O “Arrumação” estreou na TV em dezembro 1987, e desde então, mantém o objetivo de apresentar os valores da cultura brasileira abrindo espaços para as diversas manifestações da música, poesia, prosa, teatro, dança, folclore e o bom humor. O apresentador e idealizador Saulo Laranjeira define que o programa é território do autêntico e das diversidades, espaço da dimensão universal da arte nacional e suas linguagens atuais. “As Terras do Arrumação” aproxima as pessoas e toca a alma, e identifica o jeito de ser do povo brasileiro.
O Programa Arrumação é uma odisséia, uma cruzada, uma história de muitas alegrias, que enche de orgulho a alma brasileira. Ficou marcadamente conhecido pelo público como As terras do Arrumação, lugar mágico que emociona, revela, projeta, registra, denuncia, resiste, homenageia e reverencia incondicionalmente a alma artística brasileira.
Ao longo destes quase quinze anos no ar, ora pela Rede Minas, ora pela TV Alterosa/SBT, o Arrumação formou gerações, virou tradição e bateu recordes com mais de 2000 artistas, em mais de 300 programas. De volta novamente a Rede Minas, o Arrumação tem o poder de unir anônimos e consagrados da MPB, do teatro, da dança, da poesia e do humor brasileiro dividindo o mesmo palco. Tudo isso sob a batuta de Saulo Laranjeira. Que na verdade é o sinônimo do programa.
O Arrumação é responsável pela manutenção de um espaço aberto para a divulgação e o registro de todas as manifestações culturais do Brasil. O programa já demonstrou sua coragem e sensibilidade ao veicular os caminhos da musicalidade e do jeito de ser do povo brasileiro. Tornou-se, assim, referência e uma iniciativa pioneira que logo conquistou o interesse da classe artística e o carinho do público de Minas e do Brasil. Jornada rara dentro da programação da televisão brasileira, o Arrumação é um programa de auditório que aproxima o telespectador de sua identidade cultural em busca da verdadeira brasilidade. Sem preconceitos e sem receitas pré-fabricadas para obter sucesso duvidoso, o Arrumação provou por sua grande audiência, em vários momentos, que existe uma enorme demanda pelo reencontro de nossa identidade.
O envolvimento de Saulo com a cultura popular do Vale do Jequitinhonha — onde nasceu — surgiu espontaneamente na infância e adolescência, por vivenciar, identificar-se e absorver as manifestações culturais e folclóricas da sua região.
No começo da década de setenta foi morar no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, sempre desenvolvendo um trabalho em favor da cultura brasileira em geral, principalmente na casa de cultura Fulô da Laranjeira, que inspirou o seu nome artístico.
— A Fulô era um sobradinho que tive perto da Avenida Paulista, onde eu divulgava a cultura do Vale, na área do artesanato, da música, e de todo o Brasil. Além de apresentar-me, mostrava outros artistas, "batia papo" com eles no palco, porque sempre gostei de promover esse encontro e proporcionar ao público conhecê-los. Era inclusive um reduto de músicos emergentes da época, final da década de 70, que desenvolvia um trabalho na cultura regional, como o Renato Teixeira, Diana Pequeno, Dércio Marques, Elomar, Vandré, Xangai e muitos outros — conta Saulo.
No Rio, Saulo trabalhou com crianças, surgindo nesse momento seu primeiro personagem: Véia Messina, uma velhinha de noventa anos, que servia para ilustrar historinhas que contava, levando-as ao máximo da imaginação sobre o ambiente do mundo regional.
— É uma camponesa, que vive nos boqueirões de serra, distante dos grandes centros, mas que fala coisas que mexem com as pessoas da capital, por causa de sua sabedoria, que se assemelha a uma filosofia intelectualizada, e seu linguajar extremamente simples, mas com um discurso poderoso de sabedoria natural, popular, fruto de observação — expõe.
Saulo conta que o personagem foi inspirado em uma velhinha que fez parte do seu convívio até os dezesseis anos de idade.
— Os trejeitos e a personalidade da minha velhinha tem muito a ver com ela, que foi uma das responsáveis por eu ter ficado tão absorvido pela beleza da cultura popular e ter seguido esse caminho como uma meta. Com o tempo me preocupei que o personagem não fosse somente uma cópia dessa velhinha, mas que pudesse representar o poder do idoso que conseguiu potencializar sua consciência e seu conhecimento da vida. Hoje, ela tem características de muitas outras que fui "esbarrando" na vida ou que vi em filmes, no teatro — diz.
Fonte: http://www.revistaipe.com.br/blog/?p=156
Saulo foi percebendo que o humor estava sempre presente em seu trabalho artístico e que deveria colocá-lo a favor de uma crítica social, com um compromisso de fazer o povo refletir sobre as questões culturais, sociais, ambientais. Assim foram surgindo personagens e amadurecendo com a prática, procurando absorver o máximo da psicologia e filosofia de cada um.
— A pessoa se vê na condição do ridículo, frágil diante de um mundo globalizado, onde o consumismo é muito presente, fazendo com que se perca a noção da importância da solidariedade, do amor, da amizade, de preservar a natureza, e outros conceitos nobres da vida. Por mais que os personagens em alguns momentos tenham a pretensão de fazer rir somente, em outros mostram um lado de emoção, de reflexão, mais dramática, procurando levantar polêmica, questionar a sociedade, e isso é o que mais me interessa — confessa.
— Assim surgiu o Zé da Silva Pereira, inspirado em um vaqueiro, filósofo popular por sua sabedoria natural do mundo, ajustado dentro de um universo do Guimarães Rosa, vivenciando um pouco o seu sertão místico. Depois vieram Kelé metaleiro, uma crítica a jovens culturalmente alienados; o bebum, crítica a respeito da pessoa totalmente fragilizada diante da bebida; o deputado João Plenário, inspirado na classe política brasileira em geral, com postura inconsequente e insensível; o João Macambira, um poeta popular que declama poemas fortes do sertanejo, utilizando-me de poesias minhas e de grandes poetas populares como Catulo da Paixão Cearense, Patativa do Assaré, Zé da Luz, Ademar de Paiva e Camilo Jesus de Lima — diz.
— E o tema do meu trabalho sempre foi a cultura popular de Minas Gerais, por mais que eu ampliasse o leque mostrando, por exemplo, o caipira Geraldinho, inspirado em um matuto de Goiás, ou o sambista Juriti, inspirado no sambista carioca do morro — declara.
O Arrumação é fruto do Som Brasil, da década de 1980, apresentado pelo Rolando Boldrin, que me fez ficar conhecido nacionalmente como um artista envolvido com a cultura regional, tamanha a minha frequência no programa. E fui convidado para apresentar um no mesmo modelo, aqui em Minas, com artistas daqui, o que topei imediatamente. O nome e trilha sonora foram escolhidos por eu gostar de cantar a música Arrumação, do Elomar — conta.
E segue o artista Saulo carregando todos os seus personagens dentro de si...
Este livro apresenta uma análise
comparativa inédita sobre a complexa relação entre música e cultura, política e
sociedade, em três diferentes países da América Latina: Brasil, Chile e
Argentina. O trabalho de pesquisa de quase uma década em arquivos de Santiago
do Chile, Buenos Aires e São Paulo ampara a análise sofisticada da autora, que
evidencia processos culturais e políticos muitas vezes semelhantes. A primeira
parte da obra enfoca o lugar ocupado pelos estudos folclóricos, nos três
países, mostrando como este movimento foi constituído e legitimado em cada um
deles. A segunda parte enfatiza a complexa história de como o Movimento da
Canção Militante na América Espanhola foi recebido, usado, transformado,
executado e transmitido no Brasil, na segunda metade do século XX. O livro de
Tânia da Costa Garcia inaugura, indubitavelmente, novos caminhos de pesquisa
que estavam escondidos antes deste rico estudo comparativo.
Eu não sabia que “Romaria” fosse
fazer o sucesso que fez, eu tinha ideias meio radicais, né. Eu não queria
facilitar. Olha só onde é que eu fui mexer. Eu fui mexer num
símbolo, Nossa Senhora Aparecida,
Quando foi ali no começo dos anos
70, eu tinha vindo de Taubaté pra São Paulo e comecei a andar e a conviver com
aquele pessoal que tava começando aquela fase gloriosa da MPB: Chico, Caetano,
Gil… E foi ali que eu percebi que eu não estava sendo um bom compositor, porque
eu estava fazendo um tipo de música que não tinha vínculos com a minha cidade,
com a minha terra, com a minha cultura. Então eu resolvi me dedicar a cultura
do interior, eu tinha essa preocupação acadêmica porque eu vinha da MPB, aquela
coisa muito sofisticada.
Eu via que a música caipira estava
cumprindo um ciclo e que essa cultura estava sendo meio que descartada e
tratada com certo descaso. Eu me propus a investir nisso copiando o mesmo
formato da Bossa Nova, que pegou o jazz aplicou no samba e transformou. Eu
peguei a MPB e apliquei a música caipira.
Na minha geração, a grande
influência foi Luiz Gonzaga. No meu caso, foi Noel Rosa. Dorival Caymmi.
Pixinguinha, as valsas. A grande influência da minha vida foi um disco,
que eu ouvi no fim dos anos 60, que era “Os 10 maiores sucessos de Tunico e
Tinoco”. Me mostrou o caminho que eu estava procurando. Volte pra casa. Assuma
suas condições, sua história. Eu sou fiel, eu sou uma caipira de Taubaté.
No começo dos anos 60 o mercado da
música brasileira sofreu um grande golpe com o AI-5. A música meio que acabou
no Brasil.
Minha carreira estava indo bem. Eu
já tinha feito uma música que o Roberto Carlos tinha gravado: “Madrasta”, com
meu parceiro Beto Ruschel. Quando o mercado fechou e eu me vi mudando prum
outro ramo da música que é publicidade. Me transformei num publicitário. E a
publicidade me ajudou muito a atravessar aquele período de repressão e acessar
muita informação. Chegavam os filmes, as revistas, as publicações, se discutia
muito. Mas a partir daquele momento eu perdi um pouco o contato com a tribo da
MPB, da qual eu fazia parte. A maior parte foi pro Rio, a coisa foi se
desmembrando. E eu fiquei em São Paulo atuando como publicitário.
Não era nem minha intenção fazer
uma música tão popular. Eu estava apaixonado por poesia concreta. Eu estava
apaixonado por Décio Pignatari. Esse negócio “Caipira pira pora nossa”.
Eu não sabia que “Romaria” fosse
fazer o sucesso que fez, eu tinha ideias meio radicais, né. Eu não queria
facilitar. Olha só onde é que eu fui mexer. Eu fui mexer num símbolo, Nossa
Senhora Aparecida, era uma cidade vizinha. A gente ia pra lá todo fim de
semana, passear. Aí você vai descobrir que o Brasil começa a se conscientizar
como nação, quando começa o culto de Nossa Senhora lá pra 1700. A gente começa
a perceber que a gente não era Portugal.
O milagre começa quando você pega
um corpo sem cabeça e bota uma cabeça e essa imagem vira o símbolo de um povo.
Une esse povo. Eu não imaginava com quem eu estava mexendo. E o que é mais
interessante é que eu não fiz um hino pra Nossa Senhora. Ela tem lindos hinos.
O meu hino é pro romeiro, não é pra Nossa Senhora.
Eu tava em casa e compus a canção.
Pensando em fazer uma canção moderna, uma música caipira que o Flávio
Cavalcanti não quebrasse o disco no programa dele. Eu tinha um encontro naquela
tarde com o Marcos Pereira, benfeitor da música regional brasileira, eu fiz a
letra, mas quando chegou no fim “mas como eu não sei rezar, só queria mostrar,
meu olhar.” Ótimo. E agora? Aí eu não conseguia achar mais nada pra mostrar a
ele. Eu sou assim. Quando empaca, eu dou um tempo que vem.
Então eu dobrei a letra, botei no
bolso, e fui encontrar com o Marcos. Aí eu falei assim: “Só que eu não
terminei”. Ele falou: “Não faz mal”. Abri e cantei, lendo a letra: “É de sonho
e de pó”. E no final “lalala”, terminei com “lalala”. Mas nisso, quando eu tava
terminando a música, o Marcos levantou da cadeira, deu a volta na mesa, chegou
perto de mim, me deu um beijo na testa, e falou: “Pô, cara, você não sabe o que
você fez”. Eu não sabia mesmo. Pra mim eu tinha feito só mais uma música. Ele
sentiu que eu tinha feito uma grande canção.
A banda que tocava comigo, o
“Água”, eram todos publicitários. Ninguém precisava de cachê pra viver, a gente
vivia de publicidade. Talvez o “Água” tenha sido a primeira banda acústica
brasileira, assumida, porque com a gente tocavam Oswaldinho do Acordeon, o
Papete, o Sérgio Mineiro, o Carlão de Souza, pessoas que tem uma história linda
dentro da música brasileira.
O nosso show chamava “Romaria”.
Foram três anos fazendo isso. Algumas cantoras assistiram. Ninguém reparou na
musica. Aí quando foi meu irmão Roberto de Oliveira. Era agente da Elis,
produtor da Elis. Meu irmão que produziu aquele LP “Elis e Tom”. Ela sabia que
eu era compositor. Mas nunca falamos de música. Eu tinha o meu estúdio, que era
na frente do Teatro Bandeirantes, e ela tava fazendo “O Falso Brilhante”. A
banda da Elis durante o dia gravava jingles no meu estúdio. E ela disse: “Olha,
eu vou gravar um disco…”, ela tava grávida de 7 meses da Maria Rita. “Vai lá em
casa pra você me mostrar música”. Eu tava inédito, ninguém me gravava, eu era
publicitário. A minha carreira de compositor estava estagnada, por várias
razões. E aí eu fui gravando.
Cheguei lá era uma música assim:
“sentimental…eu fico quando pouso na mesa de um bar, eu sou um lobo cansado”.
Eu tava nas nuvens, eu tinha sido gravado pela Elis. Aí no outro dia ela me
liga de novo: “O que você vai fazer hoje à noite?”. Eu falei: “Nada”.
“Então vai no estúdio que eu vou gravar outra música sua”. Era “Romaria”. A
Elis gostou tanto que convidou a gente pra tocar. Se vocês quiserem ouvir o
“Água”, escutem “Romaria” com a Elis, com a gloriosa participação de César
Camargo Mariano e Nathan Marques. Eu entrei em estado de graça. Pra mim tava
pronto. Podia voltar pra Taubaté que tava tudo certo.
Daí a música fez sucesso. Eu devia
ter uns 31, 32 anos… Aí eu fui abrir um show pro Luiz Gonzaga. Encerrei o meu
show com “Romaria” que era a música que tava bombando. Quando eu sai do show,
seu Luiz estava se preparando para cantar o show dele. Aí ele virou pra mim e
falou assim:
“Cantou sua Asa Branca, hein, Seu
Teixeira?”. Aí eu achei que ele tava tirando sarro: “Ô Seu Luiz você tá
brincando comigo, querendo comparar minha música com a sua”. Ele falou assim:
“Eu não estou tirando sarro”. Ele ficou até meio invocado. “Sr. Teixeira eu não
estou tirando sarro, eu estou te falando uma coisa muito séria. O Sr. espere.
Daqui a 30 anos você vai ver o que vai acontecer com a sua música”.
O cara cantou a bola. “E outra
coisa, Seu Teixeira, isso é sorte. Caiu no seu colo. E o senhor faça o
seguinte, Seu Teixeira, toda vez que o Sr. for tocar essa canção, o senhor
toque como se fosse a primeira vez. Porque isso aí é sorte. Isso é pura sorte”.
Até hoje, toda vez que eu vou cantar “Romaria”, eu lembro do Seu Luiz. Porque
de uma certa forma ele carimbou minha música.
Não estava sozinho nesse momento.
Já tinha o Sérgio Reis ali do lado fazendo uma coisa mais jovem guarda. E uma
dupla chamada Leo Canhoto e Robertinho que desmontaram aquele personagem do
caipira com chapéu de palha, botaram guitarra nas canções, que eram
essencialmente caipiras, se vestiram de cowboy, subiram em cima de uma moto em
vez de um cavalo, e foi assim que a gente deu continuidade ao sonho do pessoal
mais antigo de ter uma representação musical através da cultura dos caipiras.
Quando surgiu o sertanejo universitário: Luan, Theló, Paula Fernandes, Vitor e
Leo, essa moçada toda.
Em que momento que isso começa a
acontecer? Lá no final dos anos 60, com um taubatiano chamado Tony Campello, um
produtor maravilhoso. Que era produtor da Celi e já tinha sido um dos
lançadores do rock’n’roll no Brasil. Ninguém conhecia rock’n’roll como ele.
Depois ele teve a seguinte ideia: eu vou pegar uma dupla da Jovem Guarda e vou
fazer eles cantarem sertanejo.
E foi lá e convidou uma dupla
chamada Deny e Dido, que na época estava fazendo um grande sucesso com uma
música chamada “Coruja”. Eles não toparam, estavam no auge do sucesso. Então
Tony procurou o Sérgio Reis. O Tony tinha sido o produtor de “Coração de Papel”
do Sérgio Reis. E a partir dali começa a surgir uma música que hoje domina 70%
do mercado da música no Brasil. E a coisa começa a crescer, crescer, pra chegar
nesse volume que chegou hoje. O que eles chamam de “agronegócio” não apoia
essa cultura, precisava apoiar essa cultura. Cadê o memorial do Tunico e
Tinoco? Os grandes mestres. Cadê Raul Torres? Foi um cara super importante, ele
fez uma rádio em São Paulo tão forte como era a Rádio Nacional no Rio de
Janeiro. Em termos de talento.
Eu acho que a música é uma missão,
uma missão bonita. Não existe música feia, existe música que você não gosta.
Todos os povos cantam, todas as ideologias cantam, todas as religiões cantam.
Todo mundo canta. A música ela é um todo.
Não existem dois compositores. É
um espírito só dividido em vários segmentos, é a mesma ideia que se pratica. Eu
sou que nem um grão de areia na praia. O que dá pra se enxergar é muito pouco,
a coisa é muito grande. Quando Luis Gonzaga chegava, todo o Nordeste chegava
com ele. O mesmo Sérgio Reis, todo o Centro Oeste chega com ele. E o Gonzagão e
o Luiz Gonzaga (Gonzaguinha) eles já trocavam figurinha, um já gravava o
outro.
Essa unidade musical que tem o
país através do idioma. Porque a música brasileira não é pra principiantes. É
um gênero que já mudou três vezes o destino da música no mundo.
Quando Carmem Miranda inaugurou a
performance dela ela tava gestando a Madonna, Elvis Presley, Mick Jaguer, todos
esses bailarinos de palco… etc. Tava tudo vindo naquela de se fantasiar e fazer
um grande espetáculo. A performance. Depois a Bossa Nova transformou tudo.
Mudou a música do mundo. Todo mundo tocou. Antigamente todo mundo tocava só com
3 dedos. A Bossa Nova botou 5 dedos, criou harmonias lindas. Eu acho o Tom
Jobim o maior compositor popular da história da mundo, da história da música,
não só do Brasil. Pra mim ele é o maior de todos. Foi a Bossa Nova que nos deu
isso. Pro mundo. Aquele momento do Tom Jobim com Frank Sinatra. Durou uns 5
anos. Naquele momento, Tom Jobim era o maior compositor da Terra, e Frank
Sinatra o maior cantor. Eu acho que a MPB tem alguns fundadores. Um é a
gravadora Elenco, outro é o Aloysio de Oliveira. O Walter Silva. O próprio
Roberto de Oliveira, meu irmão, é um pessoal que fez um trabalho ali que
caracterizou a MPB. Montou a MPB. Antes disso aí não tinha a MPB. Ninguém
falava MPB.
Eu tenho a obra inteira do Raul
Torres, que pena que a pessoas não possam usufruir dessa beleza toda. O
Cornélio Pires nos anos 20/30 juntava multidões de 20 mil pessoas pra ouvir
ele. Inventou a dupla caipira. Botou chapeuzinho nos caras. Pegou os caras que
trabalhavam na olaria do pai dele, montou personagem, trouxe pra SP, botou na
rádio. Esse gênero já deu artistas do nível de um Tonico e Tinoco. De um Raul
Torres, Rolando Boldrin, Almir Sater, Geraldo Roca, Dércio Marques, não
pára. Tunico e Tinoco falaram pra mim “Ô Renato, você conhece o Milton? E
o Chico? E o Caetano? Você conhece o Gil? Então liga pra eles e pede pra eles
compor uma moda pra nós? Eles manda a fita cassete pra nós, nós pega a moda
deles, conserta e grava”. E quando eu comecei a fazer esse trabalho com Pena
Branca e Xavantinho, eles pegaram o cio da terra e consertaram, e fizeram
aquela maravilha. Eles consertaram.
Eu fiz um DVD, com Sérgio Reis, e
nós convidamos o Tinoco para nos assistir. E aí ele foi no camarim e
perguntaram: “Tinoco, como é que você descobriu a música?” Ele respondeu que na
casa dele, quando ele e o irmão eram crianças, eles gostavam de correr atrás de
galinha, correr atrás do porco, subir em árvore, e faziam música com isso. Um
dia, um deles perguntou pra mãe,: “Mãe, quem inventou a galinha, a minhoca que
a gente brinca tanto? Quem inventou?” E mãe respondeu: “Olha, quem inventou
isso aí foi Deus”. “Por isso, cara, que quando a gente canta, a gente canta em
nome de Deus”.
Eu quero tirar aquele ranço,
aquela inocência que às vezes prejudica um pouquinho, que faz o povo achar que
o caipira é um sub ser. O caipira é um super ser. A grande mentora é
Inezita Barroso. Inezita Barroso é nós.
Texto extraído de: https://estadosgeraisdacultura.art.br/entre-o-campo-e-a-cidade-com-renato-teixeira/
Nuá – Música dos Mitos
Brasileiros (ed. Vai Ouvindo, 2009) trata-se de um livro de contos, ilustrado por Kiko
Farkas, que acompanha ainda um CD com trilhas originais para cada uma das
histórias narradas. E foi uma grata surpresa!
Se em Jurupari a
narrativa longa não favoreceu completamente a voz autoral de Paulo Freire,
em Nuá encontramos seu formato ideal. Os contos episódicos bem ao
estilo dos abusões da literatura oral condensam a ação, o que
faz a brevidade da descrição se incorporar à proposta. Também não há muito
espaço para outros personagens, e acabamos nos centrando na voz e no pensamento
do Eu Lírico do violeiro – que é muito mais sincera e interessante,
diga-se de passagem.
Cobra que mama, por Kiko Farkas
No total temos 12 contos
distribuídos ao longo de 50 páginas e em todos eles o violeiro se coloca seja
enquanto protagonista, aquele que enfrenta os mitos, seja como expectador ou
sujeito que sofre a influência do fantástico. É o que se mostra no
conto que dá nome ao livro, quando o pajé Nuá precisou salvar os seres vivos
do dilúvio. Nuá transformou todos os bichos terrestres – inclusive seres
humanos – em outros animais que pudessem esperar no céu até as águas abaixarem
e a noite ir embora. Quando o dia nasceu, era tanta
afobação para voltar para a terra que Nuá acabou se confundindo e transformando
bichos em outras coisas. A família de Paulo virou toda em taturana, conta
ele, e só depois de muita conversa conseguiram voltar a ser gente. Por outro
lado, teve humano que gostou tanto de ser bicho que fugiu da vista de Nuá para
continuar despreocupado na natureza. É por isso que tem tanta gente que
preferiu virar macaco, “num autentico caso de evolução da espécie”.
Adoro encontrar no texto de Paulo
Freire as marcas da cultura popular que vão para muito além dos mitos, mas que
se plasmam em modos de sentir, pensar e agir. O lobisomem, por exemplo, precisa
beber sangue durante a noite pois tem menos dentro do corpo e precisa “equilibrar
os líquidos“. Desde Galeno (130 d.C) o povo conhece a teoria de que é preciso
parear os quatro humores (sangue, fleuma, bile amarela e negra), e é possível
encontrar essa referência em várias passagens do folclore brasileiro.
Outro pensamento bastante
recorrente, haja visto sua presença inclusive na homeopatia, é a ideia de que “o
semelhante cura o semelhante“. Encontramos essa referência em Nuá na
resposta que uma cigana oferece para o violeiro se livrar do abraço invisível
de uma assombração recorrente: Para aquilo que assusta é preciso causar um medo
maior. A solução não é definitiva, e a estratégia precisou mudar para uma outra
tática comum aos contos populares: a eufemização. A esganadura sufocante
virou um “abracinho gostoso” no discurso do violeiro, até que realmente as mãos
relaxaram e trouxeram o aconchego.
Curupira, por Kiko Farkas
É especialmente interessante
encontrar na narrativa de Paulo Freire uma dimensão que falta em muita
narrativa contemporânea inspirada na cultura popular brasileira: a da sexualidade.
Ou, como bem descreve a antropóloga Betty Mindlin em sua apresentação do livro,
a safadeza. A escatologia não é escondida, cheiros, chamegos e
carícias sexuais também.
O curupira não tem ânus, mas tem um pênis tão monstruoso
que o usa tanto para bater nas árvores – verificando se estão firmes – quanto
para espancar (ou estuprar) quem derruba a mata. O diabo violeiro passa
cantando e deixando apaixonado o mulherio – que mesmo vendo seus chifres
e pés de pato, continuam suspirando de saudade suas.
Em uma viagem de barco, a Mão
de Cabelo, uma assombração que arranca o pênis dos meninos que fazem xixi na
cama, mexendo em seu “biliu”. Paulo prefere fechar os olhos e deixar o mexido
ir se desenvolvendo, para “deixar a mão trabalhar e aproveitar o veneno dessa
alma boa”. Nada mais brasileiro que isso!
Como as músicas que compõem o repertório de Nuá se relacionam com histórias de mitos e lendas coletadas em diferentes partes do país, Paulo Freire diz que procurou imprimir a cada faixa o ritmo característico da região que a originou.
O causo da Serpente Emplumada vem da Bahia e de Pernambuco, então fiz um coco. A história do capeta é oriunda do sertão de Minas Gerais, daí fiz para ela um lundu. Do Mato Grosso vem a história do lobisomem, a música ficou sendo uma guarânia. Para cada um dos mitos procurei passar, na viola, o sotaque da região da qual são originários. Fiz as músicas como se fossem trilhas sonoras das histórias, mas que, claro, pudessem ser ouvidas de forma independente, diz.
Paulo Freire foi além: ele entregou cada um dos 12 temas que compõem o álbum a um arranjador diferente. Nesse rol, figuram alguns dos principais expoentes da música instrumental brasileira, como Léa Freire, Nailor Proveta, Paulo Braga, Bocato e Toninho Ferragutti. Cada um deles toca na faixa cujo arranjo assina, dividindo espaço com outros instrumentistas do quilate de André Mehmari, Guello, Toninho Carrasqueira e Mané Silveira.
Quando mostrei as composições para os arranjadores, levei junto as histórias, dizendo que era importante ler antes de fazer o arranjo. Conversamos muito sobre a função de cada mito, o movimento que ele tem, porque ele existe ou como surgiu. Foi uma experiência muito bacana, diz, acrescentando que é amigo e há tempos convive profissionalmente com todos os convidados a participar da empreitada.
Eles ficaram entusiasmados e se envolveram muito com a tradição oral brasileira, com a mitologia, então não se tratou só de fazer arranjos para as músicas, mas abarcar as histórias, diz. Ele conta que, intuitivamente, pensou num mito específico para cada arranjador. As músicas mais sensíveis, como O Segredo das Veredas e Lagoa Encantada, entreguei para a Léa Freire. O Bocato tinha que ficar com o Curupira. A Dança dos Tangarás, que são passarinhos, caía bem para o Proveta. Para a Serpente Emplumada, que vem do Nordeste, pensei no Ferragutti. Dei essas músicas a cada um deles e deixei à vontade, inclusive para que indicassem os músicos que iam tocar na faixa e escolhessem o lugar onde ela seria gravada, destaca, acrescentando que, por esse motivo, o disco acabou sendo feito em três cidades diferentes: São Bernardo, Campinas e São Paulo.
Ele aponta que a diversidade de gêneros que Nuá percorre tem a ver com o fato de ter delegado cada música a um arranjador distinto e de eles terem concebido formações instrumentais específicas para o arranjo escrito. Fui na conversa deles. Foi um processo muito bacana o de reviver esses mitos e deixar que cada arranjador dessa sua versão, na forma de música, para o acontecido nas histórias apresentadas, diz.
Elomar Figueira de Melo, nascido no ano de 1937, na Fazenda da Boa Vista (Vitória da Conquista – BA), no longínquo sertão nordestino, é um dos mais geniais e brilhantes compositores brasileiros.
Compôs, poetizando e musicando em sua obra, a linguagem sertaneja do Nordeste Brasileiro, mostrando pela experiência pessoal e por excelência a vida sofrida de um povo que labuta constantemente numa terra seca, mas que é grato ao Criador e o louva constantemente.
Mesmo morando com sua família na zona rural, Elomar pôde frequentar o primário escolar, o ginasial e, posteriormente, o científico (nomenclaturas dadas ao ensino fundamental, médio e técnico na época). Em 1956 inicia-se no serviço do Exército e, concluído este, volta para o curso científico - que havia abandonado por ocasião da vida militar - e também o conclui. Após a sua não classificação no vestibular de Geologia em 1958, Elomar ingressa no curso de Arquitetura, no ano de 1959, na cidade de Salvador. Tendo se formado em 1964, Elomar finalmente volta para a sua terra natal, a fim de adquirir certo suporte financeiro com sua mais recente profissão, mas, principalmente decidido a escrever a sua música, compor a grandiosa obra que já gritava lá dentro de si.
No entremeio dessa trajetória de formação acadêmica há, obviamente, a formação artístico-cultural e as aulas de música de Elomar. Como instrumento central, o nosso músico sertanejo tem o violão, com o qual faz o contraponto do seu canto e o executa com belo virtuosismo. Apesar de não ter em momento algum uma formação acadêmica em Música, Elomar se enquadra na escola do Violão Erudito.
Arcabouço musical
Não falta genialidade e lirismo naquela que é uma das mais belas e instigantes obras do cancioneiro brasileiro. Ao ouvir a música de Elomar há uma sensação de viagem pelo tempo, uma espécie de teletransporte através das eras da humanidade, como nas palavras da professora Jerusa Pires Ferreira (2001): “é como se ouvisse um canto de milênios”. Com uma exatidão magnífica Elomar cria belíssimos contrapontos ao canto com o violão, elevando a sua performance a um patamar de alta complexidade, pois executa no violão uma linha melódica simultânea ao canto, ora em uníssono ora com variações, fazendo com que o instrumento extravase uma função de mero acompanhador. A Enciclopédia Itaú Cultural (2017) explica
(...) Seu instrumento central é o violão que não assume a
postura comum de simplesmente acompanhar a harmonia para o canto. Uma das
características de sua obra é o fato dele seguir a mesma linha melódica exposta
no canto ou então apresentar pequenas variações em contraponto com a voz. Deste
modo, ele realiza a difícil tarefa de ser simultaneamente solista instrumental
e intérprete. Certamente o fato de ter formação musical clássica contribui para
essa condição solista central do violão e a utilização de timbres,
encadeamentos harmônicos, frases típicas deste universo sonoro.
Em seu processo compositivo Elomar revela sua grande capacidade e excelência em mesclar o melhor de dois mundos, o popular e o erudito. Influenciado pela música erudita que ouviu no rádio quando criança, como a protofonia de O Guarani de Carlos Gomes - universo esse em que tempos depois se aprofundou e estudou dele os gêneros e formas de se fazer, como a ópera, a antífona, o prelúdio e outros – Elomar também sempre se nutriu muito do universo popular da música, como quando em sua juventude acompanhava as serestas, modinhas e mais ainda toda aquela tradição da sua terra, recheada da cantoria nordestina, do repente, dos aboios etc. E Elomar ainda guarda mais maravilhas dentro de seu embornal. É também na linguagem, ou seja, com a escrita de suas canções que Elomar cria, saúda e poetiza as belas melodias de suas cantorias, fundindo as tradições que vive no sertão com as tradições europeias e ibéricas. “Para concretizar essa fusão ele opera evidente transformação na linguagem. Ela se apresenta recheada de arcaísmos, como o latim, com variantes dialetais e neologismos, criando assim um dialeto muito próprio fundado na oralidade sertaneja” (Enciclopédia Itaú Cultural).
Elomar Figueira Mello tem discos 17 discos lançados. Alguns desses discos gravados com a colaboração de outros artistas como Xangai, Vital Faria, Heraldo do Monte, Paulo Moura, Arthur Moreira Lima, Jacques Morelenbaum, Geraldo Azevedo e Dércio Marques.
Discografia
(2016)
O menestrel e o sertãomundo (c/ Orquestra Sinfônica Nacional da UFF) – CD (1995)
Cantoria 3 - Elomar -Canto e solo • CD (1992)
Árias sertânicas • Rio do Gavião • LP (1989)
Elomar em concerto • Kuarup • LP (1988)
Concerto Sertanez • LP (1986)
Dos confins do sertão • Trikont • LP (1985)
Sertania • Kuarup • LP (1984)
Cantoria I • Kuarup • LP (1984)
Cantoria 2 • Kuarup • LP (1983)
Cartas Catingueiras • Gravadora e Editora Rio do Gavião • LP (1983)
Auto da catingueira • Gravadora e Editora Rio do Gavião • LP (1982)
ConSertão. Um passeio musical pelo Brasil • Kuarup • LP (1981)
Fantasia leiga para um rio seco • Rio do Gavião • LP (1979)
Parcela malunga • Marcus Pereira • LP (1979)
Na quadrada das águas perdidas • Marcus Pereira • LP (1972)
Das barrancas do Rio Gavião • Phillips • LP (1968)
O Violeiro/Canções da catingueira • Compacto simples
Referências
ELOMAR
. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú
Cultural, 2018. Disponível
em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa560680/elomar
>. Acesso em: 04 de Out. 2018. Verbete da Enciclopédia. ISBN:
978-85-7979-060-7.
Neste quarto e último programa da
série, a jornalista e pesquisadora Carolina Andrade comenta a produção do
Música Popular Sul, suas gravações em campo ao lado de seu irmão Cesário e os
relatos em torno da versão de Boi Barroso com Elis Regina e arranjo de Rogério
Duprat
Ainda neste programa as músicas de Beto Ruschel e
do grupo Os Tápes e os depoimentos dos filhos de Marcus Pereira, Celina Andrade
Pereira, Luciana Pereira e João Paulo Andrade Pereira sobre a obra e as
memórias do pai.
Neste
terceiro programa da série viajamos pelas regiões centro-oeste e sudeste, a
segunda coleção de música popular lançada pela Discos Marcus Pereira com
material de pesquisa recolhido por Paulo Vanzolini, Martinho da Vila, Dércio
Marques, Oneyda Alvarenga e Fernando Brant. Assinam como produtores Théo de
Barros e Pelão (João Carlos Botezelli).
Participam com exclusividade para esse episódio da
série o compositor Renato Teixeira em depoimento sobre
sua amizade com Marcus Pereira e Leci Brandão, contando com
se deu o convite para lançar seu primeiro disco pela gravadora.