quarta-feira, 16 de junho de 2021

"A cultura popular propõe um chão de desafios para nos tornarmos indivíduos melhores”


Entrevista do Portal Aprendiz à Rosane Almeida - Grupo Brincante
 
As escadarias que levam aos andares superiores do Instituto Brincante são forradas de memórias. Retratos emoldurados em madeira revelam os rostos pintados e as indumentárias coloridas de quem fez história no espaço que há mais de duas décadas se dedica a estudar e disseminar a cultura popular brasileira.  Sua fundadora, a brincante e dançarina Rosane Almeida, está em alguns dos quadros, ora sozinha performando, ora de braços dados com o também fundador Antonio Nóbrega.
 
Quando estrearam o espetáculo conjunto Brincante, em 1992, a dançarina natural de Curitiba (PR) e o ator pernambucano tiveram dificuldades de atrair o interesse dos palcos paulistas para as manifestações culturais que tanto enfeitam e colorem os estados nordestinos, onde aprenderam juntos a brincar.
Foi percebendo essa mesma carência entre a população que eles criaram o instituto no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Hoje, o espaço oferece formações como Estudos da Cultura e Música Tradicional da Infância,  Percussão Brasileira e Danças Afro-brasileiras.


Além de fundadora, Rosane é responsável pelo desenvolvimento artístico e pedagógico do instituto. Seu trabalho tem sido encarar a cultura popular como um território de saberes inesgotáveis e transformar os indivíduos por meio da educação e da arte.

Os participantes que escolhem um dos cursos oferecidos não presenciam nos espaços de amplas janelas ou sob as luzes amarelas dos palcos reproduções de festas como reisado ou o cavalo-marinho. As brincadeiras,  quando estudadas, apresentam estruturas para que o indivíduo se conheça, conheça o outro e crie o que tem sustentado a repetição dessas manifestações até hoje: o espaço para criar.

A artista é uma das responsáveis pela estruturação do curso A Arte do Brincante para Educadores. Nele, educadores são convidados a se despir de processos ortodoxos de formação e encontrar nas tradições populares formas de desenvolver sua autoestima e das crianças e adolescentes com quem trabalham.
 
Com uma sanfona em mãos e tambores adormecidos nos pés, Rosane conversou com o Portal Aprendiz  sobre a inteireza de ser brincante e a relação entre saberes populares e educação.



Portal Aprendiz: Como poderíamos definir um brincante?
Rosane Almeida: Os artistas populares se autodenominam brincantes porque brincam uma ‘brincadeira’ ou ‘folguedo’ quando performam dentro de manifestações culturais. Suas origens remontam à brincadeiras que foram reivindicadas com muita convicção em cenários de infrações da dignidade humana, como processos coloniais de escravidão e genocídio. Ou seja, conclamadas por pessoas que não podiam e não distinguiam seu fazer artístico de de sua vida áspera.

Quando alguém se considera brincante, ele está fazendo uma escolha: quer dar o melhor de si todo tempo. Ele performa rituais onde concretiza o ideal de uma beleza interior que altera a visão que os brasileiros mantêm de seu próprio povo, exclamando: “Não somos um povo cinza, somos coloridos, não somos analfabetos, temos potência, somos reis e rainhas!”.

Se você conversar com brincantes, perceberá que são pessoas generosas, muito lúcidas e bem-humoradas. Isso porque o objetivo final de dançar ou encenar um personagem fantástico no cavalo-marinho deve ser a manutenção de uma integridade psíquica e de um ganho emocional. A perseguição de uma inteireza do ser.



Portal Aprendiz: Os brincantes só existem dentro de manifestações culturais tradicionais?
Rosane Almeida: Não. Veja bem, quando as brincadeiras começaram a ser semeadas, o tempo era de caos: você tinha negros que falavam línguas diferentes a dividirem estruturas únicas, índios tratados como animais e portugueses que vinham povoar o país como punição por delitos em sua terra natal. Foram justamente esses encontros forçosos que fizeram com que nossas festas se desenvolvessem de maneira rica, pois as culturas que as criaram tinham na memória elementos muito bem estruturados.

Repare nos primórdios do cavalo-marinho, brincadeira tradicional da zona da mata pernambucana. Quando esses povos se encontraram, todos comemoravam de formas particulares o solstício de verão. Para se comunicar festivamente, essas populações trocaram memórias de alegria: os negros trouxeram o pulsão de sua memória rítmica. O índio, por sua vez, levou uma lembrança de desenhos espaciais, ocupando terrenos em roda. E o europeu fechou o folguedo com a estrutura melódica.

Temos que parar de pensar nas manifestações culturais como se estivessem paradas no tempo. Todo material de cultura popular que chegou aos dias de hoje é fruto da felicidade do fazer e só sobreviveu porque se alterou. E quem brinca nelas também. Ao pensar que só no sertão do Cariri alguém pode ser brincante, estamos apequenando o aprendizado e limitando seu saber.

Portal Aprendiz: E como isso se reflete no trabalho de formação do Instituto Brincante?
Rosane Almeida: A arte e a cultura popular propõem um chão de desafios para nos tornarmos indivíduos melhores. Na medida em que você toca, dança ou canta, você se realiza em estruturas que se refletem em todos os aspectos de sua vida. O cantar te coloca diante de palavras que proporcionam um discurso melhor, orientando o seu falar. O dançar te coloca de maneira orgânica de encontro com o outro e o território ocupado. E quando você menos percebe, você está brincando.
 
Portal Aprendiz. E com os educadores? Como é o trabalho?
Rosane Almeida: Cada um dos educadores que compõe o Instituto Brincante tem uma história de vida: a do Nóbrega olha para a questão da palavra e como ela se constrói poeticamente; eu, por outro lado, penso o corpo dentro da dança. Todos encontraram aquele lugarzinho onde seu fazer se expressa. O curso A Arte do Brincante para Educadores quer ajudar os professores a encontrarem o deles.
 
Dentro dos espaços educativos, como a escola, se cobra de um professor que ele ofereça aos alunos liberdade, autoestima, empoderamento, sentimentos que nunca experienciou no seu processo de formação. Então, usamos procedimentos de cultura popular brasileira para que o educador reconheça o quanto pode ser criativo. Mais importante: o que ele gostaria de investir enquanto aprendizado e o que não faz sentido.

Dentro da tradição, você encontra ferramentas, mas elas não podem ser um fim por si só. Não vamos dançar reisado no Instituto Brincante. Vamos construir experiências que dizem respeito ao encontro do educador com outro educador, naquele curso, naquele tempo-espaço onde elas aconteceram.


Portal Aprendiz: Poderia dar um exemplo de como uma tradição brincante pode ser ressignificada?
Rosane Almeida: Não existe nenhuma poesia estruturalmente tão rica quanto a feita no Brasil. Você tem sextilhamartelo agalopado  e tantas outras estruturas particularizadas pelas regiões onde germinaram. Uma das mais famosas é a quadrinha, onde o segundo verso rima com o primeiro:
Batatinha quando nasce Espalha a rama pelo chão Menininha quando dorme Põe a mão no coração (…)

As quadrinhas foram inventadas há muitos anos, fazendo sentido no contexto de criação. Agora, não tem cabimento replicá-las. No Brincante, lançamos o desafio: faça sua própria quadrinha! Não cante sobre a batata, cante sobre um presidente que dilapida o país, sobre uma mídia opressora, enfim, sobre o seu cotidiano. Porque a criatividade depende do presente.

Enquanto brincante, meu trabalho é o de fazer as pessoas enxergarem que: tão importante quanto intervir na coletividade, é entrar fundo, verticalmente, nessa qualidade do ser humano que se move na verdade do seu entorno.

*Imagem de destaque gentilmente cedida pela pesquisadora Gabriela Romeu. A foto faz parte do trabalho Meninos e Reis, investigação sobre Reisado e infância no sertão cearense do Cariri. 
 


Aspectos do Folclore Brasileiro - Mário de Andrade

 

Mário de Andrade conhecia o Brasil como poucos, graças às leituras e viagens que realizou ao longo de sua vida por vários cantos do país. A obra "Aspectos do folclore brasileiro" simboliza parte do fundamental conhecimento que ele acumulou acerca do conjunto de tradições e costumes que integraram a formação do povo brasileiro. Uma obra essencial para conhecermos mais sobre a cultura de nosso país.

Introdução às Culturas Populares no Brasil - Otávio Zucon e Gislline Giovana Braga

 

Os estudos sobre cultura brasileira têm adentrado, cada vez mais, as salas de aula, tanto na educação superior quanto nos ensinos fundamental e médio. No entanto, quando o enfoque são as chamadas culturas populares, ainda faltam subsídios bibliográficos e teóricos de caráter didático. As culturas regionais, as relações entre erudito e popular, tradicional e moderno, assim como o universo de criação artística, a religiosidade e os ofícios fazem parte do caldeirão fervilhante dos debates contemporâneos sobre o Brasil. Nesta obra, os autores conduzem uma análise introdutória, de caráter histórico e antropológico, das culturas populares no Brasil. Dessa forma, são destacadas a importância e a riqueza dos saberes, fazeres e das celebrações das diferentes classes populares, que, historicamente, atraem a atenção de intelectuais de todo o mundo e são, há muito, um tema instigante e encantador de estudos.




Arte Brasileira na Têmpera de Alfredo Volpi

 

De origem modesta, o artista ítalo-brasileiro não teve uma educação formal de arte. Aos 48 anos realizou a sua primeira mostra individual e vendeu todas as telas, sendo uma para o escritor Mário de Andrade.

"Alfredo Volpi (1896-1990) era de uma simplicidade quase franciscana: usava trajes modestos, sandálias, fez do cigarro de palha seu companheiro mais fiel. Produzia manualmente suas tintas, mantinha sua casinha e ateliê no Cambuci e adotou inúmeros filhos (estudiosos de sua obra chegam a contar dezenove).

Mas o seu legado sempre foi tido como um dos mais complexos por diversos especialistas, que fazem questão de afirmar que as obras de Volpi nada têm de "intuitivas", mas de muita observação e genialidade.

Volpi foi um dos artistas mais importantes da segunda geração do modernismo brasileiro. Ele foi um autodidata que estava além das academias e do profissionalismo das artes, passou da pintura acadêmica para a pintura abstrata geométrica e construtiva, que o consagrou...

Volpi pintou as Paisagens Paulistas...



Volpi pintou os Casarios...




Volpi pintou as Fachadas...





Volpi pintou as Fachadas com Bandeirinhas...



Volpi pintou as Bandeirinhas e Mastros...







Texto extraído de: https://deniseludwig.blogspot.com/2013/04/arte-em-pinturas-de-alfredo-volpi-e.html

Em busca da alma brasileira - biografia de Mário de Andrade


 
Escrito com base em pesquisa bibliográfica e documentos de primeira mão, Em busca da alma brasileira – biografia de Mário de Andrade passa a limpo um dos capítulos mais fascinantes da nossa história cultural e que traz muitas lições para o Brasil de hoje.

“Nas pegadas deste Mário de Andrade de Jason Tércio, aprendi mais sobre 1922 e o modernismo do que em quase tudo o que já tinha lido a respeito. É, para mim, o melhor livro feito até hoje sobre aquela turma – nunca as suas grandezas e pequenezas ficaram tão evidentes.” ― RUY CASTRO


ALMA CALEIDOSCÓPICA

Estávamos em 2015 quando a notícia da iminente publicação desta aguardada biografia, escrita pelo premiado jornalista, escritor e tradutor Jason Tércio, começou a figurar entre as várias homenagens programadas para a celebração dos 70 anos da morte de Mário de Andrade.

Mas a expectativa pela chegada deste livro vinha sendo acalentada desde 2012, quando a mídia especializada começou a noticiar que Tércio estava a escrever aquela que poderia ser a primeira biografia, no sentido lato, de um dos principais escritores do país.

Cada nova matéria na imprensa, cada nova descoberta de Jason Tércio acerca da vida de Mário de Andrade davam-nos conta de que os leitores teriam definitivamente uma biografia à altura da importância desse brasileiro cuja morte, em 1945, significou, nas palavras de Antonio Candido, uma perda comparável somente à de Machado de Assis.

A espera acabou. Em busca da alma brasileira – biografia de Mário de Andrade demorou o tempo que precisava para ser publicado. O que o leitor verá em cada página é a mais competente reconstituição do contexto histórico em que o genial escritor nasceu, viveu e fez desabrochar todo um oceano de realizações em diferentes áreas.

O livro é também um profundo e significativo esforço de compreensão da alma de um dos mais importantes brasileiros de todos os tempos. Em sua obsessão pela busca da alma brasileira, o Mário revelado por Tércio é ousado e tímido, recatado e escandaloso, confessional e comedido, modesto e vaidoso, apolíneo e dionisíaco, singular e plural.

Caso único de nossa cultura, Mário era um autodidata com visão multidimensional, que teve consciência de seu papel histórico, esteve no centro dos principais debates num dos períodos mais agitados do país e, ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, sempre prezou pela coerência. Mário de Andrade é tão grande que não caberia em nenhum livro convencional, mas o que Jason Tércio consegue aqui é revelar um Mário que ninguém jamais conseguiu apreender.

terça-feira, 15 de junho de 2021

Belchior - Apenas uma rapaz latino-americano


A morte de Belchior, em abril de 2017, foi uma comoção nacional. Dez anos antes, o artista desaparecera. Foi a partir do mistério desse sumiço que Jotabê Medeiros deu início à pesquisa para um livro sobre o autor de clássicos como "Velha Roupa Colorida", "Alucinação" e "Como nossos pais". Realizou dezenas de entrevistas com parceiros musicais, amigos, familiares e produtores de seus discos. Apenas um rapaz latino-americano traz períodos pouco conhecidos da vida de Belchior, como os anos em que passou em um mosteiro, na adolescência. Foi ali que o artista travou seu primeiro contato com a literatura e a filosofia e habituou-se ao silêncio e à introspecção que seriam características marcantes até o fim da vida.




UMA IMAGEM, MUITAS PALAVRAS...

 

As bandeirinhas de Alfredo Volpi