quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Da violência ao axé: a verdadeira história da Lavagem do Bonfim

 

A imagem que hoje corre o mundo é de paz, cor e sincretismo: mulheres vestidas de branco, baldes de água de cheiro, flores, cânticos e o perfume da alfazema escorrendo pelas escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador. A Lavagem do Bonfim é celebrada como símbolo da religiosidade baiana, da convivência entre catolicismo e candomblé, da alegria como expressão da fé. Mas por trás dessa cena consagrada existe uma história menos conhecida — marcada por violência, segregação racial, escravidão e resistência cultural.

A origem da devoção ao Senhor do Bonfim remonta ao século XVIII e começa com um homem que, embora hoje associado à fé, estava profundamente ligado à engrenagem do tráfico de pessoas escravizadas. Teodósio Rodrigues de Faria, oficial da Marinha portuguesa e traficante de escravos, teria escapado de um naufrágio em alto-mar e feito uma promessa: se sobrevivesse, levaria para Salvador uma imagem do Senhor do Bonfim, devoção já popular em Setúbal, Portugal.

Teodósio cumpriu a promessa em 1745. A imagem chegou à Bahia e, pouco depois, iniciou-se a construção do templo no alto da Colina Sagrada, na península de Itapagipe. A igreja foi erguida com trabalho majoritariamente escravizado — mãos negras que cortaram pedra, levantaram paredes, carregaram madeira e moldaram um dos principais símbolos do catolicismo baiano. O mesmo chão que hoje recebe flores e água perfumada foi, um dia, pisado por corpos acorrentados.

Ironia da história: o homem cuja fé deu origem ao templo — e cujo túmulo até hoje está dentro da igreja — construiu sua fortuna traficando seres humanos. A devoção que se tornaria símbolo de mistura religiosa nasceu, portanto, dentro da lógica colonial que explorava, catequizava e silenciava.

Com o passar do tempo, os escravizados não apenas construíram o espaço físico da igreja, como também passaram a se apropriar dele espiritualmente. Para além da liturgia católica oficial, eles levaram para dentro do templo seus próprios ritos, saberes e tradições. No Senhor do Bonfim, muitos reconheceram Oxalá, o orixá da criação, da paz, da ancestralidade e do branco — aquele que veste o mundo de calma e equilíbrio.

O ritual das águas, central nas cerimônias dedicadas a Oxalá, passou a ser praticado dentro da igreja. A lavagem simbólica do chão não era apenas limpeza: era oferenda, era reza, era memória africana sobrevivendo em território hostil. Durante anos, essa prática coexistiu de forma tolerada — ou ignorada — pelas autoridades eclesiásticas. Até que deixou de ser.

Quando a Igreja Católica percebeu que o espaço sagrado estava sendo usado para rituais que escapavam ao controle doutrinário europeu, veio a interdição. Os mesmos corpos que haviam erguido o templo foram proibidos de exercer ali sua fé. A água de Oxalá, antes derramada no interior da igreja, foi vetada. O chão que aceitara o suor do trabalho escravizado não podia mais receber sua espiritualidade. A exclusão não foi apenas religiosa: foi racial, cultural e simbólica. Aos negros, restava assistir de fora. Literalmente.

Foi então que ocorreu o grande ponto de virada da história — o verdadeiro plot twist que transformaria violência em festa, exclusão em celebração pública. Se não podiam lavar o interior do templo, lavariam o que estava do lado de fora. As escadarias.

Nascia ali, não por concessão, mas por resistência, a Lavagem do Bonfim como é conhecida hoje. O gesto era simples e profundamente político: levar para a frente da igreja aquilo que lhes fora negado dentro. A água, o branco, os cânticos, o axé — tudo permanecia, agora exposto à rua, ao povo, à cidade inteira. A festa ganhou cores de Oxalá, sons de atabaque, cheiros de ervas sagradas. Tornou-se pública, coletiva e impossível de silenciar. Aquilo que a Igreja tentou conter, a fé popular expandiu.

Ao longo dos séculos XIX e XX, a Lavagem do Bonfim cresceu, foi incorporada ao calendário oficial da cidade e, não sem conflitos, passou a ser tolerada — depois celebrada — pelo poder público e pela própria Igreja. Ainda assim, as tensões nunca desapareceram completamente. Em diversos períodos, padres tentaram proibir a entrada das baianas no templo, fechar portas, conter excessos. Em resposta, a festa sempre se reinventou, mantendo seu caráter híbrido e popular.

Hoje, a Lavagem do Bonfim é considerada uma das maiores manifestações religiosas do Brasil. Reúne milhares de pessoas, mistura fé, cultura, turismo e política. É palco de promessas, protestos silenciosos, pedidos de justiça, agradecimentos e memórias ancestrais. Políticos disputam espaço, artistas acompanham o cortejo, e o mundo fotografa o espetáculo.

Mas compreender a Lavagem apenas como festa é apagar sua origem mais profunda. Ela não nasceu do consenso, mas do conflito. Não foi criada pela instituição, mas pela exclusão. É filha direta da segregação racial e da tentativa de apagar práticas africanas — e, justamente por isso, tornou-se um dos mais poderosos símbolos de permanência da cultura negra no Brasil.

Quando as baianas jogam água nas escadarias, não estão apenas limpando pedra. Estão lavando a história. Estão lembrando que aquele espaço foi erguido por mãos escravizadas, que a fé negra foi expulsa para fora e que, ainda assim, resistiu. Cada balde derramado é um gesto de memória contra o esquecimento.

No alto da colina, dentro da igreja, repousa o túmulo de Teodósio Rodrigues de Faria — o traficante que prometeu, construiu e morreu. Do lado de fora, a vida pulsa em branco, dança, canta e transforma dor em axé. É ali, nas escadarias, que a história brasileira se revela com mais verdade: marcada pela violência, mas também pela capacidade extraordinária de reinventar a fé como forma de sobrevivência.

A Lavagem do Bonfim não é apenas uma festa. É um testemunho. Um rito nascido da proibição. Um altar erguido fora dos muros. E talvez por isso mesmo seja tão poderosa: porque lembra, todos os anos, que quando a fé é expulsa, ela não desaparece — ela ocupa a rua e vira povo.


Texto extraído de: https://revistaforum.com.br/brasil/da-violencia-ao-axe-a-verdadeira-historia-da-lavagem-do-bonfim/
Fonte Imagem: https://revistaforum.com.br/brasil/da-violencia-ao-axe-a-verdadeira-historia-da-lavagem-do-bonfim/

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Monteiro Lobato e seis personagens em busca da nação

 

Neste livro, Elisângela da Silva Santos investiga qual seria o "pro­jeto" de nação – compreendida como projeto político social – na obra destinada ao público infantil de Monteiro Lobato, conhecida também como uma literatura pedagógica. A autora acredita na pos­sibilidade de Lobato ser visto como integrante da galeria de nossos pensadores sociais, pois em seu gênero literário infantil ressoa uma visão de país, um diagnóstico e um projeto de futuro para o Brasil. Nesse sentido, a autora discute a possibilidade de tomar a litera­tura lobatiana como elemento de compreensão da realidade social brasileira dos anos 1920 e 1930. Assim, Elisângela Santos procura ver na obra de Lobato uma crítica à sociedade em que vivia o escritor que, além de estar preocupado com questões estéticas e linguísticas de seu tempo, sempre formulou críticas à nossa "parasitia intelectual", aos intelectuais e à elite que, segundo ele, assistia de braços cruza­dos aos diversos problemas de ordem social política e econômica, sem propor alternativas de mudanças.

Para download: Livro Monteiro Lobato e seis personagens em busca da nação


Monteiro Lobato - Um estudo de A chave do tamanho

 

Neste livro, Thiago Alves Valente faz um percurso panorâmico e histórico da fortuna crítica de A chave do tamanho, de Monteiro Lobato, configurando um quadro por cujas lacunas pretende caminhar. Ao organizar os vários estudos críticos por eixos temáticos (ideologia, pensamento filosófico, cientificismo, questões estéticas), o autor constata que há a “necessidade de empreender uma análise textual em que os elementos estruturais da narrativa possam ser compreendidos sem sua funcionalidade na construção da obra”. Com esse intuito, Valente realiza um confronto entre as modificações feitas por Monteiro Lobato nas várias edições do livro para, em seguida, apresentar com rara originalidade sua crítica desse texto lobatiano, comprovando, por meio de elementos que estruturam a narrativa, de que modo os temas centrais da obra de Lobato estão articulados na criação literária.

 Para download: Livro Monteiro Lobato - Um estudo de A chave do tamanho



🎧 TRAMAS MUSICAIS: Álbum Djavan Ao Vivo (1999)