domingo, 26 de julho de 2020

Gracias, Mercedes, "que nos ha dado tanto"

Por Paulo Vinícius

Duas das figuras que mais contribuíram para que eu me tornasse um internacionalista e pudesse me encontrar com a América Latina foram Mercedes Sosa e Pablo Neruda. Este pela prosa poética vertida em Confesso que Vivi, e aquela, "la negra", por tudo de arrebatador e pungente que há em seu repertório irretocável.




Como se hoje fora, recordo da saudade que senti de Neruda – estranha nostalgia de quem não se conheceu, lastreada em poesia. Tal sentimento se intensificou ao ouvir na voz de Mercedes Sosa os zambas, chacareras, os versos de justiça e amor, voando pelo espaço aninhados naquela voz vibrante, forte, inconfundível.
Foi assim, exposto a esta dupla influência que me vi repentinamente órfão da América Latina, lastimando-me por não a ter conhecido antes, inconformado e intrigado ante o paradoxo em que a proximidade geográfica não se faz amizade, conhecimento mútuo, identidade. E desde então isso mudou a maneira como me situava no mundo. Descobrira-me, malgrado tanto lixo que se nos empurra, enfim, latino-americano.
E o que Mercedes Sosa cantou me ensinou tanto! Meu portunhol bem ajambrado foi aprendido com ela, cantando e entendendo a rebeldia e o amor, a ânsia por justiça e a grandiosidade com que aquela tucumana afirmava nossa origem comum, nossa irmandade de história, povo e sonhos.
Ela dizia a simplesmente e dura realidade, que "a esta hora exatamente há uma criança na rua". Reinventou a geografia ao afirmar que "um verde Brasil beija meu Chile de cobre e mineral". Lembrou-nos em meio a tantas vicissitudes que "tudo muda e mudarmos não é estranho" ainda que "não mude meu amor por mais distante que eu esteja, nem a lembrança nem a dor do meu povo, da minha gente". Ademais, com os versos de Atahualpa Yupanqui, definiu para mim a amizade, ao mostrar-nos que temos "tantos irmãos que nem os podemos contar/, no bairro, na montanha/, no pampa e no mar/ cada qual com seu trabalho, com seus sonhos cada qual/ com a esperança adiante e as recordações lá de trás", "tenho tantos irmãos que nem os posso contar e uma irmã muito linda que se chama liberdade".
Versos assim se cravam no peito se os canta como ela cantava, ao clamar às massas empobrecidas, "irmão, dá-me a mão, venha comigo buscar esta coisa pequenina que se chama liberdade. Esta é a hora primeira e este é o justo lugar, em que com tua mão e a minha, irmão, havemos de começar. Olha adiante irmão, tua terra que te espera, sem distâncias nem fronteiras que a afastem de tua mão, sem distâncias nem fronteiras, nesta hora primeira em que o punho americano marque o rosto dos tiranos e a dor enfim vá embora".
Por tudo isto, quando ela veio a Brasília em 2008, senti que enfim chegava a oportunidade – que até desacreditava – de ouvi-la ao vivo, oportunidade que provavelmente fosse a última. E foi como um reencontro, essa sintonia tão estranha de fã, quando a ouvi erguer-se por cima da evidente fragilidade física pelas palavras de carinho e a voz inacreditável que venceu o tempo. E do meu lugar no Centro de Convenções Ulisses Guimarães, depois de ir ao Chile, Cuba, Paraguai, Bolívia, Nicarágua e Venezuela, depois de ver os ventos de mudanças tão ansiados em seus versos se fazerem realidade, pude ouvi-la frente a frente, a dizer tão bem do Brasil, de nosso povo, cantando nossa música, aquela irmã argentina a declarar um amor tão sincero ao nosso país. Não foi em vão.
E agora que ela partiu, em paz consigo e com seus sonhos de uma intimorata e bela América Latina, não posso pranteá-la, apenas. Tenho na verdade é de lhes sugerir o único tributo verdadeiro para uma pessoa que dizia que "se cala o cantor, cala-se a vida, porque a vida, a vida mesma é toda um canto". Não podemos é permitir-nos não ouvi-la, pois assim permanece viva, tão necessária que é a iluminar os caminhos singulares em que a arte nos faz entender com uma profundidade total esta irmandade latino-americana, este amor aos oprimidos e o ódio às injustiças.
Conheçam Mercedes Sosa e partilhem do legado caudaloso de sua obra, das lições e do prazer de ouvi-la cantar, da poesia tão bem escolhida por uma intérprete que sabia o que dizer à mente e ao coração, uma irmã tucumana, argentina, latino-americana que, como a vida, pôde nos dar tanto.


Fonte: https://vermelho.org.br/coluna/gracias-mercedes-que-nos-ha-dado-tanto/
Fonte da Figura: https://www.youtube.com/watch?v=f59-ecN2FYg



domingo, 19 de julho de 2020

O canto latino-americano do Tarancón - Discografia



Pioneiro em mesclar música popular brasileira com a latino-americana, o Grupo Tarancón iniciou sua trajetória no inicio da década de 1970 e até hoje mantém seu principal meio de comunicação: O “boca a boca”.


Mesclar os sons de Violeta Parra e Chico César, de Atahualpa Yupanqui e Marlui Miranda, misturar chacareras argentinas, xotes, baião, bailecitos bolivianos, guarânias e huaynos peruanos, guajiras centro-americanas, rumbas, afoxés, são a marca do Tarancón junto com seu instrumental.


O grupo é composto de artistas de vários países da América Latina. Fundada na década de 1970, participou de alguns festivais. Sua música é influenciada por ritmos brasileiros, andinos,caribenhos e africanos.

O nome do grupo, Tarancón, era também o nome de uma mina de carvão na Astúrias, Espanha, que desabou, ocasionando a morte de onze trabalhadores (história contada na canção “En la mina el tarancón”).


Unindo instrumentos originados dos Andes como a quena (flauta de cana ou osso), a zampoña ou sicus (similar à flauta de pan), a tarka (flauta ortoédrica de madeira de uma só peça com seis furos, também conhecida como “anata” no norte da Argentina), o bombo leguero (bumbo de couro de ovelha ou guanaco), o charango (instrumento cordófono de 10 cordas ou mais feito com carapaça de tatu (chamado de “Quirquincho”) ou de madeira), ao violão e baixo acústico, o grupo fez uma síntese entre os sons do folclore e do cancioneiro latino-americano. Era acompanhado durante o show por Felix, pintor e irmão de Emílio de Angeles Nieto, que pintava as suas obras em telas de grandes dimensões (3,00 x 2,00 metros) no mesmo estilo retratado na capa do primeiro LP do grupo.


Os primeiros ensaios do Tarancón aconteceram no ano de 1972, e o primeiro disco foi gravado em 1976, chamado Gracias a la vida.


Faziam parte da primeira formação os músicos Miriam Miráh, Emílio de Angeles Nieto, Marli Pedrassa, Alice Lumi, Halter Maia, Jica Nascimento e Juan Falú. A partir do terceiro disco Sérgio Turcão entra substituindo Juan Falú. Da década de setenta até hoje, várias formações se sucederam.
Atualmente, o grupo é formado por Emilio de Angeles (flautas andinas, percussão e voz), Jorge Miranda (baixo, charango e voz), Ademar Farinha (flautas andinas, viola, charango e voz). Moreno Overá (viola, violão, baixo e voz), Lúcia Nobre (zamponha, percussão e voz), Jonathan Andreoli (Bombo leguero, bongô, caixa, cajón) e Natália Gularte (cajón, surdo, e efeitos percussivos).


Executavam canções de autores como os chilenos Violeta Parra e Victor Jara, os cubanos Pablo Milanés e Silvio Rodrigues, o argentino Atahualpa Yupanqui e os brasileiros Milton Nascimentoe Geraldo Vandré.

O Tarancón dividiu espetáculos com Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Chico Buarque, Almir Sater, MPB 4, Angel Parra, Marlui Miranda, Raíces de America e outros.


Um dos momentos de destaque em sua carreira foi a participação do Festival dos Festivais da Rede Globo em 1985 com a canção “Mira Ira”, de Lula Barbosa e Vanderlei de Castro e defendida em conjunto com Lula, Miriam Miráh e Placa Luminosa – que venceu os prêmios de melhor arranjo e segundo lugar geral. Representaram a América Latina no Festival de Asilah no Marrocos em 1987.


INTERNET

Apesar do “sumiço” nas mídias “tradicionais”, os grupos foram redescobertos graças a dois fenômenos. “Há um público mais novo que nos acompanha, um segmento que gosta de trabalhos diferenciados, e os que vão para matar saudades e levam os filhos. O que também deu algum impulso foram as redes sociais e o Youtube”, comemora Míriam. Emilio de Angeles, do Tarancón, brinca. “Antes, (a plateia) era, digamos, mais estudantil, mas mudou muito. Hoje há uma meninada. É a quinta geração”. 



Discografia: Download

Gracias a La Vida (1976)
Lo único que Tengo (1978)
Rever Minha Terra (1979)
Bom Dia (1981)
Ao vivo (1982)
Amazona Vingadora (1985)
Terra Canabis (1986)
Mama Hue (1988)
Vuelvo para Vivir (1997)



Fonte:
http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/dialogos-musicais-grupo-tarancon/01022014/
https://quadradadoscanturis.blogspot.com.br/2015/08/tarancon-discografia.html
http://hojeemdia.com.br/almanaque/criado-em-1970-taranc%C3%B3n-se-re%C3%BAne-ao-ra%C3%ADces-de-am%C3%A9rica-1.247667
http://df.divirtasemais.com.br/app/noticia/programe-se/2014/04/11/noticia_programese,148553/praca-sera-palco-de-shows-de-grandes-nomes-da-musica-de-resistencia-a-ditadura.shtml
http://tarancon.com.br/

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Congada do Serro de Minas ganha livro para se manter viva durante a pandemia

Texto extraído de:
https://www.pressenza.com/pt-pt/2020/07/congada-do-serro-de-minas-ganha-livro-para-se-manter-viva-durante-a-pandemia/

Crédito da Imagem: Tiago Geisler)


No momento em que o debate sobre o racismo, a intolerância e a ameaça do fascismo dão a tônica das manifestações populares em todo mundo, no Serro, cidadezinha do interior de Minas Gerais, o povo se ressente de não poder se juntar para celebrar a união – de brancos, negros e índios – em torno do rosário de Maria.

A festa do Rosário se tornou a manifestação cultural mais forte no Vale do Jequitinhonha, no interior mineiro e é uma página viva da história da formação do povo brasileiro.

Conta a lenda, que a Virgem do Rosário apareceu sobre as águas, e que os caboclos e os marujos cantaram em seu louvor e pediram para que ela viesse até eles. No entanto não foram atendidos. Mas, quando os negros foram até a praia  dançaram e rezaram, conseguiram que ela viesse até eles. Desde então, de acordo com a crença, a Santa passou a ser a protetora do povo negro.

A partir daí, todos os anos, entre os meses de junho e julho, a negrada, a caboclada e a marujada se juntam em festa para celebrar o Rosário de Maria.

Organizada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, é na congada, composta exclusivamente por homens, que se dividem em quatro grupos,  com seus elementos, para fazer a leitura de cada povo sobre sua fé. Todas as representações são carregadas de simbolismos, como a caixa de assovios, pífaros e caixas de couro, representando os gemidos dos negros.  A marujada  com as cores azul e branco e os instrumentos harmônicos, como violões, violas e banjos representando os portugueses.

Já os caboclos com seus saiotes de penas, pulseiras, fitas e arco e flechas inserem o elemento indígena na manifestação. E, há também os catopês, os homens negros e pobres com suas roupas de chita multicor e que tocam o reco-reco, tamborins e caixas de de couro.

É uma história de união, através da fé, que mais parece uma grande utopia, mas que é real e que há 181 anos, encanta moradores, peregrinos e visitantes da região. Os congadeiros são pessoas simples, como motoristas, serventes, agricultores, pedreiros, babás – essa gente, de um Brasil profundo, que merece e precisa ser reconhecida.

E foi mergulhando nesse universo, que a pesquisadora, ativista cultural e cantora, Daniela Passos, construiu o livro “Contas e Cantos do Rosário”. A publicação, ainda não lançada, reúne histórias e símbolos da festa, mas, fundamentalmente, memórias e afetos desse importante encontro social das pessoas da região do Serro.


Esse ano, em decorrência da pandemia da Covi-19, não haverá festa. Os cânticos e danças  dos congadeiros, no entanto, não ficarão em silêncio, pois, o livro é uma forma de dar eco à manifestação e manter a chama acesa para que tudo volte a ser como era, quando o perigo passar.

Daniela Passos é carioca e mora há sete anos no Vale do Jequitinhonha, próximo das nascentes da cidade do Serro – “o que me trouxe para o sertão mineiro foi justamente a Festa do Rosário, uma paixão arrebatadora e à primeira vista”.

Para manter viva a cultura e a tradição da festa, a autora decidiu publicar o material, justamente nesse momento tão importante e tão difícil para os congadeiros do Serro e, para isso criou uma campanha para arrecadar os recursos necessários para  a publicação. Os recursos serão usados para os custos de impressão do material e outra parte será revertida para os Congadeiros do Serro.

Quem quiser participar e adquirir o material pode contribuir até o dia 15 de agosto de 2020. Todas as informações sobre como participar podem ser acessadas nessa página ou no instagram.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

Clube da Esquina - O Movimento (MG)


por Ivan Vilela

No início dos anos 60, em Belo Horizonte (MG), jovens músicos começam a se encontrar na cena musical da capital mineira. Eles produziam um som que fundia as inovações trazidas pela Bossa Nova a elementos do jazz, dorock’n’roll – principalmente The Beatles –, de música folclórica dos negros mineiros e alguns recursos de música erudita e música hispânica. Nos anos 70, esses artistas tornaram-se referência de qualidade na MPB pelo alto nível de performance e disseminaram suas inovações e influência a diversos cantos do país e do mundo. E é sobre esses músicos, sobre o Clube da Esquina, que falo agora.

Inicialmente representado por Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Márcio Borges, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga, a turma mineira foi agregando uma constelação de instrumentistas e compositores. Ainda que juntos tenham apresentado uma nova perspectiva musical, o Clube da Esquina não foi visto pela mídia e pelos estudiosos como um movimento. Mas, sem sobra de dúvida, se constituiu apropriando-se de um alicerce oferecido por diversos movimentos musicais e culturais pregressos.




Heranças dos anos 50

Os anos 50 e 60 do século 20 foram marcados por profundas modificações de ordem econômica, política e, conseqüentemente, social em todo o mundo. O movimento da Contracultura iniciado pelos Beatniks nos EUA e o existencialismo francês propiciaram mudanças no meio da juventude do Ocidente e as manifestações culturais refletiam esses novos tempos, em especial a música.

Em 1958, a Bossa Nova surge como uma nova alternativa estética à música popular brasileira. Ela propõe um novo uso melódico das tensões harmônicas e uma abordagem orquestral mais enxuta, tendo o violão – junto à voz – novamente como o centro da cena. E resgatando também os aspectos rítmicos do samba, que desde o samba orquestral dos anos 50 haviam se diluído.

No que toca à questão literária, a Bossa Nova realiza uma mudança de ordem estética. Os poemas das canções, sobretudo no tema amor, tratam das situações de maneira mais feliz e coloquial, menos parnasiana, resgatando a naturalidade contida outrora em Noel Rosa.


Eclodem os anos 60

A partir dos anos 60, começam a chegar ao Brasil a música e a arte pop, representadas sonoramente pelo rock’n’roll. Rapidamente, essa nova música, que estava ligada a uma mudança de comportamento social dos jovens, ganha adeptos no Brasil. Seus seguidores são identificados a partir do movimento da Jovem Guarda.

Agora, uma guitarra aliada a recursos eletrônicos de distorção sonora é que se faz presente. Poeticamente, tratavam de valores buscados pela juventude: a beleza, a ascensão social por meio da aquisição de um automóvel, uma postura “sem compromissos” diante das responsabilidades que se lhes apresentava, enfim, queriam romper com tabus que havia muito norteavam a conduta da juventude, principalmente a sexualidade.


Música de Protesto

Na mesma época, o Brasil era assolado por um golpe militar de direita contra o qual toda a intelectualidade ligada à esquerda se mobilizou. No campo artístico, passa a ser produzida uma música que protesta ante a situação que se configura. Essa música, na produção de alguns de seus principais compositores, começa a trazer a musicalidade de um Brasil mais ligado ao interior, ao camponês e às camadas sociais menos favorecidas. É a música ligada aos Centro Populares de Cultura (CPC). Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Carlos Lira, Marcos Valle, Sidney Miller e Sérgio Ricardo são compositores que se destacam nesse momento.

A juventude intelectualizada do Brasil olha com desprezo para a música produzida pela outra juventude, mais operária, mais suburbana. Nessa época, convivem no cenário musical a música da Jovem Guarda, da Bossa Nova, a Canção de Protesto.

Havia também alternativas mais sofisticadas que fundiam recursos bossa-novistas com temáticas interioranas, partindo assim para uma estilização de ritmos populares, como o baião – Edu Lobo é um exemplo dessa vertente. Aos poucos, a música popular brasileira ia manifestando a sua ubiqüidade.


Alegria, paródia e deboche

Em 1967, surge um movimento de artistas baianos e paulistas intitulado Tropicália, que visava, por meio de alegoria, paródia e deboche, a promover uma autocrítica que implodisse a já assim chamada MPB como um campo consolidado em sua “linha evolutiva”. Esse movimento, de bases intelectuais sólidas, propõe uma nova visita à Jovem Guarda autenticando alguns de seus elementos. Funde o som das guitarras distorcidas ao som orquestral, resgatando a musicalidade contida nos recônditos do Brasil. Propõe uma nova estética literária, mais ligada ao concretismo e não tão próxima de uma abordagem política explícita. Passam a utilizar o ruído (música concreta) como recurso sonoro.

A Tropicália abriu caminho para diversas tendências presentes na música brasileira ocuparem o seu lugar, de modo que tudo passou a fazer parte do novo conceito de MPB.

E, dentro da imensa diversidade sonora produzida até então, o Clube da Esquina reposicionou o espaço da MPB, certificando com qualidade a incorporação dos diversos elementos propostos pela Tropicália e outros movimentos.


Milton Nascimento

Em 1967, Milton Nascimento classificou três músicas – duas próprias e uma com letra de Fernando Brant – para a final do II Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. Milton é premiado como melhor intérprete e ganha o segundo lugar com “Travessia”. A partir daí, a carreira de Milton é impulsionada.

Ainda em 1967, ele grava seu primeiro disco, “Travessia”. Em 1968, é convidado a gravar o disco “Courage” nos EUA. O convite revelou o imenso potencial de aceitação de sua música nos EUA. Em 1969, grava no Brasil o disco “Milton Nascimento”. A cada novo disco, Milton se supera como intérprete, como compositor e como instrumentista.


Um novo caminho para a MPB

Em seus três primeiros discos, Milton se apóia na experiência de grandes músicos como Luiz Eça e Dori Caymmi. Isso, por um lado, dá sustentação a seu trabalho e, por outro, faz com que ele mantenha uma sonoridade mais próxima da já existente, reservada aos grandes compositores e intérpretes da MPB.

Não obstante toda a musicalidade dos jovens do Clube, era visível que a sofisticação e os recursos dos elementos sonoros trazidos pela Bossa Nova permaneciam como referência de qualidade da MPB no exterior.
  
Porém, é em seu disco “Milton”, de 1970, que Milton e os rapazes do Clube da Esquina passam a trilhar um caminho sonoro totalmente próprio, autêntico e mais independente do passado da música brasileira. Esse disco tem como banda de apoio o Som Imaginário, mais Lô Borges e Naná Vasconcelos. Nele, o Clube se faz mais presente nas composições dos irmãos Lô e Márcio Borges e da sonoridade que funde recursos diversos existentes na MPB – como guitarras distorcidas – e inovações – como o uso determinante da percussão na música “Pai Grande”.

A percussão não faz mais o papel de acompanhante rítmico: agora é a de criadora de um evento que corre concomitantemente à voz e ao violão e com um volume maior que o usual das gravações.


O disco Clube da Esquina

A consolidação de uma linguagem própria se firma com o lançamento, em 1972, do disco “Clube da Esquina”, assinado por Milton Nascimento e Lô Borges. Esse álbum duplo traz a participação maciça de todos os membros do grupo de amigos músicos conhecido internamente como Clube da Esquina.


 A sonoridade obtida, o alto padrão de elaboração e a originalidade das composições e arranjos fizeram deste um dos discos antológicos da MPB. A música do Clube da Esquina trouxe diversos elementos novos à MPB, que, com o passar do tempo, se tornaram matéria de uso comum.

Diferentemente da Jovem Guarda e da Bossa Nova, mantiveram uma temática política presente, mas de forma subjetiva. O disco “Milagre dos Peixes” teve que ser feito, em grande parte, à base de vocalises, devido à censura de várias das letras.

As letras das canções em geral revelam uma inclinação a construções mais abstratas, imagens ou metáforas que talvez sejam mais soltas de uma tradição poética da canção brasileira que as costumeiras da época, e mesmo depois. Pouco se encontra da estrutura de romance ou de narrativas, histórias ou situações das quais se pode tirar alguma moral ou mensagem. Acerca disso, há uma interessante afirmação que sintetiza um pensamento literário, no caso de Márcio Borges, mas que em alguma medida pode ser estendido a outros poetas do grupo em suas letras: “Pelo menos não viessem me falar de mensagens... ‘qual é a mensagem dessa letra?’ Como se um poema pudesse funcionar como cabograma ou sinal de fumaça”.


Uma nova perspectiva musical

Milton inaugura uma nova forma de utilização do violão: como um instrumento ao mesmo tempo harmônico e percussivo. No samba e na bossa nova temos um violão batido dentro de um esquema rítmico. Na Tropicália e Jovem Guarda, a utilização do instrumento é feita de forma rasgueada (ou rasgada ou rasqueada é tocar violão passando os dedos ou a palheta pelas cordas correndo, de cima para baixo ou vice-versa, fazendo as cordas soarem; é uma forma não dedilhada de tocar violão), porém ainda respeitando um sistema rítmico predominante. Em Milton, poderíamos dizer que o violão passa a ser um instrumento arrítmico e de cordas percussivas.

Toda a base da música brasileira foi construída dentro de padrões rítmicos binários, ternários e quaternários. Milton desenvolve músicas em compassos quinários (em cinco tempos), além de trabalhar com compassos híbridos (pulsações diferentes numa mesma música). E também a execução de um samba, originalmente binário, em ritmo ternário.

Constroem a ponte com a música de nossos irmãos americanos de língua espanhola. Acabam por resgatar uma África que não veio pela via do samba e nem do candomblé. Trazem uma África mineira, irmã dos congados, moçambiques e caiapós e tambus.


 A percussão passa a ter um papel de solista concorrente ao melopoema (o resultado da melodia e letra, a canção). É um evento que acontece à parte do resto sem, no entanto, deixar de compor o todo. São os primeiros a colocar, em algumas canções, a percussão com um volume maior que a própria voz.

A voz, no Clube da Esquina, deixa de ser apenas o elemento que canta os melopoemas e passa a ser um instrumento que canta sem letra, que produz sons pouco usuais. O falsete, por exemplo, longe de ser um último recurso, torna-se alternativa tímbrica.

Conseguem também fazer a fusão do regional com o pop amalgamando os gêneros e estilos. Ouvindo não conseguimos localizar onde começa um e termina o outro. Esse procedimento passa, tempos depois, a ser usual em um segmento chamado World Music.

Criam uma sonoridade orquestral própria que diferia da forma como a Bossa Nova utilizava a orquestra, mais como uma moldura sonora, e da forma como a Tropicália também a utilizou, de forma mais narrativa. No Clube da Esquina temos uma orquestração de caráter mais impressionista, criadora de ambiências sonoras, e que às vezes corre à parte do evento musical que se apresenta.

No disco “Clube da Esquina”, vemos a proposta inusitada de dividir o panorama de escuta do som estereofônico de forma não eqüitativamente balanceada.

Poderíamos pensar no desenvolvimento da harmonia de música popular (progressões harmônicas, dissonâncias etc.) ao longo dos tempos por um caminho que vem de Mussorgsky, Debussy, música de cinema, big bands, simultaneamente, música brasileira e música estadunidense do pós-guerra e Bossa Nova.

Se analisarmos a obra do Clube da Esquina, veremos que, além da incorporação de toda a contribuição trazida pelo desenvolvimento acima exposto, foi criada pelo Clube uma maneira muito própria de harmonizar, visível a partir do disco “Clube de Esquina”. Não é à toa que o violão de Toninho Horta se tornou referência e as harmonias de Milton são as mais surpreendentes.

A sonoridade resultante do encontro desses músicos se tornou uma das principais marcas que acompanhou a música feita pelo pessoal do Clube da Esquina. Uma música em que os instrumentos, combinados, constróem mais do que um simples acompanhamento da canção. Constróem, sim, uma ambiência da qual a canção passa a fazer parte junto de eventos sonoros distintos que acontecem ao mesmo tempo. Como exemplo, vale passar os olhos nos comentários feitos acerca do disco Clube da Esquina.

A influência da música do Clube da Esquina se espalhou por diversos lugares e tendências. Um dia, em conversa informal com Ivan Lins, sugeri que a música de Gonzaguinha continha elementos melódicos presentes na música de Milton, ao que ele me respondeu que não só a de Gonzaguinha, mas a dele também, e frisou: “Milton e Jobim, aprendi muito tocando músicas desses dois”. A influência de Milton e de Toninho Horta, na maneira de compor e tocar a guitarra, é notória na música de Pat Metheny. A própria aproximação de Egberto Gismonti e de Wayne Shorter, que gravaram músicas de Milton, da obra deste, denota a força do trabalho dos mineiros.


Galeria


















Fonte:
http://www.museudapessoa.net/clube/o_movimento.htm

Fonte Imagem:
http://www.overmundo.com.br/overblog/clube-da-esquina-35-anos-depois
http://imagesvisions.blogspot.com.br/2012/06/o-clube-da-esquina-e-o-jipe-manuel.html
www.audiofagia.com.br
http://www.museudapessoa.net/clube/o_museu.htm
http://soulart.org/musica/o-fino-da-mpb-clube-da-esquina-1972/
http://www.azoofa.com.br/blog/resenhas/musica-que-nao-sai-de-moda
http://musicasbrasileiras.wordpress.com/2010/05/27/nos-bailes-da-vida-milton-nascimento/
http://caminhosdovaledoparaiba.blogspot.com.br/2011/05/amigo-e-coisapra-se-guardar.html
http://canguleiro2.blogspot.com.br/2012/03/14-bis-espelho-das-aguas-1981.html
http://www.1000recordings.com/music/lo-borges/
http://discologiaacervo.blogspot.com.br/2011/09/em-1979-beto-lanca-o-terceiro-album.html
http://andrefidusi.com/tag/musica/
http://musicararafacil.blogspot.com.br/2006/05/tavinho-moura-como-vai-minha-aldeia.html
http://www.carlosnoboro.com/nonakedmusic/2011/10/11/beto-guedes-a-pagina-do-relampago-eletrico.html
http://www.youtube.com/watch?v=VUYcS2YsfbM
http://www.dustygroove.com/item.php?id=qgbx4bp5q4
http://pl.tunes.zone/artist-beto-guedes-soundtracks-77345

Coxilha Nativista (Cruz Alta/RS)


A Coxilha Nativista é referência de qualidade entre os festivais do Rio Grande do Sul.

Promovida pela Prefeitura Municipal de Cruz Alta, através da Secretaria Municipal da Cultura, é realizada ininterruptamente desde o ano de 1981. Caracteriza-se por ser um festival que preserva os valores de nossa cultura, oportunizando a músicos, autores e compositores apresentarem, em suas canções, as várias tendências do nativismo gaúcho. No ano de 1985, incorporou ao evento a Coxilha Piá e nos últimos anos a Fase Local, modalidades que incentivam os jovens talentos e a prata da casa.


Realizada no Ginásio Municipal de Cruz Alta, terra do escritor Érico Veríssimo, a Coxilha Nativista oferece uma ajuda de custo e premiação diferenciada e, ainda, aos primeiros lugares, os troféus Alta Cruz da Coxilha, O Carreteiro e O Tropeiro.


Galeria











Fonte:
http://www.igtf.rs.gov.br/?p=745

Fonte Imagem:
http://www.mundial.fm.br/index-site.php?pg=desc_noticia&id=3250
http://bahstidores.blogspot.com.br/2014/07/conheca-historia-e-todos-os-vencedores.html
http://bagualdownloads.blogspot.com.br/2015/04/6-coxilha-nativista-de-cruz-alta-1986.html
http://bagualdownloads.blogspot.com.br/2015/04/23-coxilha-nativista-de-cruz-alta-2003.html
http://www.identidadecampeira.com.br/2016/03/regulamento-da-36-coxilha-nativista-de.html

Tertúlia Musical Nativista (Santa Maria/RS)


A primeira Tertúlia Musical Nativista aconteceu em 1980 e se manteve em atividade até o ano de 1999, retomando sua trajetória em 2011. Evento de grande importância na consolidação do movimento nativista, deu notoriedade às tendências musicais e à poesia da região central do Rio Grande do Sul, tornando-se até nossos dias um celeiro de compositores, músicos e intérpretes.


Promovido pela Prefeitura Municipal, através da Secretaria Municipal de Cultura, tem como entidade apoiadora a Associação Tradicionalista Estância do Minuano e realiza-se no Largo da Gare – Centro Ferroviário de Cultura. O festival tem uma ajuda de custo e premiação diferenciada e proporciona aos primeiros colocados os troféus: Minuano, Amaury Dalla Porta e Antônio Augusto Ferreira. Alem da convivência com as belezas naturais e a hospitalidade do povo de Santa Maria, a Tertúlia Musical Nativista se realiza em novembro e é garantia de boa música na Terra do Vento Norte.


 Galeria









Fonte:
http://www.igtf.rs.gov.br/?p=794

Fonte Imagem:
https://www.arazao.com.br/noticia/71046/para-entrar-no-clima-da-tertulia-musical-nativista/
http://musicagpd.blogspot.com.br/2015/08/tertulia-musical-nativista-de-santa.html
http://www.prosagalponeira.com.br/2015/08/regulamento-da-xxiii-tertulia-da-cancao.html

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Califórnia da Canção Nativa (Uruguaiana/RS)



A Califórnia da Canção Nativa é um evento artístico musical que ocorre no Rio Grande do Sul desde 1971, considerada patrimônio cultural do Estado, sendo modelo de divulgação da música regional gaúcha.

Ocorrendo durante o ano provas eliminatórias em diversas cidades gaúchas, e por fim, após a triagem de mais de 500 músicas, as finais ocorrem na cidade de Uruguaiana, fronteira oeste do Rio Grande do Sul, onde, conforme o grau de vitórias, é concebido o prêmio máximo: a Calhandra de Ouro.

O evento surgiu em 1971 em meio aos anos de chumbo, reunindo as mais diversas variações musicais nativas do Rio Grande do Sul organizada pelo CTG Sinuelo do Pago e prefeitura municipal, ambos de Uruguaiana. Inicialmente, sua primeira edição não teve tanta repercussão porém, algumas edições tiveram mais de 60 mil pessoas e atualmente é o maior evento cultural regional do Brasil.

Conforme Cícero Galeno Lopes, em artigo publicado no livro RS índio: cartografia sobre a produção do conhecimento, Leopoldo Rassier conseguiu pela censura prévia e cantar a música Tema de marcação, (poema de Luiz Coronel musicado por Marcos Aurélio Vasconcellos), no festival de 1975, através de uma ambiguidade entre dois personagens históricos: o lunar de Sepé Tiaraju e a estrela de Che Guevara, já que ambos lutaram por liberdade, tinham "uma estrela na testa" e foram "pra baixo desse chão".


 A história dos festivais nativistas do Rio Grande do Sul tem início na década de 1970. O primeiro festival a surgir foi a Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, em 1971. Alguns eventos aconteceram anteriormente, há registros de um festival promovido pela TV Gaúcha em 1969, outro promovido por um CTG em Santa Maria em 1970. Mas o que realmente deu a partida para a grande disseminação da música gaúcha pelo estado foi a Califórnia.

A origem da Califórnia é contada em "Califórnia da Canção Nativa - marco de mudanças na cultura gaúcha", de Colmar Duarte e José Édil de Lima Alves (Ed. Movimento). Resumindo, Colmar Duarte e companheiros decidiram organizar um festival de música do Rio Grande do Sul por não terem sido classificados em um festival de músicas promovido por uma rádio de Uruguaiana. A ideia foi levada ao CTG Sinuelo do Pago, que primeiramente não a aceitou, mas, após Colmar ser eleito patrão, abraçou a causa. E assim surgiu a "Mãe dos Festivais", como diz Jerônimo Jardim.

Depois da Califórnia, outros festivais foram surgindo - a Ciranda de Taquara, em 1972, e a Vindima de Flores da Cunha, no mesmo ano, foram os primeiros "filhos". Com características um pouco diferenciadas, esses festivais valorizavam, além da música gaúcha, a influência da imigração - alemã e italiana, respectivamente. A Ciranda foi bienal nos primeiros anos, deixou de ser realizada por algum tempo, voltou mais tarde e finalmente caiu no esquecimento. A Vindima também não acontece mais.

A década de 1980 viu uma explosão de festivais pelo estado. Notadamente, os mais importantes (no meu entendimento) foram Tertúlia de Santa Maria (1980), Coxilha de Cruz Alta (1981), Seara de Carazinho (1981) e Musicanto de Santa Rosa (1983). Inúmeros festivais se seguiram: Gauderiada, Reponte, Ponche Verde, Reculuta, Moenda, Ronco do Bugio, Tafona, ... Chegamos a ter mais de 60 eventos num ano. São mais de 200 títulos no total. Alguns não passaram de uma ou duas edições.

Tivemos um festival de intérpretes em Caçapava do Sul que premiava o vencedor com um automóvel zero-quilômetro. Houve também uma mostra em Porto Alegre de músicas participantes de outros festivais: Tchê - o Festival dos Festivais. Com ideia semelhante aconteceu em Tramandaí o Eco dos Festivais, em que participavam somente as vencedoras de outros eventos. A Mostra Farroupilha de Nativismo, acontecida no ano do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, também ajudou a incentivar os festivais.




 A música gaúcha se espraiou e os festivais também. Santa Catarina começou a organizar a Sapecada da Canção em Lages e outros em várias cidades. O Paraná teve o Cante-Terra em Campo Mourão e mais alguns.

Hoje acontecem em torno de 30 ao ano no Rio Grande do Sul. Todo ano surgem novos, antigos desaparecem e alguns parados voltam a acontecer. A dinâmica depende muito da política, apoio de prefeituras e leis de incentivo, por isso há uma grande variação. Mas é um mercado que movimenta muita gente e muitos recursos, e eu gostaria de ver estudos a respeito. Tento fazer uma parte, registrando aqui o que está ao meu alcance.


Galeria



 






Fonte:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Califórnia_da_Canção_Nativa
http://festivaisnativistas.blogspot.com.br/p/historia-dos-festivais.html

Fonte Imagem:
Fonte: http://www.radioculturaam1260.com.br/noticias/noticia/geral/inscricoes-para-a-california-da-cancao-nativa-encerram-hoje/331
Fonte: http://www.riogrande.rs.gov.br/pagina/index.php/noticias/detalhes+cae6a,,rio-grande-e-uruguaiana-firmam-acordo-de-cooperacao-para-etapa-seletiva-da-california.html
http://bagualdownloads.blogspot.com.br/2014/07/1-california-da-cancao-nativa-do-rs-1971.html
http://bagualdownloads.blogspot.com.br/2014/07/15-california-da-cancao-nativa-do-rs.html
http://musicagpd.blogspot.com.br/2012/03/california-da-cancao-nativa-do-rs-12.html
http://bagualdownloads.blogspot.com.br/search/label/Calif%C3%B3rnia%20Da%20Can%C3%A
7% C3%A3o%20Nativa
http://musicagpd.blogspot.com.br/2012/03/california-da-cancao-nativa-do-rs-14.html