danças das mulheres na sua comunidade. Mais que isso, ela é agricultora e, como filha do sertão, D. Valdenísia fala de forma assertiva e sintética sobre a seca, a escassez de água e a dificuldade de produzir nos últimos anos. Sem enxergar possibilidades de mudança, não vê muita esperança no futuro.

“O pequi não dá há dois anos, a mandioca esse ano não conseguiram colher. Outro dia, fui lavar a roupa no rio e fiquei assustada com a pouca quantidade de água . Antigamente, a água vinha acima do peito, agora dela não passa da cintura. ” (Dona Valdenísia)



Laurimar de Jesus, o Bauzinho, esposo de D. Valdenísia e imperador da folia de reis na sua comunidade (Foto: COMOVA)

Bauzinho já foi presidente da Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Pandeiros (Coopae). Mais que isso, é poeta e cordelista. Escreve as músicas tradicionais da folia de reis e organiza o encontro de folias da região, que acontece anualmente no Refúgio Estadual de Vida Silvestre do Rio Pandeiros. Assim como sua companheira, lamenta as amarguras da seca, mas não deixa de comentar sobre os tempos de fartura e sobre a qualidade do pequi da sua comunidade.



José Gomes Lira (Seu Nego) mora na comunidade de Barra dos Mandins, em Januária-MG, e é conhecido pelo licor de jenipapo (Foto: André Dib/WWF-Brasil)

Seu Nego é extrativista e, com a ajuda dos netos coleta, processa e beneficia os frutos de Jenipapo para produção de seu delicioso licor. Além disso, ele extrai o vinho de Jatobá, valioso remédio na região. Pesquisador nativo do Cerrado, Seu Nego é praticamente um alquimista. Com muita propriedade, ele lança mão de termos técnicos para falar dos benefícios das plantas, das características medicinais e da qualidade de seus produtos.


Extrativismo sustentável

“Em nosso jardim há florestas e pausas.” (Grande Sertão: Veredas)

O beneficiamento de plantas nativas tão presente nas falas dos personagens é, desde os tempos imemoriais, remédio, cosmética e comida para as populações tradicionais. Com o manejo agroflorestal, os frutos são coletados e seu processamento é uma atividade desenvolvida de maneira artesanal. Jatobá, pequi, araçá, buriti são algumas espécies nativas do bioma que curam, alimentam e, principalmente, carregam consigo muitas histórias.

O extrativismo é uma prática sustentável tanto para a conservação da natureza quanto os povos que fazem das matas nativas suas casas e sabem como utilizar dos seus recursos, mantendo-as vivas e produtivas. Com profundo conhecimento sobre o uso sustentável, os extrativistas vêm transmitindo, aprimorando e lutando por gerações, pela manutenção desses saberes historicamente ameaçados e são hoje apontados como os guardiões das florestas.

Seu Nego explica o processo de extração do “vinho de jatobá”!

“Eu queria decifrar as coisas que são importantes. Queria entender do medo e da coragem, e da gã que empurra a gente para fazer tantos atos, dar corpo ao suceder.” (Grande Sertão: Veredas)

Nativa das florestas tropicais do continente americano, o jatobá do Cerrado chega a medir vinte metros . Conhecida também como jutaí, copal, jataí entre muitos apelidos de um nome que vem do tupi “vataiwa”, que significa fruto de casca dura. Muito utilizado na medicina popular, do jatobá não se desperdiça nada. Do seu tronco é extraída a seiva (Hymenaea courbaril), conhecida popularmente como “vinho de jatobá” e, tradicionalmente, é consumida pelo povo do Cerrado para dar vitalidade e energia corporal.

No sertão, por exemplo, é raro encontrar uma árvore de jatobá próxima a alguma comunidade que não esteja sendo manejada para a extração desse bálsamo, provavelmente o remédio tradicional mais utilizado por este povo tão sabido.



Ewtratistas coletam pequi para processar e beneficiar na CooPeruaçu (Foto: André Dib/WWF-Brasil)

Seja no núcleo da Chapada Gaúcha, de Pandeiros ou Peruaçu, o extrativismo divide espaço com a lavoura, a agrofloresta e com instrumentos para produção de cestarias e esteiras de folhas de buriti. É comum as comunidades terem uma casa de farinha de uso coletivo e um espaço para produzir melaço, rapadura e cachaça. Além dessas atividades, a expedição passou pelas Oleiras do Candeau, no município de Cônego Marinho (MG),uma pequena localidade onde a maioria das mulheres trabalha com o artesanato em barro. Lá elas têm um galpão onde realizam modelagem, tintura e queima das peças cerâmicas.

Nesse rincão do Brasil, milhares de pequenos agricultores aproveitam as cascas das árvores do Cerrado, a resina do tronco, frutos, folhas, sementes para complementar a renda familiar em um momento que a população local sofre com a seca e é vítima do desmatamento.


Sertão sem veredas


“Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus, mesmo, se vier, que venha armado.” (Grande Sertão: Veredas)

O Cerrado já perdeu metade de sua vegetação original e, dos biomas brasileiros, este é o que registra o maior ritmo de desmatamento. O que quer dizer que, se esse ritmo for mantido até 2050, haverá o maior processo de extinção de espécies de plantas já registrado na história, com três vezes mais perdas de flora do que houve desde 1500, segundo a revista Nature Ecology and Evolution. Para se ter uma ideia, entre julho de 2013 e agosto de 2015, o Cerrado teve mais de três vezes o tamanho do Distrito Federal devastado (18.962,45 km²), segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.

Da mesma forma, o Mosaico Sertão Veredas Peruaçu tem sofrido impactos do agronegócio. Um estudo do WWF-Brasil registra que 37% da região do Mosaico está ocupada pelos plantios de soja, capim, milho, eucalipto, produção de gado, ou seja, as paisagens descritas por Guimarães Rosa estão sendo duramente alteradas. Outro fator preocupante é o alto índice de queimadas que, somente em 2017, destruíram mais de 600 hectares na Área de Proteção Ambiental Cavernas do Peruaçu, deixando veredas em cinzas.



O cinegrafista Loic Wirth (COMOVA) registra os mais de 600 hectares de Veredas destruídas pelo fogo (Foto: COMOVA)

A degradação do bioma não significa apenas destruição das veredas, das árvores futíferas e extinção de espécies vegetais e animais pela fragmentação das áreas naturais, significa também aumento nas emissões de gases de efeito estufa do país, o exaurimento de um modelo produtivo insustentável e ameaças às comunidades tradicionais e indígenas associadas.

Não é apenas a população local a afetada pela destruição, mas o país como um todo. Nove em cada dez brasileiros consomem energia elétrica produzida com as águas do bioma. O problema do Cerrado é real e pode impactar a vida de todos os brasileiros.


WWF-Brasil pelo Sertão e pelas veredas


Diante a esse cenário, o WWF-Brasil acredita que é urgente buscar uma série de soluções que precisam ser adotadas por toda sociedade, pelos governos e setor privado. Ações como o uso de pastagens já degradadas, adoção da rastreabilidade das cadeias produtivas do agronegócio e acordos setoriais evitando o consumo de produtos advindos do desmatamento no Cerrado, monitoramento periódico do desmatamento ajudando no seu combate e fortalecimento de políticas para financiamento da recuperação de passivos ambientais em áreas privadas, conforme prevê o novo Código Florestal, são fundamentais. Por meio do Programa Cerrado Pantanal, a organização tem estabelecido parcerias e desenvolvido estratégias para que esses resultados sejam alcançados.

Em um contexto mais regional, desde 2010, a organização atua no Mosaico Sertão Veredas Peruaçu (MSVP), alavancando benefícios para o meio ambiente, as populações locais e espécies ameaçadas.

Três cooperativas agroextrativistas foram criadas e fortalecidas, mais de 2.200 famílias beneficiadas em cerca de 200 comunidades e mais de 500 toneladas de produtos agroextrativistas produzidos anualmente. Também apoiou a primeira fazenda da região a ser certificada pelo Programa Nacional de Boas Práticas Agropecuárias (BPA) da Embrapa, além de que contribuiu para o cadastramento de 10 mil propriedades no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e para a gestão das UCs do Mosaico, realizando capacitações dos gestores, disponibilizando ferramentas para o monitoramento da região e apoiando as reuniões dos Conselhos Consultivos do Parque Nacional Grande Sertão Veredas.

“Acreditamos que o extrativismo é imprescindível para manutenção da biodiversidade e da cultura tradicional dos povos que vivem neste bioma tão ameaçado. Com o incentivo à atividade, vimos o movimento de jovens, que tinham mudado para São Paulo, retornarem para suas terras, já que lá passa a oferecer perspectiva futura de trabalho e renda para a nova geração.” (Julio César Sampaio, coordenador do Programa Cerrado Pantanal, do WWF-Brasil)



Dona Lú mostrando o processo de extração do côco de babaçu (Foto: COMOVA)



João Grilo mostra semente de espécie nativa do Cerrado (Foto: COMOVA)



Árvore de Jatobá no quintal da casa de João Grilo (Foto: COMOVA)

Com a criação e o fortalecimento da Cooperativa Regional de Produtores Agrissilviextrativistas Sertão Veredas, na Chapada Gaúcha, da Cooperativa dos Pequenos Produtores Agroextrativistas de Pandeiros (Coopae), no núcleo Pandeiros, e da Cooperativa dos Agricultores Familiares e Agroextrativistas do Vale do Peruaçu (Cooperuaçu), no Peruaçu, já foi possível alavancar muitos resultados na produção sustentável e comercialização dos frutos do Cerrado e derivados - doces, farofa, óleo - regionalmente em Januária e Montes Claros, como também nacionalmente, casos de Belo Horizonte, Brasília e no Mercado de Pinheiros, em São Paulo, no box dos biomas. Iniciativa que conta com a parceria da Central do Cerrado, Instituto Atá, do chef Alex Atala, e da Prefeitura de São Paulo. Outro destaque são é o sucesso de quatro remessas do pequi ao Japão.

Isso só está sendo possível com as importantes vitórias dos últimos tempos, como a construção de uma sede e de unidades de beneficiamento de frutos nativos, graças ao apoio do WWF-Brasil, e até a compra de um caminhão. Uma outra conquista é a associação de expressivo número de mulheres, de indígenas Xacriabás e quilombolas .



Mulheres cooperadas da CooPeruaçu beneficiam diversos frutos nativos do Cerrado (Foto: André Dib/WWF-Brasil)



Variedade de produtos beneficiados pela Coop. Sertão Veredas (Foto: COMOVA)



Polpa de pequi separada para ser processada e transportada para a Central do Cerrado (Foto: COMOVA)


De onde viemos, para onde vamos, quem somos



Céu estrelado do Sertão (Foto: COMOVA)

Nesse cenário, palco do Grande Sertão: Veredas, Guimarães Rosa visualizou a marcante simbiose do povo brasileiro, onde as influências se encontram e se recriam, costumes e tradições de variadas fontes culturais são impressas nos hábitos alimentares, no artesanato, nas crenças e nas festas populares. São estas referências que permitem entender o encontro desses diferentes povos, e a gênese do Brasil.

A presença dessa cultura está nos pequenos detalhes da vida cotidiana dos povos e comunidades que hoje vivem, criam e celebram a vida no Grande Sertão.

“Toda vez que a gente quer alguma coisa, e não sabe o quê, então é porque a gente está é com sede dum bom copo d’água, ou carecendo de ouvir música tocada.” (Grande Sertão: Veredas)



Interior uma casa do Sertão (Foto: Débora Herszenhut)

A festa católica chamada de folia de reis é um marco na tradição cultural do sertão. Ela acontece entre os dias 25 de dezembro e seis de janeiro, celebrando a visita dos os três reis magos Melchior, Baltasar e Gaspar ao menino Jesus. É no período natalino que se ouve o som de caixa, pandeiro, violão, cavaquinho, rabeca, rapa-pau e tantos outros instrumentos que acompanham o coro dos foliões nos rituais de saudação da lapinha - o presépio com o menino Jesus.

Na folia, um cortejo formado por cantadores, instrumentistas, reis e palhaços, caminha em festa até a casa do chamado do ‘’imperador’’, que receberá a benção da folia e organizará a festa em homenagem aos reis. Muitas vezes a folia vem acompanhada de um grupo de mulheres que entoam cantos e danças.

Típico das manifestações da cultura popular brasileira, os fazedores dessa arte nunca sabem ao certo como explicar de onde vieram e como foram criadas as danças e cantos que executam, o que sabem apenas é que esses são momentos de intensa felicidade e realização individual e coletiva, o bastante para que sigam realizando suas festas e recriando suas tradições através das gerações.


Expressão cultural do Sertão


Ficha Técnica

Realização WWF-Brasil

Maurício Voivodic Diretor executivo

Julio César Sampaio Coordenador do Programa Cerrado Pantanal

Kolbe Soares Analista de Conservação do Programa Cerrado Pantanal

Letícia Campos Comunicação do Programa Cerrado Pantanal / Produção e texto

Produção COMOVA

Gustavo Amora Produção Executiva

Debora Herszenhut Pesquisa e texto

Carolina Nogueira e David Alves Matos Revisão de texto

Bruna Daibert Ilustrações

Matheus Caetano Edição de vídeos

Cacai Nunes Trilha Sonora

Equipe de Vídeo: Loic Wirth (Dir. Fotografia), Amandine Goiaboult (Som), Debora Herszenhut (Ass. Direção), David Alves (Ass. Fotografia), Arcanjo Daniel (Ass. Produção), Gustavo Amora e Sílvio Cohen (Produção Executiva do projeto).

Fotos: André Dib/WWF-Brasil; Bento Viana/WWF-Brasil; Debora Herszenhut/COMOVA; Pedrinho Fonseca.

Agradecimentos: Comunidades, cooperativas e instituições parceiras do Mosaico Sertão Veredas Peruaçu

 


Texto extraído de: https://medium.com/@comunicacao_95799/grande-sert%C3%A3o-6a58c67184d3
Fonte Imagem: https://medium.com/@comunicacao_95799/grande-sert%C3%A3o-6a58c67184d3


O mapa do sertão na parede da memória

 

domingo, 3 de julho de 2022

Fiandeiras, tecelãs e tintureiras resgatam orgulho e tradição no sertão de Minas Gerais

 Na região mineira imortalizada por Guimarães Rosa como Grande Sertão Veredas, senhoras artesãs retomam o ofício, passado de mãe para filha, da produção têxtil artesanal.

As fiandeiras Tereza Custódia da Silva (primeira à esquerda), Simone Amorim de Souza (no centro) e Domingas Augusta da Costa Lima (à direita) e a tecelã Maria de Lurdes Rodrigues (atrás do tear) guardam saberes ancestrais passados de mãe para filha no sertão do norte e noroeste de Minas Gerais. Para resgatar a tradição, elas tiveram que vencer a desconfiança dos maridos e o estigma da profissão, tida como atrasada.

É tempo de estiagem no Cerrado Central. A poeira suspensa tinge de vermelho as árvores tortas. Não chove há mais de 90 dias e a baixa umidade de setembro faz o corpo carecer de água. Do interior da mata seca, sob um sol abrasador, uma a uma as mulheres chegam, trazendo suas rodas de fiar. Elas saem das roças, no assentamento Saco do Rio Preto, com destino à BR-251, estrada que liga as cidades de Natalândia a Bonfinópolis, em Minas Gerais.

As vizinhas cruzam caminhos de terra batida. Cada mulher faz questão de carregar ela mesmo a sua roda. Cabelos grisalhos, Tia Maria anda encurvada, com o peso do instrumento de trabalho nos ombros. Antônia chega de carroça. Arlete de bicicleta. Na beira da estrada, debaixo da sombra de uma árvore, elas começam a fiar o algodão.

“Não pode tocar na roda. Elas ficam enciumadas”, avisa Simone de Souza, integrante da Associação das Artesãs de Natalândia. Sentadas em círculo, as rodas se movimentam. Reque, reque, reque. É o som contínuo das batidas dos pés nos pedais e as rocas a chiar. A conversa é de comadres. Contam causos, soltam gargalhadas. Alegria além das palavras.

Simone puxa a cantiga. “A roda que eu fio nela ô baiana, oi iá iá / É só eu que ponho a mão ô baiana, oi iá ia / Ou então minha cunhada ô baiana, oi iá ia.” Enquanto cantam juntas, movimentos delicados das mãos vão torcendo os capuchos de algodão, apertando o fio que se forma e que vai se enrolando no carretel. O gesto é repetido até a linha virar um novelo.

Alvarinda Francisco de Jesus, mais conhecida como Dona Nega, 58 anos, aprendeu a fiar cedo. “Com sete anos eu já fiava igual mulher grande”, diz ela, que tinha que fazer roupas e cobertas para toda a família de 15 pessoas.

Dona Nega usa um par de cardas para desembaraçar as fibras do capuchos de algodão. Esse é o primeiro passo da produção do fio usado pela tecelagem.

As fiandeiras transformam o algodão em fios. Um ofício quase tão antigo quanto a própria humanidade. A roda e o tear manual são engenhocas trazidas ao Brasil pelos colonizadores portugueses. A primeira faz o fio. O outro, a trama do tecido. Com a mecanização e o desenvolvimento da indústria têxtil, o trabalho das fiandeiras e tecelãs praticamente desapareceu.

Na região conhecida como Grande Sertão Veredas, no norte e noroeste de Minas Gerais, as fiandeiras, ou “fiaderas”, como preferem ser chamadas, mantêm viva a fiação manual. São guardiãs do passado, conhecem os mistérios de um saber feminino transmitido pelas avós, mães e tias. Uma tradição preservada pelo isolamento geográfico dos confins do sertão mineiro, território consagrado nas histórias do escritor Guimarães Rosa.

Quando vemos a peça pronta para vender, desconhecemos o trabalho por trás dos fios. Após a colheita do algodão, primeiro retira-se as sementes e qualquer outro tipo de impureza. Pode ser feito à mão ou com um descaroçador, espécie de moenda feita de dois cilindros de madeira. Depois, carda-se o algodão, o que significa transformar os chumaços em uma leve pluma.

Com pares de cardas (espécies de pás de madeira com pentes de aço), os capuchos de algodão são penteados de modo que as fibras fiquem desembaraçadas, prontas para a fiação. “O segredo é deixar torcer. Mas não pode torcer pouco ou demais. Você tem que saber o ponto que dá para soltar ou esticar a linha”, conta Maria Nilma, fiandeira de Riachinho (MG).

A fiandeira Dona Maria Helena trabalha no quintal de casa, em Uruana de Minas (MG), cercada, ironicamente, por lençóis produzidos de forma industrial.


Dona Helena fia na mesma roda que pertenceu à mãe. "Assim com ela, sustentei a família toda fiando”, conta orgulhosa.

Fiar, tecer e bordar são tarefas que as mulheres sertanejas aprendiam desde meninas. O algodão era plantado nos roçados. As mães faziam as roupas da família a partir de linhas fiadas por elas mesmas e a sobra era vendida para vizinhos ou comerciantes. Quando as filhas viravam adolescentes, teciam seus enxovais de casamento, colchas e fronhas que seriam presenteadas ao noivo.

Dona Nega, fiandeira de Sagarana (MG), começou a fiar sozinha na infância. Morava perto de uma vereda, distante do mundo. Um caminhão aparecia a cada três meses para vender mantimentos. Eram 15 pessoas na família, o que demandava muito trabalho. “Com sete anos eu já fiava igual mulher grande”, diz Dona Nega. “Tudo era algodão né? As roupas, as cobertas, a capa do colchão de palha de milho e o saco de mantimentos, a tuia.”

Dona Maria Helena, de Uruana de Minas, fia em casa, na roda que pertenceu à sua mãe. “Assim como ela, sustentei a família toda fiando”, conta orgulhosa. Quando tece, a memória traz o rosto e as mãos da mãe. “Acompanhava ela nos mutirões. Era a gente e o barulho da rodinha cantando.” A marcas “V e V” revela a origem: a fábrica de Patos de Minas (MG), famosa por fornecer as melhores rodas da região. A fábrica fechou e hoje não existe quem venda.

As fiandeiras cantam quando se encontram para trabalhar. A tradição veio dos chamados mutirões, festas em que a comunidade se mobilizava para realizar atividades que demandam mão-de-obra acima da capacidade familiar. A cantoria ajudava a alegrar o ambiente e a quebrar a monotonia do trabalho. As mulheres inventavam rimas e a brincadeira era desafiar a outra com versinhos improvisados.

A fiandeira Maria de Jesus Coelho, 87 anos, sai de casa carregando a própria roda para se encontrar com suas colegas de trabalho. Elas costumam trabalhar juntas em pontos de encontro ora inusitados, como embaixo de uma árvore na beira da estrada.

Dona Maria é abraçada por Simone Amorim de Souza, uma das artesãs mais jovens da Associação de Artesãs de Natalândia (MG). As novas gerações pouco se interessam pelo ofício das anciãs – preferem trabalhar ou estudar nas cidades maiores.

Teresa da Silva, 74 anos, aprendeu as cantigas nos mutirões de solidariedade. “Todo mundo ajudava a dona do mutirão. A gente cardava e fiava, tinha dia que ficava até rouca de tanto cantar. Era muito bom”, lembra Teresa. “Nós na roda e os homens capinando enxada. Juntava umas 40 pessoas.”


Mudanças à vista


O mundo moderno chegou ao sertão mineiro na metade do século 20. A mudança foi impulsionada pela construção de Brasília, em 1960. A capital federal, a cerca de 250 km de distância, trouxe o asfalto, novos empregos e o êxodo rural. O progresso veio com a luz elétrica, a televisão e os carros a motor.  

Guimarães Rosa narrou as belezas do sertão mineiro, com veredas e buritis a perder de vista. Hoje, viajar por essas sertanias é ver uma paisagem em transição. Toda a região vê chegar a mecanização da lavoura, os grandes pivôs de água e as vastas extensões de plantações de feijão, soja, capim, cana e eucalipto. Mas ainda existem as árvores retorcidas e o colorido dos ipês desponta na seca.

O renascimento dos antigos processos artesanais só aconteceu com ajuda da Central Veredas, cooperativa que atua como braço comercial das artesãs no vale do rio Urucuia. A sua fundação, em Sagarana (MG), é resultado de um trabalho desenvolvido em 2002 pela ONG Artesol. O projeto ofereceu oficinas de capacitação e estimulou a organização das artesãs em associações.

A tingideira Neide Alemeida trabalha com matérias-primas do Cerrado – murici, jatobá, baru, urucum, açoita-cavalo, folha de manga, anil. Insumos como a casca de cebola, lama preta de brejo e a ferrugem também são aproveitados.


Cansada da cidade grande, Neide Almeida, 40 anos, decidiu sair de Brasília e voltar para Uruana de Minas. Ela já foi merendeira, açougueira e auxiliar administrativa, mas diz ter se encontrado como tintureira.

“Nosso trabalho busca resgatar e valorizar os saberes tradicionais”, explica Dionete Barboza, coordenadora da Central Veredas. Hoje as mulheres são organizadas em associações nas cidades de Riachinho, Sagarana, Bonfinópolis, Uruana, Chapada Gaúcha, Buritis, Urucuia e Natalândia. Os tecidos são confeccionados de forma totalmente artesanal e o trabalho é feito em rede, com núcleos de produção que envolvem 180 mulheres nos processos de fiação, tingimento natural, tecelagem e bordados.

Quando o projeto da ONG Artesol começou, a prática de fiar estava esquecida, mas havia um potencial. Entre mães de família e donas de casa, um mapeamento identificou 200 mulheres fiandeiras na região – senhoras que viviam no campo e em vilarejos. Lavradoras, invisíveis aos olhos da rua, fiavam no silêncio de suas casas. Muitas analfabetas, mas que conseguiam ler a trama complexa das linhas como ninguém.

O ofício dessas mulheres também era visto de forma negativa por parte dos moradores. Era considerado sinal de pobreza na região, símbolo de um mundo atrasado. “As mulheres saíam pra fiar com as roda na carcunda e as meninas diziam que a gente era cafona”, conta Dona Nega.

Foi preciso vencer o estigma da profissão e a desconfiança dos maridos. “Convencer as mulheres a voltar a fiar e tecer de forma coletiva foi um trabalho difícil”, lembra Dionete. “Na época, elas nunca saíam de casa e não estavam incluídas na sociedade. Sentiam solidão. E esse trabalho trouxe um novo olhar sobre a vida delas.”

A fiandeira Teresa da Silva, 74 anos, lembra dos tempos em qua a comunidade se juntava em mutirões para fiar, tecer, bordar. Para aliviar a monotonia do trabalho, elas cantavam. "Todo mundo ajudava a dona do mutirão. A gente cardava e fiava, tinha dia que ficava até rouca de tanto cantar. Era muito bom”, lembra Teresa.

A melhores máquinas de fiar, marcadas com as letras "V e B", eram produzidas em uma fábrica de Patos de Minas (MG) que fechou. Hoje, só se consegue comprá-las usadas.

Com a formação dos grupos de produção, a artesãs passaram a vivenciar momentos importantes, como a realização dos mutirões, onde cantam cantigas de trabalho. São espaços de encontro, partilha de saberes e afetos femininos. “Toda vez que a Simone liga eu já tô com a mala pronta”, brinca a fiandeira Antônia Ramos. Os mutirões viraram arte e as mulheres passaram a ser convidadas a se apresentaram em festivais de cultura em todo o Brasil.

Maria Coelho, a Tia Maria, diz gostar das andanças. Aos 83 anos, ela ainda caminha em diferentes romarias do sertão. Tem amor pelas travessias e diz que com as fiandeiras pode conhecer outras cidades. Na bagagem, leva a roda e filosofias. “Não tenho nada de leitura. Eu vivo no meio dos outros mesmo assim. Minha mãe falava que aprender as coisas não ocupa lugar”, diz ela. “Você usa o que for preciso. O que eu acho mais bonito de ser fiandeira é a união e esse tanto de gente olhando pra nóis.”
As andanças deram reconhecimento às artesãs, mas as dificuldades ainda são muitas. O artesanato não garante a sobrevivência de quem o faz e um dos maiores entraves da Central Veredas é conseguir pagar à vista quem está na ponta da corda. Um produto chega a custar R$ 200, mas passa por pelo menos seis mãos. O pagamento ocorre só depois que a peça é vendida – as artesãs esperam meses e desanimam por não ver o retorno esperado. Uma das soluções é trabalhar apenas com encomendas.

Outro desafio é a falta de algodão, que ninguém mais planta. As fiandeiras testaram o algodão industrializado, mas os fios desmanchavam fácil. Sem a matéria-prima, o trabalho de fiação está parado. Este ano, a Central Veredas fechou um projeto para estimular o plantio de algodão orgânico entre pequenos produtores de agricultura familiar. A ideia é fortalecer a produção local para que os fios sejam vendidos para marcas de moda que buscam o diferencial de técnicas sustentáveis em suas criações.

Maria Nadir Mendes, a Dona Nadir, é considerada a artesã mais experiente de Riachinho (MG). No seu sítio ela cultiva pomares, hortas e até um pé de algodão. “Eu não gosto de coisa química nenhuma. Coisa industrializada eu não dou certo com nada. Tudo que eu faço é artesanal.”


Na casa de Dona Nadir, uma frase de Guimarães Rosa – Viver é muito perigoso – divide espaço com fotos e outras lembranças. Para a fiandeira, "é perigoso mesmo né? Tem que ter coragem”.


Encantos e desencantos


Sagarana é um pacato distrito de Arinos. Tem nome inspirado na obra de Guimarães Rosa. A vila rural nasceu em 1970, sendo o primeiro assentamento de reforma agrária de Minas Gerais. Na vila, diz-se bom dia ou boa tarde a quem quer que se cruze no caminho.

Chegamos na época da colheita do baru, nativo do Cerrado. Os moradores passam as tardes quebrando o fruto nos quintais. No passado, o baru era alimento para o gado. Agora, a castanha foi descoberta por renomados chefs de cozinha e hoje tem alta valia no mercado.

Cruzando a estrada principal de Sagarana, ao lado de um campinho de futebol de várzea, uma estátua de concreto chama a atenção de quem passa em frente ao galpão da Associação dos Artesãos. É Dona Gercina, sentada a fiar e a mirar a comunidade.  

Dona Gercina foi uma das primeiras moradoras a chegar em Sagarana. Reconhecida pela alegria, fez as fiandeiras ganharem protagonismo. Além de líder da Associação dos Artesãos local, era poeta – criou versos e músicas para as fiandeiras cantarem. Para ditar o ritmo das danças, chamou os tocadores de Folia de Reis, que incorporaram a sanfona, o violão e o pandeiro às apresentações.

A mão de Dona Maria de Jesus, 87 anos, segura um chumaço de algodão pronto para ser enrolado.


O trabalho de fiar exige coordenação – com os pés se gira a roda enquanto as mãos cuidam de alimentar a máquina com o algodão que é transformado em fio.

Gercina organizava todos os mutirões de fiandeiras. Era comadre de todas e juntava benzedeiras, parteiras e rezadeiras. Depois que faleceu, em 2014, tudo mudou. A vila entrou em luto. Hoje o galpão das artesãs tem ares de abandono – as janelas estão com fendas, parte da madeira do forro já caiu. Nada que lembre o brilho do passado, quando o local chegou a abrigar mais de 50 fiandeiras que passavam as tardes trabalhando juntas.

Dona Nega guarda um retrato de Gercina na parede da sala. “Ela era minha grande amiga. Gercina era a luz de Sagarana”, diz a fiandeira, com os olhos tristes ao falar da fotografia. “Ela sempre será meu anjo da guarda. Com ela, não tinha medo de enfrentar o mundo. Depois que ela morreu, o medo voltou.”

Dona Nega nos chama para conhecer a associação. Ela carrega sua roda de fiar nos ombros e caminha em direção à estátua. “Eu não acho que parece com ela não”, observa. Em frente à estátua, faz uma homenagem a quem se foi – suspende a roda para que a amiga fie mais uma vez.

Este ano, outra morte abalou a comunidade. Foi-se Dona Conceição. Muitas fiandeiras se aposentaram. Dona Geralda quase não sai de casa. A talentosa Maria Braga vendeu as cardas e a roda. “Vejo a vida passar na janela”, lamenta.

A fiandeira Dona Geralda também se aposentou e quase não sai de casa.


As que ainda resistem sentem saudades de um tempo que não volta. Muitas carregam a mágoa de não ter a quem transmitir o conhecimento. A falta de interesse das novas gerações veio pela força da lei da vida. No campo, os jovens acabam optando por morar na cidade, em busca de uma colocação no mercado de trabalho ou ainda para continuarem os estudos. As filhas que ficam acreditam que o artesanato dá muito trabalho para pouco dinheiro. 


Relíquias guardadas


Maria Nadir Mendes, a Dona Nadir, é considerada a artesã mais experiente de Riachinho. No seu sítio ela cultiva pomares, hortas e até um pé de algodão. “Eu não gosto de coisa química nenhuma. Coisa industrializada eu não dou certo com nada. Tudo que eu faço é artesanal”, conta.

A fiandeira nos recebe com um vestido que ela mesmo fez. A peça fez sucesso no São Paulo Fashion Week, maior evento de moda do Brasil. Ela foi convidada a assistir ao desfile da estilista Flávia Aranha. Na ocasião, uma modelo desfilou com um casaco de coxinilho, feito pelas mãos de Dona Nadir. “É bom ver que a pessoa valoriza o que a gente faz”, diz a artesã. Conhecido no sertão como “xinil”, o tecido rústico de algodão era usado nas selas de cavalo e hoje foi reinventado para novos usos.

“Viver é perigoso”. A frase de Guimarães Rosa está num quadrinho na estante da sala de Dona Nadir. “É perigoso mesmo né? Tem que ter coragem”, diz a artesã. Ao lado, um baú de madeira guarda mantas, panos e roupas que ela criou ao longo da vida. As peças carregam histórias e memórias. “São as minhas relíquias”, conta. O xodó é uma colcha com um bordado de pavão. É o seu enxoval, que ela mesma teceu aos 16 anos. “A gente cantava assim: quando este pavão cantar, nosso amor há de se acabar”, lembra Nadir. “Esse era o presente que a noiva dava pro noivo. Era a mesma coisa que um anel de noivado.”  

Da esquerda para à direita, as fiandeiras Maria de Jesus Coelho, Antônia das Graças Braga Ramos, Arlete dos Reis Braga Ramos e Leosina Aparecida Silva Reis carregam suas rodas até o ponto de encontro onde trabalharão juntas.

Nos fundos da casa, Dona Nadir guarda um bonito tear, usado para pequenos trabalhos. Ela é a única tecelã da região a praticar a técnica do repasso mineiro, com as linhas formando desenhos a cada passagem do fio. Dona Nadir sabe pontos e tramas do tear como o redemoinho, a roda d'água, a coberta de bico, a casca de laranja. Mas não tem para quem ensinar. “Aqui ninguém quer aprender. Eu não quero parar nunca. Mas se o jovem não chegar pra frente não vai ter jeito.”

Filha de fiandeira, Maria de Lourdes é tecelã em Natalândia. Seu sustento vem da fabricação artesanal de tapetes, mantas e xales. O trabalho manual demanda alto grau de concentração. No tear, primeiro prepara-se a teia na urdidura, espécie de tela de madeira com pentes. Depois, a tecelã segue orientações de determinados tipos de desenhos e padrões que deseja tecer. Por fim, ela joga a lançadeira, um cilindro que percorre o tear de um lado para o outro, passando o fio, um para lá, um para cá, formando a trama.

“É um trem que não acaba”, desabafa Maria de Lourdes. Um tapete pode levar até quatro horas para ficar pronto. Um tecido de dois metros, o dia todo. Mas o tempo vagaroso trouxe quietude para os pensamentos da tecelã. “Eu me sinto bem quando estou tecendo. Se ficar em casa sozinha, lembro de tudo”, diz ela. “Estando aqui, parece que alivia a dor. Aqui faz bem pra alma. Você coloca o sentimento.”

Maria de Lourdes perdeu dois filhos e chegou na associação para acompanhar uma outra filha, que sofria de depressão. “A Fatinha estava tão triste que eu tinha que dar comida na boca dela. Uma colega dela arrumou essa associação. Ela foi aos pouquinhos e se curou tecendo e a aprendendo.”


Cores vivas


Nos fundos de uma casinha em Uruana de Minas, panelas borbulham no fogo. Um tecido tingido com moreira acaba de ganhar a cor amarela. O tingimento natural é feito por corantes extraídos de sementes, cascas, folhas, serragens e frutos do Cerrado. A técnica tem raízes indígenas e sempre foi usada na zona rural. Quem cuida da pigmentação são as mulheres da Associação Cores do Cerrado.

“A gente ajuda a manter o Cerrado em pé porque não causa dano à natureza”, diz Leonivam Silva, artesã na associação. As mãos das tingideiras trabalham com as matérias-primas que o bioma dá – murici, jatobá, baru, urucum, açoita-cavalo, folha de manga, anil. Insumos como a casca de cebola, lama preta de brejo e ferrugem também são aproveitados.

Cansada da cidade grande, Neide Almeida, 40 anos, decidiu sair de Brasília e voltar para Uruana de Minas. Ela já foi merendeira, açougueira e auxiliar administrativa. Hoje é líder da associação. Diz que se encontrou como tintureira, inventora de cores. Os tons nascem com as dicas do pai, conhecedor das plantas.

“O sertão é vida. A beleza está na forma. As árvores se retorcem para sobreviver, são sofridas. Mas quando se retira cores delas é alegria. Isso é mágico né? ”, conta Neide. A associação resgatou seu amor às tradições. Seu sonho é morar na beira do rio, criando pigmentos em uma casa de barro cheia de objetos antigos. “Imagino morar em uma casa museu.”

Como o ir e vir do percorrer de um novelo, a viagem chega ao fim. Tia Maria dá adeus aos que partem e se despede com um versinho improvisado pela nossa conversa. “É muito tarde, eu preciso de ir embora / Boa noite, minha querida /Deixarei o meu retrato contigo / Mas se quiser sonhar comigo / Sonhará a noite inteira / Que eu também sonharei contigo.”



Texto extraído de: 
https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2019/12/fiandeiras-tecelas-e-tintureiras-resgatam-orgulho-e-tradicao-no-sertao-de-minas
Fonte Imagem: 
https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2019/12/fiandeiras-tecelas-e-tintureiras-resgatam-orgulho-e-tradicao-no-sertao-de-minas

Elomar, o gênio do sertão


Vida e formação


Elomar Figueira de Melo, nascido no ano de 1937, na 
Fazenda da Boa Vista (Vitória da Conquista – BA), no longínquo sertão nordestino, é um dos mais geniais e brilhantes compositores brasileiros.

Compôs, poetizando e musicando em sua obra, a linguagem sertaneja do Nordeste Brasileiro, mostrando pela experiência pessoal e por excelência a vida sofrida de um povo que labuta constantemente numa terra seca, mas que é grato ao Criador e o louva constantemente.

Mesmo morando com sua família na zona rural, Elomar pôde frequentar o primário escolar, o ginasial e, posteriormente, o científico (nomenclaturas dadas ao ensino fundamental, médio e técnico na época). Em 1956 inicia-se no serviço do Exército e, concluído este, volta para o curso científico - que havia abandonado por ocasião da vida militar - e também o conclui. Após a sua não classificação no vestibular de Geologia em 1958, Elomar ingressa no curso de Arquitetura, no ano de 1959, na cidade de Salvador. Tendo se formado em 1964, Elomar finalmente volta para a sua terra natal, a fim de adquirir certo suporte financeiro com sua mais recente profissão, mas, principalmente decidido a escrever a sua música, compor a grandiosa obra que já gritava lá dentro de si.

No entremeio dessa trajetória de formação acadêmica há, obviamente, a formação artístico-cultural e as aulas de música de Elomar. Como instrumento central, o nosso músico sertanejo tem o violão, com o qual faz o contraponto do seu canto e o executa com belo virtuosismo. Apesar de não ter em momento algum uma formação acadêmica em Música, Elomar se enquadra na escola do Violão Erudito.


Arcabouço musical


Não falta genialidade e lirismo naquela que é uma das mais belas e instigantes obras do cancioneiro brasileiro. Ao ouvir a música de Elomar há uma sensação de viagem pelo tempo, uma espécie de teletransporte através das eras da humanidade, como nas palavras da professora Jerusa Pires Ferreira (2001): “é como se ouvisse um canto de milênios”. Com uma exatidão magnífica Elomar cria belíssimos contrapontos ao canto com o violão, elevando a sua performance a um patamar de alta complexidade, pois executa no violão uma linha melódica simultânea ao canto, ora em uníssono ora com variações, fazendo com que o instrumento extravase uma função de mero acompanhador. A Enciclopédia Itaú Cultural (2017) explica

(...) Seu instrumento central é o violão que não assume a
postura comum de simplesmente acompanhar a harmonia para o canto. Uma das
características de sua obra é o fato dele seguir a mesma linha melódica exposta
no canto ou então apresentar pequenas variações em contraponto com a voz. Deste
modo, ele realiza a difícil tarefa de ser simultaneamente solista instrumental
e intérprete. Certamente o fato de ter formação musical clássica contribui para
essa condição solista central do violão e a utilização de timbres,
encadeamentos harmônicos, frases típicas deste universo sonoro.


Em seu processo compositivo Elomar revela sua grande capacidade e excelência em mesclar o melhor de dois mundos, o popular e o erudito. Influenciado pela música erudita que ouviu no rádio quando criança, como a protofonia de O Guarani de Carlos Gomes - universo esse em que tempos depois se  aprofundou e estudou dele os gêneros e formas de se fazer, como a ópera, a antífona, o prelúdio e outros – Elomar também sempre se nutriu muito do universo popular da música, como quando em sua juventude acompanhava as serestas, modinhas e mais ainda toda aquela tradição da sua terra, recheada da cantoria nordestina, do repente, dos aboios etc. E Elomar ainda guarda mais maravilhas dentro de seu embornal. É também na linguagem, ou seja, com a escrita de suas canções que Elomar cria, saúda e poetiza as belas melodias de suas cantorias, fundindo as tradições que vive no sertão com as tradições europeias e ibéricas. “Para concretizar essa fusão ele opera evidente transformação na linguagem. Ela se apresenta recheada de arcaísmos, como o latim, com variantes dialetais e neologismos, criando assim um dialeto muito próprio fundado na oralidade sertaneja” (Enciclopédia Itaú Cultural).

Elomar Figueira Mello tem discos 17 discos lançados. Alguns desses discos gravados com a colaboração de outros artistas como Xangai, Vital Faria, Heraldo do Monte, Paulo Moura, Arthur Moreira Lima, Jacques Morelenbaum, Geraldo Azevedo e Dércio Marques.


Discografia


(2016) O menestrel e o sertãomundo (c/ Orquestra Sinfônica Nacional da UFF) – CD
(1995) Cantoria 3 - Elomar -Canto e solo • CD
(1992) Árias sertânicas • Rio do Gavião • LP
(1989) Elomar em concerto • Kuarup • LP
(1988) Concerto Sertanez • LP
(1986) Dos confins do sertão • Trikont • LP
(1985) Sertania • Kuarup • LP
(1984) Cantoria I • Kuarup • LP
(1984) Cantoria 2 • Kuarup • LP
(1983) Cartas Catingueiras • Gravadora e Editora Rio do Gavião • LP
(1983) Auto da catingueira • Gravadora e Editora Rio do Gavião • LP
(1982) ConSertão. Um passeio musical pelo Brasil • Kuarup • LP
(1981) Fantasia leiga para um rio seco • Rio do Gavião • LP
(1979) Parcela malunga • Marcus Pereira • LP
(1979) Na quadrada das águas perdidas • Marcus Pereira • LP
(1972) Das barrancas do Rio Gavião • Phillips • LP
(1968) O Violeiro/Canções da catingueira • Compacto simples


Referências


ELOMAR . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2018. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa560680/elomar >. Acesso em: 04 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN: 978-85-7979-060-7.

ELOMAR. In: Dicionário Cravo Albin. Instituto Cultural Cravo Albin. Disponível em: < http://dicionariompb.com.br/elomar/discografia>. Acesso em: 04 de Out. 2018.

ELOMAR. In: PORTEIRA Oficial de Elomar. Disponível em: < http://www.elomar.com.br/> Acesso em: 04 de Out. 2018.



Texto extraído de: http://www.vivarte.mus.br/post/2019/02/24/elomar-o-g%C3%AAnio-do-sert%C3%A3o
Fonte Imagem: http://www.vivarte.mus.br/post/2019/02/24/elomar-o-g%C3%AAnio-do-sert%C3%A3o